SETE QUETÕES para Felipe Coelho

Felipe Coelho

O instrumentista, compositor e arranjador catarinense Felipe Coelho lançou há poucas semanas seu segundo disco, intitulado Cata-Vento (ouça aqui).

Virtuoso no violão de 7 cordas e com uma forte bagagem internacional, Felipe é um dos grande talentos do nosso estado, com potencial já firmado para ser uma revelação nacional, e por que não, internacional.

A grande questão é: O nosso país está preparado para reconhecer seus grandes talentos?

Abaixo você confere SETE QUESTÕES para Felipe Coelho.

Um abraço,

Antonio Rossa

1 – Explique para o leitor da Transitoriamente quem é Felipe Coelho e qual o estilo (estilos) da música que ele toca?

Felipe Coelho é um compositor, arranjador e instrumentista. Um apaixonado pela arte da criação e expressão de idéias através da combinação de timbres e ritmos. Começou a experimentar idéias musicais muito cedo, misturando acordes de canções diferentes recém aprendidas no violão de seu pai aos seis anos de idade. Hoje suas composições são conseqüências de tudo aquilo que foi absorvido como ouvinte assíduo de diversos estilos musicais durante sua infância e adolescência até a graduação de mestrado em música. Suas composições procuram por caminhos menos explorados ao mesmo tempo em que se deixam fundir, naturalmente, tendências uma vez entendidas como distintas.

2 – Você ficou praticamente uma década estudando música nos EUA. Como foi essa experiência e por qual razão você deixou e voltou ao Brasil?

Havia acabado de passar um ano como intercambista nos EUA, dos 15 aos 16, onde havia recebido o premio de solista destaque no Grissom High School Jazz Festival em Huntsville, AL. Iniciei aos 17 anos o curso de música da universidade do Estado de Santa Catarina, porém não me satisfazia a substância oferecida pelo curso, recheado com informações distantes da prática musical que procurava.

Enviei então a algumas universidades americanas um pacote com vídeo de composições instrumentais minhas na tentativa de descolar uma bolsa de estudos e surpreendentemente obtive sucesso. Em menos de um ano de volta ao Brasil do intercambio, já preparava as malas para retornar aos EUA para reiniciar o estudo acadêmico, onde ficaria por 9 anos.

Adquiri por lá também o mestrado com bolsa integral na Universidade da Georgia, Atlanta, e toquei bastante na cena musical entre Miami e Chicago. A experiência foi o que se podia esperar: sensacional, e muito variada, visto que nos Estados Unidos se tem contato próximo com várias outras culturas além da americana. Na universidade, havia estrutura para realizarmos gravações de orquestras completas escritas pelos próprios alunos, ou compor para cenas de filmes e poder assisti-las produzidas e sincronizadas com a imagem. O giro cultural e acessível trouxe a oportunidade de ver de perto grandes artistas como Pat Metheny, Paco de Lucia, Wayne Shorter, Sony Rollins, e muitos outros.

Apesar da atividade musical mais intensa, talvez os pontos mais importantes que pude observar e aprender nos EUA foram: primeiro o profissionalismo de como se enxergam, se comportam e esperam ser tratados os músicos americanos. Palavra e comprometimento são tratados com mais seriedade e organização, fazendo do nosso “jeitinho” brasileiro algo que não devemos nos orgulhar; e segundo, a habilidade dos americanos de encarar a música, além de artisticamente, como um produto a ser vendido. Perceba que no Brasil fomos criadores de ritmos, técnicas, e até instrumentos como a guitarra elétrica, mas os Americanos patentearam tudo, além de que lá, quase todas as universidades oferecem diplomas não só performance ou teoria mas de produção musical.

Depois de terminar os cursos, fiquei mais um ano com passaporte de “optional practical trainning” que a universidade lhe concede para trabalhar legalmente por um ano na área em que se formou. E depois disso por um ano e meio trabalhei tocando em cruzeiros pela Europa e Canadá. Tocava com orquestra e também apresentava composições próprias e enquanto isso preparava as composições do que seria o primeiro CD.

3 – Inicialmente a sua praia era o heavy-metal, o “virtuosismo ultra-veloz”. Hoje eu noto uma certa “economia” no seu som, se é que eu posso usar essa palavra. O que mudou durante esses anos?

Comecei a ouvir muita música instrumental quando conheci Joe Satriani, Steve Vai e Malmsteen, aos 14 anos. Quando terminei o mestrado, estava com 23 anos, já tinha estudado bastante jazz e flamenco, mas ainda cultivava a paixão pela escola do shredd e do fusion ouvindo artistas como Allan Holdsworth e Shawn Lane. Tinha uma guitarra Epiphone Joe Pass Signature, um violão espanhol Alhambra, um violão de gypsy jazz estilo Django Reinhardt e uma Jackson floyd rose com captadores Saimor Duncan. Tocava um pouco de tudo, com bandas de salsa, blues, e um pouco com jazz trio mas havia muitos jazzistas mais experientes do que eu. Nada despontou, até que comecei a tocar com um percussionista/flautista venezuelano. Ensaiamos um repertorio de três horas de música brasileira, latin jazz, e flamenco e começamos a ser chamados para tocar de domingo a domingo. Junto a isso, na mesma época fiz algumas aulas particulares de jazz com um guitarrista de talento raro chamado Bryan Leech. Em uma certa aula, esqueci a guitarra elétrica e fiz com o violão.

