Entrevista em Trânsito: Catarinense ganha prêmio internacional de design

O catarinense Ricardo Seola saiu do Brasil há pouco menos de dois anos rumo à Itália, com o objetivo de se aprofundar no estudo do Design. Deixou uma empresa e uma banda para trás e se mandou para o velho mundo.

Passado algum tempo os resultados dessa empreitada já começam a aparecer. Há pouco Seola faturou um prêmio de grande importância para o design mundial, o “iF Awards”.

Criou um brinquedo chamado “Original Soundtrack” que mistura diversão e música para crianças, e fez a diferença.

Seola conversou com a Transitoriamente, por e-mail, diretamente da Terra do Design.

Antonio Rossa


1 – Qual o valor e o que significa para você ganhar um prêmio do porte do If Concept Awards?

Profissionalmente vale muito, o selo “iF Award” quer dizer que o projeto foi posto a prova e aprovado por um júri especializado e o mercado dá muito valor a esse prêmio. Para quem, como no meu caso, está entrando no mercado, é quase uma prova de maturidade, um facilitador enorme. Pessoalmente talvez valha mais ainda, dá confiança, principalmente por ter sido meu primeiro e único projeto de produto até hoje, sendo que até 2008 eu trabalhava com marketing.

Eu faço uma brincadeira dizendo que possivelmente não farei mais nenhum, assim termino com 100% de aproveitamento.

2 – O que você pretendia intimamente quando criou o brinquedo “Original Soundtrack”?

O briefing era bastante aberto, qualquer produto relacionado a crianças (0 a 10 anos). Queria que meu projeto fosse estimulante, que contribuísse de alguma forma para o desenvolvimento pessoal da criança. Envolver música foi natural, já que é minha grande paixão. Meu primeiro contato com música foi relativamente cedo, aos 7 anos, e sei o quanto é importante ter esse tipo de estímulo durante a infância. Daí a ideia de oferecer um “instrumento”, um primeiro contato com esse universo.

3- Há no design essa eterna briga entre forma e função, como o que geralmente ocorre entre arquitetos e engenheiros?
Isso é uma questão possível de se resolver ou é inerente ao trabalho do design conviver com essas dicotomias?

Encaro o design como comunicação, como contar uma história. A fantasia, indispensável pra contar uma história é a mesma fantasia indispensável pra deixar um objeto não apenas necessário, mas acima de tudo desejável.  Moschino, estilista italiano polêmico e revolucionário nos anos 80/90, disse o seguinte sobre isso:

A fantasia é aquela parte do projeto adicionada gratuitamente.
Diz-se que a fantasia chega no artista a noite, nas viagens,
no supermercado, nos movimentos mais impensáveis.
A fantasia chega quando termina o dever,
e então o projeto tem, a mais, um coração impresso!

Ninguém é fã dos produtos Braun dos anos 60 porque eles são exemplos de perfeito funcionamento. Dieter Rams, então projetista da marca, é um gênio, e apesar dele prezar pelo minimalismo suas criações são um sucesso porque são bonitas pra caramba! E é infinitamente mais complicado projetar o simples, as pessoas em geral reconhecem isso e dão valor.

Ao mesmo tempo, movimentos como o anti-design dos anos 60/70 e o Memphis nos anos 80 propuseram com grande sucesso objetos extravagantes, onde a forma quase nem deixava espaço pra função. E quem está certo? O mínimo ou o máximo? Pra mim está certo quem consegue chegar até as pessoas. Sou um pró-pop convicto e acho que precisamos do Le Corbusier assim como precisamos do Frank Gehry, e precisamos do Dieter Rams assim como precisamos do Philippe Starck.

4 – Geralmente imaginamos o produto do design como sendo algo material, físico. Onde está o design metafísico?

Acho que é mais ou menos como usar uma camiseta de banda. Ninguém usa porque é bonita ou porque a malha é boa, mas pra passar uma imagem de si mesmo que gostaria que os outros percebessem. Assim deve ser o design, a parede de casa, a estante da sala. Como eu disse antes, acho que o design deve contar histórias.

5 – Na sua opinião, qual a relação entre música e o design, e o que isso implica no seu dia-a-dia?

Em ambos a intuição é tão importante quanto a técnica. É um continuo exercício de sensibilidade, de tentar entender de que forma a mensagem vai chegar ao destino final.

Gene Simmons, do Kiss, certa vez disse o seguinte: Estou cansado de músicos dizendo ‘não me importa o que você quer ouvir, vou tocar o que eu quiser porque sou um artista’. Você é um artista? Então pinta minha casa, bitch!”. Lido com o design da mesma forma. Meus problemas eu resolvo como bem entender, mas pra resolver os problemas dos outros, precisamos, sem arrogância, entender o que os outros precisam. É um processo inclusivo, não exclusivo. O público não quer saber se quem está no palco sabe ler partitura, o público só quer cantar junto.

6 – Digamos que seja possível reconhecer os traços do design italiano, do inglês, do alemão e do japonês em seus automóveis, por exemplo. Qual seria o design Brasileiro?

Acho lamentável bater no peito com orgulho pela vocação multi-étnica, multi-cultural, multi-isso e multi-aquilo e na hora de se expressar usar sempre os clichês de nordeste e favela.

Isso fica claro na literatura, no cinema, e já começa, infelizmente, a ser uma característica do (embrionário) design Brasileiro. Um exemplo: digo sempre que no Brasil existem dois designers. Chamam-se Humberto e Fernando e, pra detonar o aproveitamento, eles são irmãos.

No último Salone del Mobile, em Milão, com certeza estiveram entre os protagonistas e há algum tempo começam a formar no resto do mundo uma ideia mais clara sobre o tal design Brasileiro.

Sou muito fã da linha de pensamento dos Campana, mas as suas criações reforçam minha bronca com os clichês quando recebem nomes como “Cabana”, “Brasilia”, “Favela”…O design italiano é reconhecido como o mais relevante do mundo, mas não se inspira na pizza, no panettone, na máfia. O “Made in Italy” não faz referimento ao país, mas a uma linha de raciocínio, uma filosofia projetual, coisa que não existe no Brasil. Penso que não vai existir enquanto o Design no Brasil for tratado de forma acadêmica e não como assunto de mercado. Até lá os nossos “mestres” promoverão nas universidades calorosas discussões sobre a correta utilização do termo “logomarca” ou “desenho industrial”.

Fotos:

01 e 02 – Original Soundtrack por Ricardo Seola

03 – SK 4 Phonosuper Record Player por Dieter Rams (Braun)

04 – Villa Savoye por Le Corbusier

05 – Juicy Salif por Phillipe Starck

06 – Favela por Irmãos Campana

5 Responses to “Entrevista em Trânsito: Catarinense ganha prêmio internacional de design”

  1. Esse é o Seola.

  2. Paola GHisa Says:

    Seola rocks!

  3. Oi visite o meu blog de design e meio ambiente, obrigado!

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