SETE QUESTÕES para Marcos Espíndola. (Quarta Edição)

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Não sei se já se foi o tempo em que jornalista e público mantinham uma distância “ideária” e geográfica estratosférica, porém Marcos Espíndola, que assina a Contracapa do caderno Variedades do Diário Catarinense, mantêm com o público uma ligação muito próxima, não apenas informando o que se passa no ambiente cultural mundo afora, mas também propondo idéias e refletindo as mudanças.  Analisando bem, é mais um dos sinais da mudança “estético-midiática” que se aproxima, uma ruptura necessária e real. Confira a entrevista:

1 – TRANSBLOG – Com a internet a informação ficou de alguma maneira mais acessível, até mesmo o gigante The New York Times, por exemplo, já sente a influência da tecnologia da informação. Ao mesmo tempo os blogs vêm ajudando a construir a opinião de muitas pessoas. É possível prever a posição dos jornais impressos daqui a 5 anos?

Marcos Espíndola – Dependendo da região, o impacto será mais rápido, como nos Estados Unidos e Europa. O acesso à informação on-line é muito maior e a opinião pública já se conscientizou de que a mídia tradicional já não supre mais as necessidades de informação e, principalmente, de interpretação da realidade, que a massa crítica requer. Você citou o caso do The New York Times, que é emblemático. Assim como outros jornais europeus, o TNYT já acusou o golpe e abriu o seu conteúdo para a Internet. Caminho sem volta, que no Brasil começamos a trilhar, muito embora os reflexos disso devam demorar a serem sentidos e compreendidos dados o pouco acesso à Internet no país. Mas veja o caso dos jornais, como a Folha, Estadão, O Globo e agora os jornais da RBS, dentre eles o DC, que também se lançam nas suas versões on-line. Justamente para buscar a agilidade que a versão impressa não acompanha, porém, há algumas experiências interessantes nisso, que é o investimento na reportagem que foi a sacada do Estado de S. Paulo com o lançamento da sua revista de domingo dedicada exclusivamente à reportagem de fôlego. Isso é um diferencial que a Internet não consegue assimilar e que ainda conta a favor do impresso. Penso que ainda temos um longo caminho pela frente.

2 – No Brasil, com sucessivos e repetidos escândalos nas mais diversas esferas da sociedade, não é de se admirar que a população faça da desconfiança quase um livro de cabeceira. Pode-se dizer que o jornalismo brasileiro, de um modo geral, é crível?

É crível porque a informação hoje está nas mãos da sociedade, ela é o agente balizador da atividade jornalística. Muito embora eu acredite que boa parcela da população não tem a devida consciência de que ela é responsável pela manutenção da liberdade de informação, e isso também diz respeito ao seu papel fiscalizador sobre a mídia, que a meu ver, não requer nenhum conselho de notáveis ou de palpiteiros de plantão. Basta apenas educação e, por conseqüência, consciência crítica a qual todo cidadão tem direito. Informar é libertar, como em situações adversas, pode ser também escravizar. Dias desses eu estava refletindo a respeito de uma carta que eu li no DC, de um conhecido chato e pseudo-intelectual raso de direita, uma verdadeira viúva da Ditadura, um proxeneta bitolado que até hoje acha que pode vigiar e patrulhar todo mundo de dentro da UFSC. Esse cidadão, que antes me causava asco – agora tenho pena – não consegue viver num ambiente de liberdade de expressão, ele sofre, não pode ouvir falar em Oscar Niemeyer. Essa sim é uma geração perdida, mas voltando a minha reflexão, o que fica claro é que a sociedade na sua grande parte dá demonstrações de que também não admite mais as privações sob a desculpa esfarrapada de que esse é o caminho para resolver seus problemas e os do país, seja pela esquerda ou pela direita. E acho que isso se reflete na cobertura jornalística, na medida em que se expõem abertamente as feridas e as mazelas da vida política nacional, incluindo também as da própria imprensa.

