Não sou noveleiro, mas…

 

Anderson Müller por Marcos Serra Lima

Não sou um noveleiro, mas admito que posso ser a partir do momento em que uma boa trama começa a acontecer.

A Gata Comeu, Roque Santeiro, Tieta, Barriga de Aluguel, Pantanal, Tropicaliente e O Rei do Gado são novelas que me vêm em mente nesse momento quando penso em tramas que me fizeram parar para assisti-las. Cada uma em um determinado momento da minha vida e sabe-se lá por qual motivo. O ponto é que de repente você está ali, parado em frente a TV, abduzido pela representação da vida, e que tantas vezes você não viveu.

Em geral dois autores me fazem ficar por 1h em frente à TV: Benedito Ruy Barbosa e Glória Perez. Benedito por causa da fotografia, da preocupação estética que se aproxima do cinema, até mesmo na velocidade dos takes e dos acontecimentos, isso sem esquecer da carga histórica de suas novelas.  Já Glória devido a sua sempre notável preocupação em tornar uma novela algo além do mero entretenimento. Sim, é entretenimento e é comercial, mas existe uma causa por trás, uma preocupação em comunicar coisas fundamentais e de direto.

A nossa falha na organização coletiva é um dos grandes responsáveis pelas cretinices observadas em Brasília ou até mesmo no comportamento preconceituoso diante de doenças “sociais”, por exemplo.  Uma novela pode instigar certos comportamentos que nos faltam ou que nos sobram, ou pelo menos nos auxiliar a ver certas coisas por outra óptica. Uma espécie de pscicólogo geral das noites do País.

A novela também é democrática, pois parte dela pode ser escrita levando a opinião do público como norte. Quem vem antes? Por favor, não me pergunte.

Há essa mistura entre realidade e ficção, essa linha que nem sempre se divide com clareza. Mas aí é que mora o poder de quem escreve, e nesse ponto Benedito e Glória são mestres na arte da teledramaturgia.

Sim, devo admitir que nos últimos 2 meses, a TV Senado passou a ser uma das minhas novelas preferidas. Alguém consegue esquecer o episódio envolvendo os Senadores Fernandinho Collor de Mello e  Pedro Simon? Tem também aquela “bela cena” entre Renan Calheiros e Tasso Jereissati. Sarney na presidência do Senado já é tragédia, com boas pitadas de humor, é claro.

A novela é um dos nossos melhores produtos e uma marca registrada do Brasil. O cinema até pode ser Norte-Americano, Italiano e Francês, mas novela é Brasil (e Rede Globo), e ninguém até agora conseguiu competir. Até mesmo a Rede Record, que melhorou a qualidade das suas novelas, mas ainda assim precisa dar mais alguns bons passos. 

Como um ponto chave da conversas do dia seguinte em todo o País, as tramas escapam da TV e passam para o cotidiano das pessoas, por isso existe uma grande responsabilidade por parte de quem escreve e produz. No dia seguinte alguns hábitos começam a ser moldados por aquilo que milhões de pessoas viram na noite anterior. Da moda aos jargões, muita gente parece viver como parte dessa novela. O importante é que elas nos ajudem não apenas a consumir, mas a entender um pouco o mundo que nos cerca.

Atualmente Glória Perez está escrevendo Caminho das Índias e Benedito Ruy supervisionando o remake de Paraíso, novela originalmente de 1982.

Foto de Anderson Müller por Marcos Serra Lima

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