Quando a hipocrisia chega ao alto do pódio

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Dois episódios, de mesmo teor, ocorridos na semana passada expuseram uma questão que cada vez mais precisa ser discutida com o mínimo de respeito e lucidez, da mesma forma que a questão da maconha, do álcool e do tabaco precisam ir além da hipocrisia, e gerar um discurso sério e propositivo para a sociedade.

Em âmbito mundial, o piloto Nelsinho Piquet, depois de toda a polêmica entre ele, Flávio Briatore e a Renault, foi chamado de gay. Sim, quando todos os argumentos secam, você olha para o objeto de discussão e ataca a sua sexualidade, puramente.

É como se você pudesse esconder as suas falhas éticas e morais a partir do momento em que você atacasse a sexualidade do outro.

A forma como eu transo com alguém é mais importante do que o meu comportamento ético? Tenho certeza que não, mas o alarde coletivo é sempre mais agressivo com a sexualidade das pessoas do que com as suas escolhas éticas e morais. É fato.

O que a FIA terá que resolver agora não é se Nelsinho é ou não gay, se ele é vegetariano ou não, mas sim se o piloto e o seu ex-chefe devem ou não permanecer na Fórmula 1 diante de fatos tão sórdidos, ou que tipo de punição será aplicada a eles.

Aqui em SC, numa discussão à respeito da cena catarinense de música na última semana, o músico Jean Mafra também foi chamado de gay, de forma agressiva, como se agora num release de um disco você precisasse colocar seu nome, idade e sexualidade.

Eu me chamo Antonio Rossa, tenho 29 anos e sou macho. Como assim? O que eu decido fazer com a minha sexualidade só diz respeito a mim e a quem estiver envolvido. Tanto que hoje a “passeata” se chama da “diversidade”, o que envolve todas as preferências.

Não sei e sinceramente não quero saber se Nelsinho, Mafra, Joana e Cris são heteros, homos ou que mais possam ser, isso não os faz melhores ou piores.

Mafra lançou o clipe de Dobra, há pouco menos de 1 mês, ao meu ver com a nítida proposta de expor essa situação, de colocar o tema em pauta. Lá estão as esquinas da solidão, do amor e das escolhas; e porquê não a amplitude do desejo? Não que todos devessem enxergar da mesma maneira, e sabe-se lá quantas maneiras existem. Para mim, Jean Mafra merece pelo menos respeito, fora toda a sua qualidade como artista e agente cultural.

Buceta, essa é uma das palavras “neo-pagãs” que as crianças não podem ouvir e a sociedade “estabelecida” não consegue aceitar. É verdade, a gente aceita que alguns políticos corruptos pensem os caminhos da nossa sociedade, ou ainda que crianças sem comida e educação perambulem pelas ruas, mas não aceitamos certas palavras. Estamos no século XXI, é importante salientar isso.

Não preciso afirmar com veemência que a educação também pode ser medida pelas palavras proferidas e também por aquelas deixadas de dizer, mas ainda assim é preciso analisar os contextos e a que se destinam. Assim sendo, “coitado” deveria ser retirada do uso comum, já que coitado também pode ser entendido como alguém que sofreu a ação do coito (ato sexual). 

A sociedade parece admitir (ou pelo menos reage sem agir) que um médico seja expurgado pela Igreja, por tentar salvar uma menina que foi estuprada pelo próprio pai, mas não consegue entender que uma pessoa pode determinar suas preferências íntimas.

Jean Mafra por Antonio RossaNão vi ali, na canção de Mafra (nem no clipe) nenhuma tentativa de agressão sexual ou moral, a não ser um ato de liberdade, uma linda poética envolvendo – em suma – o órgão genital feminino e a sutiliza de uma rosa. As interpretações podem ser ínumeras, depende de você.

Se a sociedade não aceita o homossexualismo, o problema não é dos gays, das lésbicas ou dos heteros (denominações para indicar preferências), mas da própria sociedade, que prefere gastar suas mágoas e repreensões em tarjas-preta, “armários” e shopping-centers.

Entendo que em países como o Brasil, onde o culto a estética do corpo chega a níveis quase claustrofóbicos, exista uma espécie de “dívida” entre aqueles que expoêm sua sexualidade a toda sorte e os que conseguem delimitar e diferenciar a importância estética das questões que envolvem outras capacidades. O sub-produto dessa excessiva admiração parece vir em forma de agressão e intimidação sexual. 

Você pode assistir ao clipe e falar/pensar o que você quiser, agora desrespeitar a opinião e agredir outra pessoa, ao meu ver, não é justo. É homofóbico e degradante. Perde eu, perde você e perde o mundo.

Por meses a fio, programas dominicais brasileiros – de alta audiência – toparam mostrar crianças, jovens e adultos rebolando na “boquinha da garrafa”. O que isso significa afinal?

Digo e repito: caráter e ética não possuem sexo, ou você é ou não é. Não existe meia-ética ou meio-caráter, e isso não envolve o que você faz da sua sexualidade.

Não me assustaria ver um código de conduta sexual ser votado em plenário, do tipo: Caso você transe assim, seu código é X, caso você transe assado, seu código será Y. Um maniqueísmo puro e pouco esclarecedor.

Então, a hipocrisia poderia se tornar matéria do ensino fundamental, com possibilidade de desenvolvimento no terceiro grau e futura especialização. Sim, pois é muito difícil conviver num mundo tão infectado por essa doença humana chamada HIPOCRISIA.

Segundo o nosso estimado Aurélio, hipocrisia é impostura, fingimento; manifestação de virtudes ou sentimentos que realmente se não tem.

Enquanto o mundo gira, perdemos tempo e dinheiro ao não encarar de frente questões que são fundamentais para a nossa própria trajetória. O que deveríamos fazer com o nosso descaso com o meio-ambiente? E a nossa inércia diante das políticas públicas nacionais? Atentarmos contra a sexualidade dos responsáveis, encobrirmos os fatos e depois ficarmos calados?

O mundo não deixará de ter homo, hereto ou pansexuais, a questão é a maneira como as pessoas aceitarão algo que jamais deixará de exisitir. O resto é decência e dignidade, mas aí é outra esfera.

Antonio Rossa

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