Mottorama e a “simplicidade gastronômica”

É engraçado e estranho, pelo menos para mim, que a música eletrônica tenha acontecido mundialmente e ainda permaneça ditando alguns rumos.

Na minha ingênua perspectiva, o futuro seria dominado por britadeiras ou violões de “10 cordas”, isto é, tudo aquilo que fosse extremamente difícil de ser tocado. Uma espécie de cavalo-xucro a ser domado e que por tal dificuldade traria ao público aquele tom desafiador, meio globo da morte, onde o medo gera a emoção.

Mas não, as pessoas passaram a se deliciar preferencialmente por tudo que cheira a fast-food, e eu não estou falando de simplicidade ou rapidez. É algo tipo “tome-isso-goela-abaixo-não-importa-como-eu-faço”. Amanhã um Engov haverá de salvar qualquer abuso.

Nesta última noite fiquei ouvindo Me, The Night & These Lights, do duo electro catarina Mottorama, formado por Ale Franco (D)
e Jean Gengnagel
. A sensação foi de que existe uma separação muito clara, como em todas as coisas, entre o “fast-food-de-todas-as-coisas” e a “relevância gastronômica estética”.

Quero dizer que nem só de carnes nobres se faz um belo jantar, ou seja, muitas vezes um bom misto-quente pode salvar a sua vida.

Nesse novo EP o Mottorama (ouça aqui) me pareceu muito mais voltado e focado para o lado canção, as harmonias ganharam uma atenção diferente, onde os efeitos, mesmo que vivos e presentes, não encobriram a simplicidade estilosa dessas canções. Penso que seria possível tocá-las ao violão com muito êxito. Isso é muito bom.

AS QUATRO CANÇÕES

City Lights traz o embalo vigoroso das grandes noitadas. Pra gastar o tênis na pista.

 You Need It, Yeah poderia estar em qualquer hit parade dos anos 80, portanto em qualquer hit parede da semana que vem.

Night Drive me pareceu a mais inovadora, com uma levada sacana e teclados espertamente bem colocados. Nesses momentos é que uma máquina se diferencia de um violão, por exemplo.

Disco Blondie traz certos “vazios” sonoros que promovem um espectro diferenciado e uma experiência musical muito bacana. Além disso, a canção me pareceu bastante resolvida.

———–

Mesmo que eu tenha errado nas minhas previsões estéticas em relação ao futuro da música, não posso deixar de afirmar e confirmar que Santa Catarina tem produzido trabalhos de música eletrônica com relevância mundial. Trabalhos bem-feitos, inovadores e que fogem das meras facilidades de samplers pré-programados.

Agora eu peço licença, pois preciso voltar para a minha britadeira. Quem sabe o futuro ainda não chegou.

Bom som e um abraço, Antonio Rossa

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