Uma breve compreensão inicial sobre Transmídia

A partir de agora certamente você ouvirá e verá por aí com mais frequência a expressão Transmídia ou Transmedia Storytelling.

A expressão, na prática, não é nova. Conceitualmente, sim.

Não é preciso debater que a internet redefiniu a forma como as pessoas se comunicam e se relacionam, gerando ferramentas que, em termos simples, simulam ou favorecem ações que nós quase sempre realizamos em nossa história como sociedade.

Uma amizade, por exemplo. Ferramentas como MSN, Orkut e Facebook são como as “antigas” praças, onde as pessoas iam para se ver, conversar, fofocar; trocar informações, idéias e pontos de vista. Essas ferramentas não inventaram a roda, apenas usaram o que já existia, obviamente com o empurrão fantástico de códigos computacionais.

O conceito Transmídia parece não fugir disso, ele apenas precisa ser compreendido como “a melhor e mais eficaz interação entre conteúdo e dispositivos de mídia, a fim de fazer com que uma informação ganhe a atenção e o coração de um determinado público-alvo”.

Vamos lembrar um pouco da nossa infância? Nossos pais tentavam nos fazer entender determinadas coisas, geralmente, por meio de histórias e metáforas. Lembro-me bem de realmente viajar em certas histórias, com variadas interpretações, como lembro-me muito bem do trauma em descobrir que o boneco Fofão não era de verdade, por exemplo.

Havia um enredo, uma imaginação, toda uma criação afetiva e emocional naquela história do bonceo falante, e que para mim fazia um sentido enorme. Nunca dei tanta bola para o Papai Noel quanto dei para o Fofão.

Estórias e História, muitas estórias, causos e lendas. Tente nesse momento voltar sua mente para a época em que você tinha entre 5 e 7 anos de idade. O que você lembra? O que lhe marcou de fato? O que ainda hoje é reflexo daquelas memórias e que você até hoje gosta de contar e relembrar?

É estranho falar: EU SEREI ISSO OU AQUILO! É aparentemnte mais honesto lembrar o que se foi, não? Eu particularmente descobri o meu “futuro” olhando lá atrás. Foi das memórias da minha auto-psicanálise que vieram respostas importantes para questionamentos-chave da minha vida. Espera aí! Então o futuro é ontem? Não?  E é uma estória, certo?

Quero dizer que as histórias nos abrem inúmeras possibilidades de compreensão e criação da nossa própria realidade, é nítida a catarse mental que fazemos em nossa cabeça quando somos colocados diante de uma narrativa que nos intriga, nos desafia, nos auto-reflete e nos emociona.

Deve ser pelo simples fato de que somos, além de 70% água, uma série de estórias contadas sobre estórias que montam a nossa história. Somos esse emaranhado de informações que necessita de outras “chaves” para fazer sentido.

Qual amor é racional afinal de contas?

Por mais rústica que uma pessoa seja em sua ideia de viver sozinha, é no reflexo do outro que nós temos a chance de nos enxergar. Meu espelho conta geralmente as estórias que eu quero, ou penso, os outros contam as perspectivas deles. Tente falar para ninguém, o que isso significa afinal de contas?

Mesmo que uma tecnologia pareça fria, ainda esperamos alguém do outro lado, um ponto de vista humano em contra-partida. Você já viu aqueles jogos de xadrez contra a máquina? É de certa forma triste, não? Porém, esse mesmo jogo solitário visto por milhares de pessoas já é outra coisa bastante diferente.

Eu ainda acredito no poder daquela frase, sendo o mais laico possível: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei”.

Transmídia, pelo que eu entendo, é essa  superfície de integração de mídias onde estórias são contadas. Mais do que um comercial lépido, as propagandas tenderão a não serem mais contadas em segundos, quinze, trinta, sessenta, mas sim em dias, meses e anos. Talvez ela “nunca” mais acabe de fato. A Coca-Cola vem fazendo isso há bastante tempo, e de forma genial. A diferença é que ela agora estará em multiplataformas, cada vez mais específica e direcionada.

O lendário filme Matrix também contou sua saga além dos filmes, em games, quadrinhos, curtas e websites. Os extras em vídeo também foram bastante trabalhados mundo afora. Em qual desses Matrix você esteve?

Não vejo o Transmídia apenas como um isolado mecanismo de transmissão multimídia. Quero dizer, por exemplo, que as novelas passarão a ser comerciais, ainda mais declarados, e os comerciais passarão a ser novelas, ainda mais declarados também, com a diferença que para cada dispositivo existirá uma específica versão, ou quem sabe, a continuidade daquilo que começou na TV, passou para o Celular e terminará numa banca de revistas. Por que não?

Fundamentalmente todo esse conteúdo precisará de estórias, boas estórias.

Na música as bandas precisarão redefinir novas plataformas para a divulgação dos seus trabalhos. A música, ao meu ver, continuará tendo o seu devido valor e relevância, porém existirão outras formas de levá-la ao público, seja como trilha de uma loja de departamentos, inserida em quadrinhos, em videoclipes, documentários e ringtones. Das simples camisetas a um website moderno e bem feito, tudo isso ao mesmo e para diferentes públicos.  Há um campo enorme para se trabalhar essa questão.

Em suma, todo futuro tem sua base no passado. Lá estaremos nós, novamente, a contar e ouvir mais e mais estórias, com a diferença que agora a sua Vó poderá estar no Japão, e você aqui, quase exatamente aqui, e muito provavelmente consumindo a mesma coisa, juntos e separados.

Um trans-abraço,

Antonio Rossa

Recomendo o livro “A Cultura da Convergência”, de Henry Jenkins, para quem quiser se ambientar melhor com o tema.

Abaixo você pode conferir um relato de Jeff Gomez, um dos maiores experts mundiais em Transmedia Storytelleing.

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2 Responses to “Uma breve compreensão inicial sobre Transmídia”

  1. […] que uma informação ganhe a atenção e o coração de um determinado público-alvo”. (Fonte: https://transitoriamente.wordpress.com/2010/02/05/uma-breve-compreensao-sobre-transmidia/) Refere-se a um fenômeno da comunicação, tem como objetivo integrar as diversas tipos […]

  2. Muito bom!! Vou nessa trilha!

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