Ao meu ver, tocar sem palheta pela primeira vez, ele disse que minha rítmica e identidade afloravam mais. Isso significou muito justamente em uma época que eu estava tentando me encontrar musicalmente. Então de uma forma muito natural comecei gravitar para o violão, e com mais tempo, a buscar uma expansão de vocabulário próprio e direção melódica, dando mais importância ao silencio e a disposição rítmica das notas. Essa consciência me ajudou a encontrar beleza em frases com menos subdivisões. Mas ainda acho que o estudo da técnica e da velocidade (com consciência rítmica) são cruciais para o domínio do instrumento e para amplitude de possibilidades de fraseado. A velocidade demonstra domínio da arte de tocar, empolga ouvintes, e pode ser bem musical.

4 – “Cata-Vento” é o seu mais recente trabalho. Eu particularmente achei um disco riquíssimo, que certamente pode ser ouvido em qualquer lugar do mundo. Como foi o processo de criação, composição, arranjos e gravação. Trata-se de um álbum conceitual?

Ao terminar a produção de Raízes Trançadas, o primeiro disco, também com arranjos e instrumentação muito elaborados, já sentia que o próximo passo seria algo um pouco mais livre, não tão sempre preso ao arranjo. Queria algo com mais momentos para solos e respiração, e já tinha decidida a instrumentação com quarteto/quinteto de cordas, baixo e bateria. Desse ponto em diante comecei a escrever cada arranjo e cada composição, devagar e com paciência. Nessa época fui para a Europa em um navio de cruzeiro pela segunda vez, ficando quase 7 meses. Com muito tempo nas mãos e sem muito o que fazer, pude me concentrar nisso.

Ao voltar para o Brasil, ainda continuei escrevendo por mais alguns meses enquanto já tocava os ensaios que duraram 6 meses. Não pensei muito sobre a concepção das composições. Simplesmente as deixei nascer da forma mais honesta e natural possível, refletindo cada momento presente. A única regra era não fazer uma música parecida com outra. O disco dá continuidade aquilo que já venho fazendo que é buscar por prazer e beleza na música, misturando tendências culturais e pensando para a frente, buscando modernizar aquilo que já digeri, desde a música brasileira, até o erudito o jazz e a música cigana oriental. O conceito é de música étnica, mas uma música étnica moderna, algo diferente, que ao menos eu nunca ouvi antes.

O título Cata-Vento parte de um conceito que primeiramente não se firma a alguma cultura específica. O “vento” representa aquilo que viaja, que está presente em qualquer canto do planeta, que engloba, que refresca. O cata representa algo que será caçado, que será catado, que será capturado assim como um compositor procura encontrar melodias que vagam no nada até serem descobertas. E por último, um cata-vento captura ventos que sopram em direções diferentes, e os canaliza todos misturados, transformando-os em um fluxo uniforme.

5 – No seu ponto de vista, como está o mercado para a música instrumental no Brasil?

Sabemos que o Brasil investe pouco em cultura, e sabemos que é um país que apresenta muitos talentos naturais, e isso não é um bom quadro pois significa poucas oportunidades e muita oferta. Mas portas, mesmo escassas, estão aí: festivais, editais, concursos, projetos de lei de incentivo, sesc, etc… Acredito que, assim como em outras áreas, o profissional que faz algo com prazer, clareza, dedicação, e preza por qualidade, com o tempo conquista seu mercado, mesmo sendo o de música instrumental.

6 – Para quem não sabe, quais as diferenças entre um violão de 6 e 7 cordas.

O violão de 6 todos já conhecem. O violão de 7 aparece com freqüência nas rodas de choro onde surgiu, e a sétima corda é mais grave, afinada em dó. Nesse estilo o violão faz contrapontos graves com a melodia anunciada pelos instrumentos agudos como flauta e bandolim. O violão de 6 explora a parte mais aguda do braço com maior freqüência enquanto os 7 cordistas tocam mais usando apenas os primeiros 4 trastes do braço, e as cordas abertas o máximo possível.

Eu particularmente comprei o violão de 7 cordas muito antes de escutar choro. Afinei a sétima corda em si, para manter a disposição interválica do violão que é em quartas. Aprendi a usar o 7 cordas sozinho, fora do choro, solando e fazendo harmonias nos agudos e aproveitando os graves ao mesmo tempo. Acredito que assim ele seja um dos instrumentos mais versáteis do mundo. Só ao retornar ao Brasil comecei a entender sua utilidade na linguagem do choro.

7 – Uma idéia para o futuro?

Voto para que as pessoas tenham suas mentes abertas, e estejam sempre se adaptando quanto àquilo que é atual. É claro que é importante conhecermos nosso passado e mantermos viva nossa cultura, porém discernindo o comportamento preconceituoso contra aquilo que inova. Isso também funciona fora da musica.

O patriotismo exacerbado, ou religiões que clamam ser o único caminho, são fatores que impedem o ser humano de ser seu verdadeiro potencial. Estamos hoje vivendo desafios de nos adaptarmos a novas condições ambientais, à revolução virtual, e a um planeta muito “menor”. Sejamos ágeis para reconhecermos e adaptarmos nossas antigas manias e crenças.

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