O caminho do coração

A todo instante somos pegos por afirmações que insistem em nos dizer que devemos mudar. Mude sua vida, emagreça em 1 semana, seja ainda mais feliz, recicle suas ideias, mude a cor do seu cabelo, enfim, estamos ininterruptamente sendo conduzidos a não parar de pensar em fazer coisas diferentes.

Apesar da saraivada de induções, sabemos que a realidade da mudança das pessoas passa ao largo de uma mudança realmente concreta, ficando predominantemente em uma esfera superficial.

Muita gente muda a cor do cabelo, mas não consegue reconhecer suas reais intenções na vida. Tantos trocam de carro, mas são incapazes de focar num sonho que esteja a alguns milímetros fora do padrão.

Em suma, mudamos, mas não mudamos tanto assim.

Outras questões também poderiam ser adicionadas ao nosso dia-a-dia: Quando não mudar? Não há momentos em que a melhor coisa a fazer é simplesmente não fazer nada?

Na realidade dos fatos o mundo é uma eterna mudança, onde alguns parâmetros materiais nos fazem ter a ilusão de que existem “coisas que não mudam”.

É de se esperar que um telhado de argila tenha uma vida útil diferente de um telhado feito com plantas, tal como uma pedra pareça não mudar enquanto um pedaço de pão se torna quase uma pedra em questão de alguns poucos dias.

Os próprios sistemas vigentes tentam oferecer soluções de estabilidade, como o capitalismo e suas vertentes politicamente corretas. Empregos estáveis, salários estáveis, relações estáveis, sociedade estável.

Do ponto de vista da organização e da ordem ainda não sabemos se este é o melhor método, embora seja este o método que temos à disposição.

Talvez o homem precise de uma real estabilidade apenas no suprimento de suas necessidades básicas, porém o preço que ele possa vir a pagar por essa “estabilidade” muitas vezes vai além do básico e toma conta da sua vida em outras esferas, quando não em sua totalidade.

Conforto é bom, mas o sofá também pode lhe ajudar a minar certas agilidades ao mesmo tempo que pode lhe preparar para uma nova jornada. Um avião instável pode causar náuseas em seus passageiros, mas tal turbulência pode ser um desvio necessário para evitar uma colisão.

Claro que eu entendo que estabilidade não é o oposto da mudança, nem que as mudanças precisam ser necessariamente bruscas. Quero me ater ao medo do risco e suas consequências criativas, principalmente daqueles riscos onde não se pode calcular.

Como nada é de graça, para você ter estabilidade no mundo das instabilidades o preço a se pagar não é barato. Quem tenta fazer diferente também terá que arcar com os onerosos custos, pois há a grande chance dessas pessoas não serem compreendidas pela falta de lastros passados. Não há caminho sem escolhas e, portanto, sem renúncias.

Em um mundo onde quase tudo nos é oferecido como possibilidades simultâneas, fica até antiquado falar em renúncias, apesar de eu nunca ter visto alguém tomar Coca-Cola e Guaraná ao mesmo tempo. Na prática você precisará deixar algumas coisas de lado e escolher para onde ir.

A criatividade precisa muitas vezes de certas turbulências para emergir, mas também de pilotos competentes para manter o avião sob controle. Na estabilidade você pode pegar no sono sem se dar conta, e isso pode ser negativo em alguns pontos.

O novo é quase sempre estranho, ainda mais quando não se parece com nada que já tenha sido feito. Até mesmo para os criadores as suas próprias novidades nem sempre parecem nítidas, por isso muita gente acaba deixando ideias engavetadas até que aquilo se torne menos estranho.

Ninguém em sã consciência quer ser vítima de preconceitos, porém se alguém deseja criar um conceito precisa estar preparado para o seu oposto e seus acessórios. Equilíbrio não é uma linha reta e fixa, mas uma curva com altos e baixos. É preciso não se perder nos extremos, nem se agarram na retidão.

Entre ações de mudança e não-mudança o mundo muda, a sociedade passa então a necessitar de novos agentes, produtos e serviços. Como o futuro é imprevisível, arriscar-se acaba sendo um sentido necessário, onde um misto de conhecimento, inteligência e sorte ajudarão a minimizar as chances de erro. O erro está logo ali, ignorá-lo pode ser o caminho mais rápido rumo ao fracasso. Aprender a visualizá-lo e a compreendê-lo tende a ser enriquecedor.

Imagine você analisando passo a passo as razões pelas quais você ama alguém, tentando minimizar milimetricamente toda e qualquer nuance de um possível erro. O amor não comporta tal frieza de raciocínio, é a não-dialética que muitas vezes excita e leva adiante.

No fim das contas o que nos resta é fazer o que se almeja, uma escolha para a vida que queremos, com perseverança, qualidade e foco, sem tanto receio das possíveis pedras que o caminho acaba inevitavelmente contendo. Sendo assim, na estabilidade (ou na falta dela), ao menos teremos a sensação da verdade no coração, e isso há de aliviar algumas boas tensões.

Acordar para o que não se deseja não parece difícil quando se faz isso esporadicamente. Inclusive pode ser um belo desafio. Imaginar que isso possa ocorrer diariamente em sua vida é quase um caminho sem volta rumo aos tarja-pretas da vida e seus genéricos.

Como no álcool e nas drogas, o problema não são os trabalhos mas aquilo que as pessoas fazem com eles, suas relações e suas dependências. É preciso equalizar a relação matéria x indivíduo, para não acabarmos dando mais valor (e responsabilidade) à matéria do que ao homem.

Eu realmente acredito que o caminho certo é o caminho do coração, resta-nos descobrir que caminho é esse. Você já descobriu o seu?

Um abraço e boa semana, Antonio Rossa

Foto por Ale Carnieri

6 Responses to “O caminho do coração”

  1. Provavelmente o melhor texto teu que li. FODA!

    • transitoriamente Says:

      Muito obrigado Gabriel.
      Quando as palavras tocam alguém elas se fazem mais cheias de sentido.
      Um abraço e continue no blog,
      Rossa

  2. camilacover Says:

    Muito bom, muito bom mesmo!
    Pouca gente consegue ver e entender o que tu escreveu. O novo é estranho, o diferente é errado, errar não é certo, mesmo que seja o caminho para o correto. A vida fora do padrão normal do ser humano é bizarra.. só quem vive ela, sabe como é bom buscar os sonhos mesmo ao meio do confuso!
    Parabéns!

    • transitoriamente Says:

      Olá Camila,
      Fico muito satisfeito quando aquilo que escrevemos a partir do nosso íntimo vem a tocar outras pessoas.
      Você foi muito perspicaz em sua análise, parabéns.
      Há tantos textos que eu acabo deixando de lado por achar que certas coisas já foram ditas em demasia. Muitas vezes é grande um engano.
      Um abraço e continue no blog,
      Rossa

  3. lindíssima foto!

    • transitoriamente Says:

      Olá Martha,
      Essa foto é do Ale Carnieri, um grande talento.
      Um abraço,
      Antonio Rossa

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