NUVEM: Parte III

antonio e jiva  

Eu componho canções há pelo menos 15 anos. Não adianta me pedir para tocar “aquela canção”, muito provavelmente eu não saberei.

Acredito que comecei a compor antes mesmo de tocar algum instrumento, e penso que só utilizo instrumentos musicais para expressar ideias e viajar no novo som. Não me vejo como um cantor, apesar de adorar cantar. Meu lance é mesmo a composição e é isso que eu pretendo mostrar nas cinco canções que compõem NUVEM. 

NUVEM é um disco pra frente, que se propõem a ver as coisas com uma certa leveza, sem por isso deixar de questionar e de buscar. As nuvens trazem as chuvas ao mesmo tempo que nos protegem do sol, às vezes parecem com um lindo algodão doce e minutos depois um monstro escuro que parece querer cair sobre nossas cabeças, eu particularmente vejo a vida dessa maneira, esses opostos que nos equilibram. É um privilégio poder estar vivo e participar dessa experiência que nós chamamos vida, poder fazer parte dessa grande viagem. Fácil? Não! Porém muito excitante.

Barreto e o violão

O que aconteceu nesses últimos tempos é que na volta do Reveillon, quando o dia já começava a amanhecer, veio-me o que para alguns pode ser chamado de clarividência, e eu disse:  Preciso e irei registrar algumas dessas canções que eu guardo comigo há tanto tempo.

Seguimos pela manhã, Marcela e eu, até o meio da tarde sem pregar os olhos, ouvindo fitas K7 de registros sonoros que estavam ali há pelo menos uns dez anos. Havia fragmentos, vinhetas, canções inacabadas e algumas dezenas de canções que ao meu ver estavam prontas para serem gravadas.

Parece chavão, mas penso que eu não escolhi nada ou muito pouco durante esse processo, as canções foram se escolhendo e cada vez mais eu acredito que é assim que as coisas acontecem. Nós somos apenas o meio, há uma força maior nos guiando.

Durante a audição das fitas K7, Marcela me fez apenas um pedido: “Quem de nós?” precisa estar nesse EP.

Pedido aceito e uma homenagem de ocasião, por que não?

NUVEM acabou por concentrar canções que eu fiz nos últimos dois anos. É, não foi fácil deixar algumas delas para amanhã.

Nego Aurélio

Voltarei ao mês de novembro de 2008. Um acidente automobilístico levou um amigo. Rodolfo se foi, um misto de euforia e depressão pairou em mim, e no dia seguinte algo me trouxe o que viria a ser “Teus Olhos”, de uma só vez, direto ao ponto. Sabe aquelas músicas que já nascem quase prontas?

Para mim é evidente que NUVEM começou a partir de “Teus Olhos”. Para cada pessoa que eu mostrava essa canção, a reação era de alegria e vontade de cantar junto. Algo que durante todos esses anos nunca havia me acontecido.

Pimentel na mesa

Certa vez, num final de tarde ainda em 2008, mostrei essa canção ao violão para o Barreto (Sociedade Soul). O entusiasmo dele foi imediato, ele realmente demonstrou ter gostado bastante daquilo. Isso para mim já dizia muita coisa.

Já estamos em fevereiro de 2009, há dois dias de entrar no The Magic Place Estúdio, sem nenhum ensaio, sim, sem nada de ensaios. Entreguei quatro demos (mas não eram cinco?) para os músicos e acabei de compor “O que ficou no coração” e eles ainda nem sabem disso. Definido, a ideia é justamente deixar o elemento surpresa guiar todo esse processo. Nada de pré-moldados.

Barreto e Jiva blog

Jiva gravando Quimica blog

nego + marcela filmando blog

Devo deixar claro que eu não acredito que alguns dos melhores jogadores necessariamente montam o melhor time. É preciso um certo equilíbrio natural, coisas difíceis de mensurar apenas em números ou hipóteses.

Por exemplo, em nenhum momento pensei conscientemente: Vou chamar a Sociedade Soul para gravar o meu disco.

Confesso que eu tinha um certo receio em deixar o trabalho muito “sofisticado” caso eu chamasse músicos tarimbados. No fundo eu queria um certo amadorismo presente, nada que soasse fixo ou pré-determinado. Sabe aquela premissa da autoconfiança moderna: “Ele sabe o que quer”. Eu justamente queria que os músicos não soubessem o que eles queriam, e assim se fez, pois eles nem ao menos conheciam de fato as músicas.

andre fm 1 blog

O ponto é que eu fui chamando os músicos, um a um, e no final eis que aqueles músicos faziam parte da Sociedade Soul. Creio que isso mostra a importância que cada um desses músicos possui como artistas únicos que são. Chamei também o Jiva Lin, da Maltines, que inicialmente iria gravar apenas uma parceria nossa: “A química de um possível amor”; mas acabou participando de outras duas.

Este foi o clima das gravações: Tem alguma ideia diferente? Vai lá e mostra pra nós.

A escolha do The Magic Place foi fundamentada em dois, aliás três pontos: 

– O tamanho da sala de gravação do estúdio, a ambiência é fantástica.

– A grande experiência do Pimentel na gravação de instrumentos acústicos.

– O The Magic é muito próximo da minha casa. 