3 – Falando agora de arte, quais trabalhos vêm lhe chamando a atenção neste novo século em SC?

Interesso-me muito pela Street Art. Esse é o novo conceito, que encontrou nas ruas e nos guetos o espaço para expressar sua linguagem. É um diálogo da rua para rua, é nosso. Você só encontra gente em galeria de arte em dia de vernissage, sendo que a maioria vai para comer coxinhas e tomar vinho de Nova Trento. Um bando de velhos, caquéticos, que se fecham em “igrejinhas” com a tola idéia de que farão uma reserva de mercado. Assim também como a literatura. Vejo gente nova por aí, como o Daniel Galera e o Mutarelli, que são autores fantásticos e com um canal estreito de diálogo com o cinema, como o Beto Brant. Isso nos está revigorando, nos trás para a nossa realidade e nos mostra o quão especial é a nossa existência que, por mais normal que possa parecer, acaba nos surpreendendo. O cinema tem tratado isso com primazia, e falo do nosso cinema catarinense, que está numa fase realmente fantástica, com uma geração muito inspirada.

4 – Há muito tempo se fala na tal letargia cultural em SC. Ao mesmo tempo há muita gente batalhando, fazendo coisas apreciáveis e com muito talento. Por que SC ainda figura no mapa como um lugar de cultura indefinida?

Porque sempre foi pequena. Vou tentar reproduzir a linha de raciocínio do meu colega DC Fábio Bruggemann (se ele por acaso estiver lendo e eu cometer algum equívoco, por favor, me corrija): a nossa cultura é o retrato da nossa elite, que desde a implantação da República, se perpetua. É pobre, podre, tacanha e mesquinha. O que é o nosso governador defendendo a Eugenia? E aí posa de baluarte e grande mecenas da cultura. Vai pentear macaco!!! Ele é o rei nu, e eu não canso de dizer isso. Se ele não quer ouvir, o problema é dele, mas não sou obrigado a ter que aturar certos descalabros. Há algo de muito doente na construção da nossa identidade cultural e acredito que é aí que está o problema da questão. É essa elite que detém os meios convencionais de poder, em especial a educação e em outros os meios de comunicação, fazendo disso instrumentos para o seu projeto de poder. Mas aos poucos essa barreira vai desmoronando, à medida que mais e mais pessoas têm acesso a outras formas de educação e informação, como a Internet, por exemplo.

5 – A internet possibilitou que artistas independentes saltassem aos olhos do público. Um dos nomes que eu mais ouço falar aqui na Ilha é o do artista josefense Mekron, o que eu acho fantástico, pois se trata de uma arte urbana, viva e ao mesmo tempo quase improvável. Mekron seria um exemplo da nossa arte-moderna?

O lance é que com a Internet você pode tanto ficar com o joio quanto com o trigo, e vai de cada indivíduo determinar o que lhe serve de joio e o que lhe é trigo. Explico, o Mekron é um artista, não por suas músicas, mas pelo conceito de bizarrice e originalidade que apresenta. Ele colocou a cara para bater e, por acreditar nisso, acaba sendo levado a sério também. Ele é um cara muito interessante, porque por mais absurdo que a priore possa parecer, ele pesquisa, busca referências literárias e conceituais e expõe isso, ainda que de uma forma distorcida. Mekron desconstrói a realidade a sua maneira, dando um quê de legitimidade ao bizarro, assim como o Gurcius e o Baierstoff, dois cineastas catarinenses que seguem a linha do anarco-cinema. Consome quem quer, está ali, assim como o Arctic Monkeys ou a Ivete Sangalo. Digo tudo isso para concluir que se é verdade que Deus dotou o homem do livre arbítrio, a Internet é a ferramenta!

