“Invisivelmente” por Transitoriamente

Quando uma banda chega ao quinto disco (quarto de estúdio) é preciso no mínimo ficar atento, pois não parece teimosia a palavra certa para um trabalho de anos. Caso o fosse, já seria admirável tal persistência num mundo onde ilusórias celebridades instantâneas levam legiões de jovens (e nem tão jovens) a imaginar uma carreira promissora do dia para noite.

Até certo ponto o mundo parece ter esquecido que árvores não nascem grandes, prontas, que existe uma semente que precisa ser plantada, e as pontes, bom, as pontes é para quem as consegue imaginar.

Dediquei algumas boas horas na audição de Invisivelmente, da banda catarinense Aerocirco, com uma atenção que eu particularmente julgo necessária caso se queira enxergar mais do que aquilo que brevemente se mostra. O disco será lançado oficialmente neste próximo dia 20 em www.aerocirco.com.br .

Os anos de estrada aliados a um competente grupo já seriam bons requisitos para sentar e ouvir um trabalho com a calma necessária.

Mesmo sendo um disco pop, Invisivelmente não entrega todas as cartas logo na primeira audição. Quem quiser mais terá que se dedicar, e isso para mim reflete trabalhos coesos que precisam ser vasculhados com uma boa dose de atenção. Cada canção é como uma pessoa, e para se conhecer uma pessoa você precisará agir de forma única, aberta e dedicada.

“Amanhã” e “Invisivelmente” são pérolas, uma nítida maturação da composição de Fábio Della, esta última uma espécie de delírio onírico, um sonho propulsor da potência humana de um Niestzche. Aliás, as letras de Della parecem mais claras, muito melhor resolvidas.

“Última Estação” parece trazer essa ideia de colagens estéticas, linha do tempo, como aqueles objetos que andam circularmente rumo a um cone nos livros de física moderna. É como se a vida passasse em sua frente e você ali parado vendo tudo em perspectiva.

“Ontem” é olho no espelho, aqueles momentos de auto-reflexão com marcas temporais  e uma saudade que só o esquecimento momentâneo e sua recriação futura podem produzir. Talvez seja uma ponte para as cartas de “O Rei”, que faz uma colagem com “A mão e o coração”, do disco Aerocirco, de 2003. Esperta conexão.

O baladão “O resto tanto faz” é o Aerocirco com os pés nos 70´s, mas com uma roupagem mais moderna, o que também vale para “Não me leve a mal”, um hit instantâneo e já lançado como single em 2009.

Em Invisivelmente o instrumental me saltou aos ouvidos, guitarras ora pulsantes, ora delicadas, linhas de baixo seguras e batidas espertas que vão do rock ao country com destreza.

Caso a música pop continue a se ver como um sanduíche de caixinha, o próximo e coerente passo seria então criar sanduíches musicais. Enquanto isso não acontece, tire um tempo do seu dia, faça uma lenta e deliciosa refeição e ainda dê 60 minutos a um álbum honesto e promissor.

Foi assim que eu vi Invisivelmente.

Bom som e um abraço, Antonio Rossa

—-

Banda: Aerocirco

Álbum: Invisivelmente / 12 faixas

Ano: 2010

Gravadora: Independente

Produzido por Fábio Della

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