Pimentel pensando blog

Trabalhar com o Renato Pimentel foi uma experiência fantástica e única. Alguém prestar um serviço para você é uma coisa, alguém se entregar de corpo e alma ao trabalho que faz é outra coisa extremamente diferente. Eu prefiro trabalhar pelo lado da alma e da entrega.

Gustavo Barreto (guitarras e violões), André FM (bateria), Marco “Nego” Aurélio (baixo e baixo fretless) e Diego Carqueja (Teclados, Piano, Acordeon e Sintetizador) mostraram que são muito mais do que grandes músicos. Eles foram exímios em compreender aquilo que eu tinha em mente, o que cada canção pedia, e não se deixaram ser guiados meramente por suas vontades pessoais. Claro, cada músico deixa a sua marca, é inevitável, mas o projeto como um todo precisava ser maior. Eram canções que estavam em jogo, não eu ou fulano ou sicrano.

antonio e barreto 1 blog

Carqueja Acordeon blog

Cada músico que gravava sua parte já imaginava os espaços que deveria deixar para os músicos que viriam na sequência, mesmo sem saber o que seria feito adiante. Aprendi muito com isso, o valor de cada espaço vazio, o quanto o silêncio muitas vezes nos diz tantas coisas.

Aliás, tanto o Pimentel quanto o Barreto foram fundamentais para que a minha ideia inicial não se perdesse, isto é, a de não deixar a simplicidade de lado. É sempre difícil ser simples.

Lembro-me com bastante humor do dia em que eu pedi ao Carqueja para soar como um músico que está aprendendo a tocar. As gargalhadas não foram poucas. Carqueja tocou piano, teclado, sintetizador e acordeom. “Matou” cinco canções em menos de cinco horas. No NUVEM, pianos e teclados não foram deixados em segundo plano, podem acreditar.

antonio playing a song blog

Alguns dias antes da sessão do Carqueja, fui até a casa dele e no meio da conversa lhe perguntei: E aí Carqueja, já tirou as canções? Ele respondeu com um sonoro NÃO, e justificou: “Cara, ninguém tirou as canções antes das gravações, eu não farei diferente”, e emendou: “Um dia antes eu darei uma passada só para imaginar algumas coisas”. Foi lindo.

André FM aceitou o “árduo” desafio de ser ultra-econômico na bateria, o que ajudou e muito as canções a ficarem mais simples e objetivas. É impossível esquecer da parte final de “Antes da sorte fugir”, que não existia, e que o próprio André seguiu por conta própria, durante a gravação. Estava sendo criada uma nova e importante parte naquele momento.

Barreto mostrou o grande músico e arranjador que é, criando arranjos de guitarra e violão com uma destreza e amplitude incríveis. Os dedos sangrando no final de uma sessão provaram que o trabalho não foi moleza.

Nego Aurélio segurou a onda com seu modo preciso de tocar baixo, deixando as músicas com a intensidade que elas precisavam. Em “Quem de nós?” ele atacou de Fretless, um instrumento que precisa ser quase domado para soar bonito. Fundamental.

Jiva Lin trouxe toda sua veia rock´n´roll moderna, fazendo algumas das canções soarem mais atuais. Foi emocionante ver toda essa gente talentosa reunida nesse projeto.

Já a cantora gospel Bruna Gargioni ajudou “Quem de Nós” a ganhar a força necessária. Ouvir ela cantar ao vivo é de arrepiar.

Bruna Gargioni blog

…    

Para a arte gráfica do projeto resolvi não chamar ninguém da Transitoriamente. O ar viciado muitas vezes pode deixar a gente muito preso a antigas ideias. Aí então me veio a luz de chamar o designer “Sir” Daniel Pfeifer, da banda Dois, que é um cara que tem uma linguagem muito sutil e particular. Gosto da maneira como o “Sir” desenha os traços e suas escolhas de cores são muito instigantes.

Aliás, foi o “Sir”, que durante um café-reunião, soltou a palavra Nuvem. Na verdade ele já havia desenhado algo nesse caminho. A palavra fez todo sentido, encontrou-se com as canções. Pra mim era isso, “Nuvem” era o nome do EP.

Sendo também um fotógrafo, dá sempre aquela vontade de estar por detrás das câmeras. Durante as gravações, quando possível, acabei sendo também o fotógrafo e o videomaker. A minha mulher Marcela fez um lindo trabalho, registrando momentos importantes do processo, a ajuda dela foi incrível. Para as fotos promocionais chamei o Ale Carnieri, um cara que respira fotografia, um grande talento.

11.11 Nuvem chegará.

Um abraço,

Antonio Rossa

Nas fotos (por Marcela Machado e Antonio Rossa):

1 – Antonio Rossa e Jiva Lin
2 – Barreto tocando violão
3 – Marco “Nego” Aurélio
4 – As “Magic Hands” de Renato Pimentel
5 – Gustavo Barreto e Jiva Lin
6 – Jiva lin
7 – Marcela Machado registrando um take de Marco “Nego” Aurélio
8 – André FM
9 – Renato Pimentel
10 – Rossa e Barreto
11 – Diego Carqueja
12 – Antonio Rossa
13 – Bruna Gargioni

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