Entrevista em Trânsito – Marcos Espíndola

O blog Transitoriamente está fazendo uma série de entrevistas com diversas pessoas do meio artístico, músicos, fotógrafos, cineastas, atores e jornalistas, com o nítido intuito de tentar elucidar e trazer à tona alguns pontos que muitas vezes não são discutidos nas mídias segmentadas. Arte vs. Política; Pontos de vista particulares vs. Opinião pública; Amizade vs. Negócios, Jornalismo vs. Publicidade. Tudo em perspectiva.
O “Entrevista em Trânsito” estreou na semana passada com uma quente entrevista com a banda Lenzi Brothers, que ali foi representada pelo guitarrista Márzio Lenzi.
Márzio não poupou nada em suas respostas, sendo que recebi diversos comentários muito positivos à respeito do posicionamento do guitarrista.
O entrevistado dessa vez é um jornalista que vem trabalhando pela causa da música autoral catarinense há alguns anos e que, portanto, é voz ativa e relevante nas discussões musicais aqui no Estado.
Marcos Espíndola está a frente da coluna Contracapa do Diário Catarinense, há 1 ano apresenta (junto com Kléber Bola) o programa Paredão Contracapa – todos os sábados na Atlântida FM – e prepara para breve (dia 16 de abril) o blog ContraVersão, junto com o também jornalista Renê Muller, editor do caderno Variedades do DC.
Nessa entrevista abaixo Espíndola foi direto ao ponto e mostrou muita clareza em suas pontuações, sem esquivos ou indiretas.
Vale conferir.
Um abraço, Antonio Rossa
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1 – TM: O Paredão Contracapa nasceu com uma proposta quase experimental, no sentido de que vocês teriam apenas 3 meses para emplacar a idéia. A festa de 1 ano do programa coroa o sucesso dessa empreitada ou ainda é preciso conquistar mais espaço para se firmar?
Marquinhos: Que festa rapaz?! A gente ainda nem começou a comemorar ainda. A reunião com o Daza foi só a celebração factual da data, mas temos muito barulho por fazer. Afinal foi um ano de uma luta dramática, de convencimentos interno e externo. Internamente, digo dentro da empresa, não tivemos problema algum, pelo contrário, a causa foi abraçada fervorosamente dentro da rádio e da RBS, além dos demais veículos do grupo que sempre nos deram todo o suporte.
A questão ainda é quanto ao público, que requer uma atenção maior, que precisa se acostumar com a ideia e isso não acontece do dia para a noite (digo em um ano..ehehe). Mas acredito que vencemos uma etapa decisiva e agora partiremos para ações mais arrojadas, o que está decisivamente ligada a questão da consolidação do espaço junto aos ouvintes.
Por exemplo, o Paredão vai sair dos estúdios da Atlântida e ganhar as ruas. Entendemos que esta seja a melhor forma de se consolidar esta aproximação entre os ouvintes e as bandas. Mas tem muita coisa engatada para este ano sabático para o projeto. Uma delas é conseguir viabilizar a série de EPs que pretendemos lançar com bandas que passaram pelo programa. Seriam quatro EPs com cinco faixas de bandas distintas. Ainda no ano passado começamos os contatos com as bandas. Só depende agora do patrocínio mesmo.
2 – TM: Qual o critério para uma banda tocar no programa quando se observa que muito da qualidade de uma cena fica tantas vezes fora dos meios? A culpa é do segmento, das bandas ou dos jornalistas?
Marquinhos: Cara, a nossa premissa é basicamente a qualidade na gravação e na produção. Quanto aos gêneros tentamos aproveitar o máximo dentro do conceito da rádio, que é pop. Mas neste universo você vai do indie, ao kraut rock, ao electro, ao experimental, ao reggae, enfim.
Em Santa Catarina predomina o rock, principalmente nas demais regiões do Estado. Mas sempre procuramos também diluir outras propostas, como o instrumental, que transformou Florianópolis num dos pólos mais criativos do país. Não podemos ignorar estas movimentações, mas tratamos com um tipo de público que não está ambientado com esta proposta e precisa ser apresentado e não “bombardeado”.
Não vejo como culpa de ninguém Rossa, venho refletindo muito a respeito. Vivemos um momento de indefinição total, não sabemos para onde vamos, qual modelo a ser adotado. O público se segmenta, os artistas se segmentam e os meios também buscam e seguem o mesmo caminho, mas tudo na base do erro e acerto. Hoje muito mais nos erros…
3 – TM: Como você observa a quase inevitável possibilidade que todo meio de comunicação tem de se tornar parcial e paternalista em algum momento, isto é, apadrinhando alguns e “excluindo” outros? É possível ficar isento numa cidade que muitos dizem ser ainda provinciana? A nossa crítica musical não estaria afogada em panos quentes?
