Eles ainda vivem na mesma cidade

 

Fazer, realizar, compartilhar, “pensar além”, deveriam ser premissas de todos aqueles que se dispõem a levantar de suas camas e seguir a vida adiante além do próprio quarto escuro.

Até a melancolia necessita de um empurrão.

Se o sistema é duro, esmorecer a própria alma pode deixar as coisas ainda piores.

Alguns guerreiros pensam de modo diferente, e então fazem coisas diferentes, que produzem resultados diferentes.

Parece simples? Mas de alguma forma é!

Mudar o mundo não é necessariamente mudar o mundo todo. Mudar o mundo é mudar o seu próprio “mundo todo”, e por conseqüência o mundo de quem está a sua volta…e de quem está na outra volta. Sucessivamente isso leva novas idéias avante, e a “contaminação” da inteligência favorece e estimula que mais pessoas venham a fazer as suas próprias coisas, a levar as suas ideias adiante.

Caros amigos da Geração Y. Afinal, não fomos nós criados para tentar mudar o mundo? Não seríamos nós o Brasil do futuro? Então precisamos sê-lo, ora bolas, e agora.

Nem toda ingenuidade será castigada.

No ano passado, Jean Mafra organizou um evento que se estendeu por três edições (realizadas do SESC Prainha / Floripa) e teve como objetivo principal juntar diferentes estilos dentro de um desfecho inusitado e quase improvável. Na época eles definiram tal encontro como uma espécie de “acidente de trânsito”, em analogia ao tom caótico e factual da proposta.

Nasceu então “A GENTE vive na mesma CIDADE, faz som DIFERENTE e se encontra AQUI”, em parceria com os músicos Peter Gossweiler e Rodrigo Daca, e suas respectivas bandas, além de outros convidados.

O experimentalismo de Gossweiler, o rock de Daca & Os Faixa Preta e o pop de Mafra & Os Garotos de Aluguel se fundiram em idiossincráticas performances, que em breve sairá em um filme dirigido pelo próprio Mafra (sairá?).

A poetisa Ryana Gabech; Isaac Varzim e Marco Antonio “Jaguarito” (Garotos de Aluguel); Koll Witz (Blue) e Bruno Barbi (Gossweiler Band); Eduardo Xuxu, Márcio Leonardo e Márcio RS (Os Faixa Preta), Gabriel Orlandi, Manolo K, Caio Muniz e Marco Lorenzo formaram as bandas desses encontros. Destes, Varzim, Blue e Xuxu foram homenageados, cada um em uma das edições.

Abaixo você confere uma entrevista com Daca e Mafra, e ainda uma série de vídeos retirados do filme a ser lançado futuramente (sabe-se lá quando), e que foi filmado e editado por Alexandre Sucupira.

O mundo não para de girar, então nós é que não podemos parar no mundo que não para.

Bom som e um abraço, Antonio Rossa

Fotografia e Arte: Antonio Rossa/Transitoriamente

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ENTREVISTA

Ps.: Vale lembrar que Mafra escreve com as letras minúsculas.  

Transitoriamente (TM) – Vejo uma parte dos artistas, em Florianópolis, muito mais preocupados em satisfazer expectativas estéticas do que propor alternativas? Algo do tipo: “Você espera isso de mim, então eu vou lá e faço exatamente isso”. Qual foi a proposta e onde o “A gente…” se diferenciou?

Mafra – a proposta do a GENTE vive na mesma CIDADE… é deslocar o olhar acomodado. simples. se ele se “diferenciou”, acho que foi justamente por isso. e digo no presente porque ainda pretendo desdobrar o projeto em novas investidas. essa é a idéia para depois que o filme ficar pronto (e espero que fique até maio).

Daca – Eu como compositor, componho pra mim. Se pra mim soa bem, agrada-me, e isso falo de melodia, harmonia juntamente com as palavras, está tudo certo. Não vou agradar todo mundo e isso é fato. A proposta do “A Gente…” sempre foi misturar os nossos sons que são bem diferentes e acredito que conseguimos fazer o público conhecer as três vertentes. Isso nos diferencia de outros projetos que foram feitos. Dou-me por satisfeito em participar e ver que as pessoas só precisam ser estimuladas para deixar o preconceito de lado.

TM – No “A gente…” é possível escutar o pop, o rock, o experimental e certos traços de MPB. Vocês ainda se prendem a rótulos?

Daca – Como eu disse, se a melodia final me agrada, eu deixo fluir. Tento manter uma unidade junto ao produtor que trabalha ou trabalhou comigo, pra não ficar uma salada. Mas daí a me prender à um estilo, rótulo ou tendência, dá muito trabalho e não vai mostrar quem eu realmente sou.

Mafra – não. acho que não. ao menos não sinto isso em relação aos envolvidos nos shows… quem se prende a rótulos, às vezes, é quem precisa “vender música”, não?!?

 TM – O estado de SC ainda não conseguiu alçar um representante “real” para a sua música atual, algo que já aconteceu com Expresso e Dazaranha em outros tempos. Não estaríamos nós, hoje, nas mãos de especuladores da arte vestidos com roupas da “moda” e com atitudes adolescentes tardias?

