Afinal de contas, o que é a Qualidade hoje?

Não irei aqui falar da história da música, pretendo traçar um paralelo rápido para tentarmos entender um pouco como essas jóias vem sendo tratadas atualmente.

Imagine um tempo onde, para você ouvir uma música, seria necessário estar defronte à uma banda, um cantor, etc. A música ali era uma experiência única, irreproduzível além daquele local, extremamente contextualizada em sua cultura, com sentidos particulares e originais por consequência.

O tempo seguiu, as tecnologias mudaram e avançaram, e então agora temos música quase que como uma torneira que jorra água a bel prazer. Há lugares em que falta água, mas lhe garanto que não falta música.

A maneira como lidamos com a música, em nosso tempo, reflete diretamente na maneira como a música se encontra: no meio de tudo, mas muitas vezes no meio de nada.

Hoje as pessoas deum modo geral não compram mais discos, é fato, ou pelo menos não da maneira como se fazia até alguns anos atrás. Não há uma aparente valorização para o aspecto mais amplo de um trabalho musical, que é toda a linha que preenche uma ideia, isto é, um disco. Sabemos que um álbum não é apenas uma canção, ou seria então uma grande canção composta por partes.

Ouvir apenas uma canção de um disco é diferente de comer um pedaço de bolo e imaginar claramente o sabor dos demais pedaços que sobraram na forma.

Com a música cada pedaço conta uma história diferente, traduz algo, propõe uma nova maneira, uma diferente possível perspectiva.

Hoje vivemos a era da “filosofia twitter”, ou seja, seja esperto e saiba usar bem o seu resumo, ou seu link, caso contrário o resto do seu bolo não será apreciado mesmo sendo muito gostoso. Pretendo ver isso pelo lado do diferente e não do negativo. Em verdade nem cabe esse mérito.

Ouvir música atualmente predispõe você acrescentar em sua vida Gadgets. Sempre foi assim, apenas a cesta de opções não era lá tão vasta.

Quantos gigabytes você possui?  Quais aparelhos? Para quais fins? Em qual vitrine se encontra aquilo que você deseja? Quanto dura a explosão da sua euforia e em quantos segundos um grande valor vai ralo abaixo?

Você costuma pensar no processo de fabricação do queijo, por exemplo, quando você está num drive-thru de um fast-food? Não creio. Não creio também que as pessoas, ou a maioria delas, irão pensar no processo de produção de uma canção enquanto elas ouvem uma canção.

Mas ao mesmo tempo, quando você compra um relógio caro, você precisa de informações que corroborem positivamente com sua escolha, como o material que foi produzido, as garantias, a assistência técnica, o glamour por ter aquele objeto, etc.

Ouço constantes reclamações, e vejo na mídia aos rodos rumores de que as pessoas não valorizam a arte. Mas será que os próprios artistas valorizam a sua própria arte?

Talvez a resposta seja um enfático NÃO, sem querer ser generalista, mas já correndo o risco.

E por valorizar eu coloco o cuidado com que se faz tal trabalho, a escolha das parcerias, os estúdios, as técnicas, as imagens, os momentos, a paciência, os detalhes.

O artista não deve simplesmente acrescentar dissonâncias e meio-tons e achar que por si só a sua sofisticação precisa ser compreendida, pois se assim fosse todo som deveria ter a levada de um Coltrane.  Mesmo a música sendo uma “arte crua”, o nosso mundo caótico precisa de atrativos, caso contrário a luz de neon pode ofuscar o brilho do ouro.

Ouço algumas vezes músicos mais eruditos dizendo que o importante é a música e que o resto são acessórios desnecessários ou para um segundo plano. Engraçado que essas mesmas pessoas calçam sapatos finos e blusas caras. Não seria aí um descompasso? A arte da capa do CD deveria mesmo ficar em segundo plano?

Ninguém quer um relógio que não funcione, como também ninguém quer uma canção que não funcione.

Você gostaria de beber cerveja num saco plástico, mesmo sabendo que aquela cerveja é de qualidade? É muito provável que não.

Eu não penso que a canção hoje, como obra individual, seja menos importante do que há um século atrás. Porém existe algo chamado oferta e procura, que atende por mercado, e que cria enfeites – muitos deles práticos – que colocarão essa obra na prateleira ou na vitrine onde mais pessoas circulam e possam ver.

É como se o diamante só tivesse valor na vitrine de uma loja em Nova Yorque. De fato, um diamante escondido não possui valor, como uma ideia guardada é apenas um conjunto de códigos que pode levar nada a lugar nenhum.

Então as vitrines são mais importantes que as obras em si? Não, de forma alguma. Da mesma maneira que as ruas não são mais importantes do que as pessoas que caminham nelas. Mas existem detalhes, roupas, perfumes que não deveriam ser tratados apenas em seus extremos, gosto vs. não gosto, mas também por sua utilidade de comunicação e linguagem.

Mas então porque a banda Calypso vende tanto mesmo não possuindo o requinte de uma orquestra sinfônica? E porque uma orquestra sinfônica vende geralmente pouco se a sua qualidade sugere superioridade? Será que é apenas a qualidade que interfere no desejo? Sendo assim, não seria então a qualidade, em certos casos, uma fraude nivelada? Seria o segundo colocado a exuberância do fracasso e apenas os vitoriosos a qualidade em si?

Não seria a falta de educação global, e a força social que a mantêm, a mola propulsora das qualidades e suas obsolescências programadas?

Perdão amigas e amigos, eu não tenho essa resposta e até sugiro que vocês pensem as suas, pois eu aqui farei isso, comendo um pão com mortadela, ouvindo o novo disco da minha banda preferida e achando tudo isso o máximo. E quase tudo isso sem ISO.

Afinal de contas, o que é a Qualidade hoje?

Antonio Rossa

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2 Responses to “Afinal de contas, o que é a Qualidade hoje?”

  1. Antonio, esta é uma das mais belas crônicas que tenho lido recentemente. Me situo em um nowhere qualquer entre os exemplos que deste. Ainda valorizo o lento degustar de uma música, aprecio sua qualidade sonora (geralmente baixo músicas em qualidade acima da comercial (24bits/96kHz) e utilizo um player da OPPO para tocá-las. Apesar de ter adquirido recentemente alguns SACDs, raramente o faço e, com a possibilidade de escutar slowfoodianamente minhas músicas neste maravilhoso padrão hi-fi, realmente tendo a comprar cada vez menos. Ou seja: sou um que valoriza o que foi construído mas, antes da sua crônica, não me preocupava em analisar todo o aspecto de produção/construção de uma obra (além, é claro, daquelas obras clássicas do Rock e Progressivo setentista que todos conhecemos. Me interesso sutilmente por engenharia de som, mas mais ainda pela música em si e pela literatura. Só gostaria de concluir dizendo que, nesta crônica, fizeste ambos: boa música e literatura para meu deleite. Abraço.

    • transitoriamente Says:

      Olá Rafael,
      Muito bacana o seu feedback.
      Bom para somar com as ideias.
      Um abraço e continue com a gente,
      Antonio Rossa – Transitoriamente

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