“Quando um manual não resolve”. Um breve texto reflexivo

Mesmo com as tecnologias mais avançadas em se tratando de fotografia e audiovisual, os trabalhos realmente relevantes continuam contendo certos mistérios que dificilmente se aprendem em bancos de escola. Mistérios estes que vão além de análises e conceituações semióticas, pois também dependem de situações transitórias, que mudam como aquela chuva imprevisível que agora cai.

Por mais que você diga “Uau! Depois de cinco anos de análise sinto-me muito mais eu” ou “A ciência agora comprovou que café faz bem”, é sempre complicado imaginar uma integridade plena, um 100% real de alguma coisa, ainda mais em se tratando de infinitos mentais, isto é, nossos universos multi-direcionais e mutáveis.

Somos aproximadamente alguma coisa, quase isso, muito próximo daquilo, tudo em constante transformação. Porém, ainda ficamos presos àquelas “sensações da mamadeira” – o nosso primeiro vício – e passamos a nos segurar, dia após dia, em referenciais que fazem as funções de “papai e mamãe” da nossa consciência e, por conseguinte, dos nossos atos.

São nessas “faltas ou sobras” onde certos detalhes parecem habitar, onde até mesmo a ciência precisa pedir permissão para entrar, e que geram os saltos ou as quedas de qualidade em uma relação, em um trabalho, em uma conversa, etc.

Uma mistura de técnica,  atenção aos detalhes, sorte e acaso podem criar ambientes magníficos ou exatamente o oposto, mesmo que as condições sejam tecnicamente positivas e comprovadas.

É de se esperar que em uma máquina regulada as coisas funcionem como o esperado. Já não se pode dizer o mesmo de ambientes onde alguns fatores não podem ser fielmente controlados, como um show musical ou teatral, por exemplo. Em determinados ambientes uma emoção pode levar gasolina ao fogo e vice-versa.

É preciso uma forcinha extra para impulsionar o que parece líquido e certo, e essas forças nem sempre são em “forma de cabo”. Estão em algum canto do seu inconsciente, algumas vezes prontas para acertar o alvo da criatividade e gerar novos e inusitados resultados.

Há fotos que funcionam e outras que não. A modelo, a luz e a maquiagem são as mesmas de ontem, mas hoje simplesmente não funcionou. Ontem sim, por quê? O sol parecia o mesmo de ontem.

Alguém pode afirmar que esse mistério seria justamente a falta de um conhecimento mais amplo em relação a determinado assunto. Tudo bem, em certos termos isso faz sentido, porém, agora eu preciso acreditar no que não é necessariamente visto, e isso é uma opção filosófica própria e que deve ser respeitada, pois quem está com o dedo no REC sou eu e o trabalho precisa acontecer dentro das suas condições. Mal ou bem eu preciso fazer o meu melhor.

Penso que a humildade, quando genuína, não é meramente um recurso para ser aceito socialmente ou causar boa impressão, mas uma abertura que pode facilitar a percepção de coisas mutáveis que desafiam aquela cadeira que sempre está ali no mesmo canto da sua sala.

Essa mesma cadeira aparentemente parada pode levar você a acreditar que as demais coisas também estão paradas. Nem mesmo a cadeira, fisicamente falando, está.

Nos trabalhos fotográficos, audiovisuais e de design que eu realizo, é sempre de suma importância conhecer um pouco melhor certos pontos que podem passar batido em relação às pessoas envolvidas. Quais as motivações daquelas pessoas, quais são seus gostos explícitos, mas também quais são seus gostos íntimos e aparentemente inacessíveis?

Costumo dizer que eu não faço fotografias, eu observo. A máquina é apenas um meio, ou seja, eu preciso me acertar com a minha mente, já que a máquina eu conheço bem.

Essa proximidade e essa intimidade podem deixar o ambiente muitas vezes mais explosivo, mas certamente essa energia liberada fará com que todos tenham chances de realizar coisas até então desconhecidas, que estavam escondidas em algum canto da nossa mente. E no fim das contas, na arte e na vida a gente sempre precisa ir além, mesmo que para isso precisemos arrastar aquela cadeira alguns centímetros para o lado.

Um abraço,

Antonio Rossa

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