Daca – Entendi, tipo o Green Day, como rebeldes de 40 anos…rs…Mas hoje acho que ninguém vai me representar. Até porque eu sou muito chato pra gostar uma coisa que todos aprovam, fora as exceções clássicas como Beatles e Dylan e que não são tão intocáveis assim. E o fato de todos gostarem não diz pra mim que seja bom. Quanto à representar o Estado de SC, daí sim é outra coisa. O Estado é o povo. E  convenhamos, o gosto do povo é altamente manipulável pela mídia de massa que não questiona, simplesmente aceita. Por isso reitero: banda nenhuma me representará.

Mafra – acho que é equivocado querer comparar um cenário musical tão plural e fragmentado quanto o de hoje com aquele que essas bandas citadas possuíam há algumas décadas atrás. nesse sentido, temos vários outros representantes menores, que atingem públicos diferentes e isso, de certo modo, é muito saudável pois descentraliza os holofotes. por exemplo, a importância de um blog como o transitoriamente é justamente de lançar luz sobre aqueles artistas que não estão na grande mídia e de dialogar com eles e seus (pequenos) públicos. mudou a mídia, mudou o público, mudou a música, mudou a maneira dela atingir as pessoas, etc… ao artista interessa alcançar mais ouvintes/leitores/audiências, mas isso dialogar com menos interlocutores, não diminui a representatividade da fala de ninguém. até porque, de certo modo, boa parte daqueles que falam para o grande público não tem nada a dizer (ou repetem desde sempre o já dito). por isso, penso, que justamente por termos um mundo mais fragmentado e de possibilidades midiáticas diferentes, temos mais chances de fugir das “mãos de especuladores da arte vestidos com roupas da ‘moda””… o que precisamos é levar internet 2.0 pra quem não tem!

TM – A música virou produto fácil, as tecnologias esmagaram o mito ou foram os músicos que se tornaram previsíveis?

Mafra – não acho que os músicos se tornaram previsíveis. consigo listar muitos artistas criativos que hoje constroem seus trabalhos. talvez essas figuras não estejam recebendo a atenção que merecem… talvez, mas isso só o tempo dirá. falar em mitos é complicado, pois mitos não são tão importantes hoje, no meu entender, quanto aqueles que, com pouquíssima estrutura se desdobram como compositores, músicos, arranjadores, produtores, engenheiros de som, djs, ativistas, vendedores, etc. e não esqueçamos que aqui, no terceiro mundo, o buraco ainda é mais embaixo (ainda)… em santa catarina, então, nem se fala…

Daca – Que virou produto fácil, sim. Mas o mito morreu faz tempo. O problema todo pra mim, é que os “artistas” de hoje esperam que aconteça com eles o que ocorreu há 60 anos atrás. São outros tempos. Eu brinco com o lance de explodir, mas no fundo todo mundo acha que vai e eu continuo falando: Tu vai explodir, cara. Vai vir um caçador de talentos que descobriu onde tu mora, através do Google Earth, e tu vai explodir… hahaha…

TM – Afinal de contas, “panelas” ajudam ou atrapalham? Aliás, “panelas” não seriam o “sub do sub” de um processo associativo moderno e em falta por essas bandas?

Daca – Depende da panela. Se eu estiver nela, ela me ajudará. Isso só vai acontecer, se eu tiver algo à oferecer à ela, porque nada é de graça nessa vida. Eu já estou na música há tanto tempo e já vi tanta coisa como esses movimentos de “união das bandas e músicos” ou “associações de artistas” que nunca dão em absolutamente nada, que prefiro ficar por fora e fazer a minha música, lançar quando quero e posso e a única pressão que sofro é de mim mesmo. Outro dia alguém disse: “Vou lutar por NOSSOS direitos!”. Tá bom.

Mafra – “panelas”? sei lá… alguém, que não tenha sido contemplado com o a GENTE vive na mesma CIDADE, pode dizer que somos uma panela, o que é uma bobagem, mas que também pode conter alguma verdade. a questão é, hoje em dia os “coletivos” são um dos mais importantes meios de sobrevivência para artistas das mais diferentes áreas, nesse sentido, viva as panelas (por isso penso que mesmo que não esteja tão em falta por essas bandas, as panelas precisam cozinhar mais feijão para a cadeia produtiva da música de sc!).

TM – Não está faltando um pouco de auto-ironia na música pop catarinense, salvo alguns “Repolhos” da vida?

Daca – Acho que a ironia e o sarcasmo são elementos que te fazem pensar. Acho Repolho sensacional. Eu tenho isso na minha música, mas não é auto-ironia, é falando do padrão estético da mulher do Reino Unido em Beleza Inglesa (Volume Um). É a minha maneira de ver. A Samambaia tinha bastante isso e o Jean tem também.

Mafra – não sei. talvez sim… no meu entender, falta a todos mais tempo para ouvir o outro. são tantos trabalhos, tantos discos, tantas bandas… no meu caso, em particular, acho que há auto ironia até em demasia (basta ouvir meu disco, só ou pare de não fazer sentido, com um bucadinho de atenção, para concordar comigo). mas não sei sou o sujeito mais apropriado para avaliar o cenário com esse distanciamento (até porque não tenho acompanhado tanta coisa daqui nos últimos tempos).

TM – O “A gente..” continuará?

Mafra – em principio sim. os planos são muitos, mas primeiro é preciso finalizar o filme. depois disso as possibilidades serão pensadas conjuntamente. o grande empecilho da empreitada é articular tanta gente… mas vontade para isso há.

Daca – Eu adorei participar e espero poder ajudar para o projeto ir adiante.

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