Marquinhos: Primeiro, não sei se nossos artistas estão devidamente preparados para a crítica. Não faço crítica, divulgo trabalhos, bandas, na verdade é um trabalho jornalístico voltado para a cultura. Uma cobertura e não uma crítica.
Quanto ao “todo meio de comunicação tem de se tornar parcial e paternalista” fale por você. Eu julgo a afirmação temerária, pois não podemos colocar no balaio uma série de iniciativas independentes que estão ajudando a oxigenar a cobertura cultural. O Transitoriamente é paternalista e parcial? A Contracapa é paternalista e parcial?
Não vejo problema em ser parcial quando você se entusiasma e gosta de um determinado trabalho ou abraça uma causa que você julga que terá uma grande contribuição no espectro social. O Clube da Luta foi abraçado pela Contra, porque julga a iniciativa relevante e representativa dentro de um cenário, assim como uma série de outras ações e mobilizações que ocorrem neste Estado. Veja o caso de Joinville, Rio do Sul, Chapecó, as frente do cinema, do teatro, das artes visuais. E isso vem de um ambiente que é fruto deste momento: de espaços segmentados para estas coberturas, com foco na questão cultural e por isso sempre cobrirão melhor, estarão sempre a frente da mídia digamos “analógica”.
Se o Transitoriamente, o Mundo 47 ou o ContraVersão a partir de amanhã se enveredarem para a cobertura política do cenário catarinense ou do futebol vamos tomar na cabeça, não é não? Esse povo que está nas FMs, nas redações das tevês e jornais também precisam ser devidamente apresentados a estas novidades. Ali é a Clínica Geral, onde tudo deve ser diluído para um público que se informa na sua grande forma no “atacadão”.
Cabe a nós fazer o devido barulho para que se faça ouvir nas redações.
4 – TM: A cena musical catarinense se renova em boa velocidade?
Marquinhos: É um processo contínuo e percebo que está mais seguro hoje. Vencemos aquelas etapas em que os ciclos se davam por limbos criativos, uma pasmaceira, depressão. Agora não, surgem movimentos aqui e acolá, morrem no dia seguinte, mas a produção continua pipocando. Morre um Clube da Luta, mas suas bandas continuam – pelo menos aquelas que realmente têm cacife para seguir adiante. Então ele cumpriu o seu propósito, de revelar e não de levar todos nas costas.
Em Florianópolis há uma série de outras movimentações em curso, de bandas criando, de coletivos dialogando. Tem o projeto SCConectada que ainda vai dar muito caldo. Então você pega a BR e sobe para Joinville, que vive uma efervescência. Chapecó e o Oeste é um celeiro de bandas, assim como a Serra e o Vale do Itajaí, que a partir de Rio do Sul e Blumenau estão produzindo a mil. A questão é essa: há uma produção em processo contínuo e arrisco dizer que isso é um bom indicativo de que enfim estamos criando uma cena.
5 – TM: As obras no CIC parecem infindáveis e quase não existem espaços para as bandas tocarem com qualidade em Florianópolis e região. Não seria o momento certo para as bandas começarem a utilizar mais as ruas, já que dificilmente os governos irão dar a ajuda realmente necessária para o meio?
Marquinhos: Sobre utilizar as ruas, demorou! Faz quatro anos que eu vi o Andrey e a Baba e o Samambaia ocuparem as Escadarias do Rosário numa noitada incrível e depois daquilo não rolou mais nada naquele espaço. Está ali é só ocupar. Governo não ajuda, governo está ali para servir. Tem que bater no Ipuf, na prefeitura ou na FCC e cobrar espaço.
Temos que sair da passividade e parar de chorar isoladamente. Rossa, governante é servidor público e não nosso “patrão”!
6 - TM: Qual a proposta do novo blog ContraVersão? O que o público pode esperar da junção do Tra-lá-lá com o Blog do Marquinhos?
Uma derradeira tentativa de se cavar uma nova trincheira, que opere por conta própria, independente da cobertura diária dos seus respectivos espaços no DC. Música, literatura, cinema, quadrinhos e todas as formas possíveis e subversivas de arte estarão sob o foco deste caleidoscópio da cobertura pop. A junta psiquiátrica que nos acompanha agradece desde já a compreensão e o incentivo de todos – afinal, pensem bem, nós poderíamos estar roubando, né?
ContraVersão entra no ar no dia 16 de abril ofertando aos seus internautas, além das tradicionais resenhas e agenda cultural, vídeos produzido ao longo das ultimas semanas, como uma entrevista com a banda Cassim & Barbária e uma discussão sobre o bom momento que o cenário da música em Joinville atravessa. Estrearemos também o ControVerso, um podcast semanal sobre música, cinema e amenidades da cultura pop.