6  – Quais são os motivos que fazem com que nenhuma banda catarinense – ou quase nenhuma – figurem na programação das rádios em SC, pelo menos aquelas rádios com maior audiência? Ao mesmo tempo festivais como Planeta Atlântida ou mesmo “festas da cidade” ainda trazem o mesmo grupo de bandas há mais de 10 anos. Isso não seria um desprezo declarado pelo novo?

Os mesmos motivos pelas quais muitas bandas boas nesse Brasil também enfrentam: não estão no esquema. O mercado fonográfico no Brasil é o mais arcaico, o mais vil e o mais ganancioso que se tem notícia no Ocidente. Veja pelo que rola nas rádios, não há rodízio, eles não querem promover a renovação porque a renovação hoje navega em outros mares, na Internet. E as rádios, anacrônicas, acabaram virando um braço desse grande esquemão. Tem que estar envolvido com alguma gravadora, que banque ações de marketing, “apoios” e tal para poder figurar nas rádios. O problema, é que muitas bandas não querem fazer parte disso, porque é migalha. Então fica parecendo uma colônia de abelhas no meio do deserto, se fecham para dividir a mixaria e fazem uma reserva pobre e patética de mercado. Um cirquinho decadente que roda o Brasil em troca de um frigobar no camarim de algum festival midiático. Isso sem contar que, no caso da maior rádio em atividade aqui em Santa Catarina, esse proeminente cenário pop que surge no mercado não se enquadra no esquema dela. Daqui a pouco nem mais o Charlibra (sic). Vai virar pagoderia e Axé. Até o momento em que houver uma nova troca de guarda e alguém resolver dar outra guinada no foco. Mas quer saber, tudo bem! Isso não é um problema da RBS, cada um investe em seu foco, o problema é a incapacidade de outros meios desse estado em não promover a diversidade no setor. Isso é o pior. Malhar a RBS é fácil, agora criar alternativa ninguém quer. O problema todo tem um diagnóstico: a não regulamentação da atividade comercial da internet no Brasil. Na Europa se avançou muito, bem como nos EUA. E aí o que aconteceu, as rádios tiveram que correr atrás. As rádios estão caçando talentos na Internet, puxam da rede direto para a programação, como antigamente ocorria com a banda que gravava uma fita K7 e levava para o estúdio para o DJ tocar. Outra coisa, rádio é estúdio e estúdio tem que ter performances ao vivo. Quer coisa melhor? A Bilboard já há tempos incluem os números de downloads no seu ranking semanais. É isso, as rádios vão se ferrar, mas gravadoras também, porém a música continuará e as bandas seguirão se promovendo através de um caminho que não tem mais volta. Não há como segurar. Aí vem o Armandinho condenar a iniciativa do Radiohead em colocar seu disco na rede para o povo baixar e pagar o que estiver ao seu alcance e se quiser pagar. Otário, medíocre, massa de manobra. É outro que se vende pela coxinha no camarim do Planeta Atlântida. Pobre coitado!E outra, o povo das rádios emburreceu, na sua maioria não sabem o que acontece lá fora, não sabem o que acontece no seu mundo, ao seu redor, na esquina de casa. Não se informa e também não tem autonomia, vêm tudo mastigado de um “gerentão” cinco estrelas. Aí é até compreensível a situação do camarada que chega, abre o microfone, liga o “foda-se” e faz o dele. Não há estímulo. Isso também é outro fator que ajuda a explicar esse anacronismo. Sem falar que informação musical no Brasil é espécime em extinção. A gloriosa Bizz, por exemplo, fechou as portas em julho passado.

7 – Uma idéia para o futuro.

Sinceramente, é o presente. Agora eu construo o meu futuro. Quem sabe um dia, eu possa levar para as ondas do rádio esse trabalho que atualmente desenvolvo no DC e no meu blog. Mas só se for do meu jeito!

One Response to “SETE QUESTÕES para Marcos Espíndola. (Quarta Edição)”

  1. Paula Says:

    Gostaria de saber onde ver o mekron pessoalmente markinho da esse tok eu amo essa cantor
    valew

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