Belchior: Andar caminho errado pela simples alegria de ser…

Belchior Coração Selvagem

Não é de hoje, porém os últimos acontecimentos políticos, e que se espalham para os âmbitos sociais e econômicos, mexem com a nossa vida de uma maneira muitas vezes dolorosa.

Entendo que até certo ponto estamos meio que atordoados com a tal “Hora do Brasil”, afinal de contas os últimos anos foram intensos no quesito economia. Enfim,  agora nós podemos comprar em infinitas prestações, tem o Bolsa Família, dezenas de Bancos ligam para a nossa casa oferecendo crédito, mesmo que no fim nós tenhamos pago 2 produtos e tenhamos levado apenas um. É direito, e direito no Brasil  a gente não discute.

Mesmo que eu lhe dê uma bomba de presente, na retórica do Senado, por exemplo,  o que vale é o presente e não a bomba. Então há um preço muito caro por tudo isso, e cedo ou tarde a conta virá. 

As declarações do Presidente Lula defendendo Sarney, por exemplo, são dignas do mais severo asco, pelo menos por parte daqueles que defendem a integridade das coisas. Aliás, o que é a decência e a moral em um país onde toda verdade parece relativa, onde sempre existe uma área de escape jurídico fomentada por indícios de caixa 2?

A fuga de Belchior não me parece com aquilo que estão dizendo por aí, aliás, essa fuga deveria acometer alguns abutres que sobrevoam a áurea da nossa democracia. Esse espaço precisa ser preenchido pelo novo, pela decência.

Só que esses abutres não teriam essa capacidade de fuga, não é fácil deixar certas coisas de lado.

Belchior partiu, se foi, levantou poeira. Ele parece ter entendido que só o caminho é permanente, e que existe muita vida por aí querendo e precisando ser vivida. Essa vida que passa longe do aceitável, já que aqui aceitamos desde gordura – trans até chiliques de Fernandinho Collor de Mello e Renan Calheiros. Aceitamos entregar a Amazônia em troca de aparelhos eletroeletrônicos de terceira linha, e nos contentamos com uma certa escravidão moral.

Muitos pensam: vou mandar tudo para o espaço! Quantos de fato o fazem? Quantos de nós levamos a cabo o risco dos nossos sonhos?

Fugir não é apenas deixar propriedades para trás, é também se libertar das amarras do medo, do apego e do ego. Fugir é se encarar de frente, sem os espelhos comuns que refletem aquilo que a gente sempre espera de nós mesmos.

Tão iguais, iguais demais. No espelho da verdade somos também a complacência da indecência. Aliviamos a verdade, pois ela amanhã poderá nos faltar, e então pouca saída se terá, a não ser rezar para o Senhor e esperar um advogado chegar.

Abaixo deixo parte da letra (e também a música) de uma das minhas prediletas canções de Belchior, Coração Selvagem, do disco homônimo, de 1977. Depois ainda tem a belíssima “Comentários a respeito de John”,
Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver

Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida: “Vida, pisa devagar meu coração cuidado é frágil;
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela
Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser…
 


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