Entrevista em Trânsito – Fast Food Brazil

Ouvir as canções e assistir às performances do – agora trio – Fast Food Brazil (ouça aqui) pode fazer você se perguntar a razão pela qual esses garotos ainda não abocanharam uma grande parcela de público aqui no Brasil.

Com uma sonoridade refinada e brasileira, rock´n´roll e delicada, ao mesmo tempo com ingredientes que tornam as canções assoviáveis, o FF Brazil possui qualidade suficiente para incendiar palcos e arrebatar corações atentos.

Formada atualmente por Hugo Rafael (Vocal e Guitarra), Ítalo Jesus (Bateria) e Igor Paiva (Baixo), a banda agora se concentrará na divulgação de Retalho, o segundo trabalho de estúdio da banda (o primeiro foi o homônimo Fast Food Brazil, de 2008).

Enquanto isso você confere uma entrevista com o frontman Hugo Rafael, com exclusividade para o Transitoriamente.

Bom som e um abraço, Antonio Rossa

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1 – Quais as diferenças e semelhanças entre o primeiro trabalho “Fast Food Brazil” e o segundo, o EP “Retalho”?

Até agora eu só consigo ver diferenças entre os dois trabalhos. A forma de concepção das faixas, a gravação, o tempo usado e  a disposição da banda pra fazer isso, do equipamento, o local, o clima, a inspiração…Além de eu obviamente considerar as musicas do “Retalho” mais amadurecidas do que as do primeiro EP. A gente levou quase um ano pra gravar quatro musicas no nosso primeiro trabalho, no estúdio Aquarela em Sorocaba/SP. O Retalho foi construído em dois dias intensivos de gravação no homestudio de nosso amigo Rafael Castro em Lençóis Paulista/SP. Posso dizer que a semelhança entre os dois trabalhos é o senso de humor, elemento chave pras composições e pra minha vida.

2 – O refinamento com que vocês trabalham suas músicas parece estar um ou dois passos a frente da imensa maioria das bandas Brasil afora e nem por isso vocês estão no topo do mainstream, nem sequer no mainstream. O que realmente vale em manter uma banda viva no Brasil onde tantas vivem em condições praticamente extremas, entregar algo de qualidade ao público e quase sempre não ser valorizado por isso?

A persistência é a alma do negócio. Acreditar em seu “personagem” até o fim do espetáculo, ajuda muito a impressionar as pessoas que se interessam pela banda. Ainda considero o mainstream um lugar acessível por muitos caminhos. Um deles é a sorte. E à partir do momento que você está ali, a coisa fica meio que na obrigatoriedade de continuar exatamente do jeito que chegou. E essa idéia não me agrada. Não vou generalizar o quadro do mainstream na cena atual, mas eu acho que é assim que funciona. A gente brinca muito com o nome “Iluminismo Musical”, um titulo que a gente adotou na mais pura das intenções, dando um norte pras composições feitas “com o coração”, sem formulas para compor um refrão mirabolante. E é a maneira que eu pretendo continuar. Talvez seja por isso que ainda não estejamos no mainstream, mesmo após quase cinco anos de banda.

3 – A letra de “Mecânico”, por exemplo, parece uma junção de Stanley Kubrick, Gran Funk Railroad e Chico Burque. Será que nós realmente estamos fadados a sermos apenas uma peça cega de uma sociedade mecânica? Será que o homem perdeu a guerra para a própria máquina que ele mesmo construiu?

Eu passei um bom tempo compondo sobre mim mesmo em terceira pessoa ou criando personagens pra me expressar. “Mecânico” fica na área do personagem. Eu não gosto de comparar, mas já que você disse Chico Buarque, pode ser que tenha alguma coisa à ver com a linha dele, no sentido de contar histórias, criar personagens e tal. Interessante essa sua observação. Eu acho que essa relação homem/máquina já virou um jogo homem x máquina, e com certeza a máquina está ganhando de 10 X 0, nos 44 minutos do segundo tempo. Sem dúvida. Mas a música tem a ver comigo, e não à uma citação futurista ou profética dessa relação. Elementar, meu caro Rossa.

4 – O humor e a tensão parecem dialogar muito bem na sonoridade e nas letras da banda. O Brasil precisa ficar mais sério ou rir ainda mais de si mesmo?

Eu sou pirrônico demais pra levar o Brasil a sério. Acho que existem momentos de seriedade que mesmo sendo poucos também precisam ser satirizados. Como eu já disse, à respeito do senso de humor, isso continua valendo forte. Não precisa empalhaçar geral… É só colocar o narizinho de palhaço na fila do banco, ou quando começa o telejornal, tsc… É fácil.

5 – A internet, por um lado, abriu a possibilidade para que qualquer pessoa coloque seu trabalho no ar. Por outro lado deixou quase tudo homogênio, como uma “gota num oceano”, o que dá a falsa sensação de que estando online todo mundo verá/ouvirá seu trabalho. Como a FFB trabalha o despreendimento do seu próprio passado e mantêm os pés em movimento rumo ao amanhã?

A internet é o espaço para promoção e divulgação mais aprimorado de todos os tempos. É o que chegou pra ficar. E nós vamos tentando de todos os lados, abrindo perfis em redes de relacionamento em evidência, como twitter, facebook, myspace, orkut, youtube, e assim vamos “cercando o bolo”. Mais do que ter é atualizar e manter contato com todos em todos os sites. Essa tarefa a gente distribui entre os integrantes e é feita na medida do possível. Precisamos melhorar muito ainda.

6 – “Quer saber a verdade?” parece falar sobre a união da consciência da nossa própria ilusão sobre as coisas e da força da auto-reinvenção necessária para levarmos a nossa própria vida adiante, mesmo diante de tais antíteses. É como se a possibilidade de começarmos um livro pelo final nos fizesse ter a falsa sensação de que já sabemos a história toda, mesmo sem ter lido o resto. Será que parte da sociedade não está excessivamente segura pela falsa sensação de que já sabe o final da história? Não seria a hora de uma arte mais “Lado C”, livros sem final, frases com mais ponto e vírgula?

Esse som é uma discussão do “eu”. Passando por uma consulta comigo mesmo, deitado no divã, recebendo orientações de “vai lá e mostra quem você é, sem medo de saber o final”. Porque se eu ficasse sabendo do final óbvio da coisa me faltaria coragem pra seguir. Mas se eu seguir a vida em frente, sem vícios, ou caminhos padrões, eu tenho muito mais chance de contar a minha verdadeira história. Podemos fazer o que quiser, se isso bater verdadeiramente no coração, podemos até começar os livros pelo fim, e ainda inventar um final pro começo. A sua atenção em ouvir os sons e tentar entender o que acontece continua refinada. Manda ver ai rapá !

7 – Deixarei esse espaço para vocês fazerem uma pergunta para vocês mesmos e também respondê-la, ok?

Por que é tão difícil formular uma pergunta para o Transitoriamente???

Simples essa resposta!! Porque, assim como é difícil formular uma pergunta para o Transitoriamente, também é MUITO difícil encontrar pessoas tão engajadas com a arte, com o verdadeiro sentido das coisas, com todo o trabalho que temos pra produzir algo e ficamos esperando que, pelo menos a maioria absorva tão bem quanto você, querido Rossa. Ficamos sempre ansiosos em dizer algo pra você, continue sempre assim e então estaremos ligados.

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