Archive for July, 2010

Tigran Hamasyan

Posted in musica on 27/07/2010 by transitoriamente

A cultura de apreciar a música instrumental no Brasil ainda engatinha. Temos focos, sim, mas é preciso deixá-la num patamar culturalmente mais claro e acessível.

Muitos falarão que falta educação musical e eu não exitarei em dizer que grande parte desse “atraso” tem relação direta com isso. Como pensar diferente? Será que a nossa relação com a  música não deveria ir além do mero consumo imeditado?

Quando alguém enxerga a música apenas como produto, o valor que esse alguém dará a este produto pode não ultrapassar o preço de capa do cd que está na vitrine de uma loja. Agora imagine se o seu disco custar apenas 5 reais. Quem não conhece o processo de estudo, composição e prática musical facilmente subvalorizará essas questões, como acontece em qualquer área, e isso de alguma forma é compreensível apesar de inaceitável.

Ao enxergar a música apenas como arte corre-se o risco da não acessibilidade, isto é, a sua música pode ficar presa em pequeninos nichos. Claro, é preciso conhecer quais as intenções de cada artista, mas é preciso também relevar essas questões.

Existe aquele papo de que muitos músicos instrumentais fazem música para músicos. Por esse lado eu particularmente não vejo problemas, a não ser que o foco acabe virando um esconderijo. O cálculo é simples: você faz o seu melhor e pode encontrar pessoas que gostem daquilo que você faz. Porém, esquecer que existem canais e outros mundos pode ser uma armadilha para a sua grande arte.

O músico armênio Tigran Hamasyan é um exemplo da nova geração de músicos instrumentais que explora o audiovisual e a fotografia com cuidado. Jovem, com apenas 22 anos, Tigran parece entender bem que se a música um dia precisou dos LPs e Cassetes para ser difundida,  hoje é fundamental um bom trabalho também na web.

Bom de ouvir, bom de ver.

Antonio Rossa

Advertisements

Overdose no motel!

Posted in musica on 19/07/2010 by transitoriamente

O trio catarina Motel Overdose faz juz ao próprio nome e parece querer incendiar a cidade iniciando o fogo com pau e pedra.

Não que eles estejam fazendo música “à manivelas”, mas um teor artesanal pode ser ouvido no trabalho dos caras.

Garrafas vazias, preservativos pelo chão e um nonsense em “gaussian blur”. Nem sempre a Ilha há de produzir apenas o lado “bom-moço” do rock´n´roll. É preciso alguém que coloque pra fora aquela sombra sacana que também nos faz humanos, e ainda assim com doses de humor e de uma necessária auto-ironia.

É nessa contra-corrente que Márcio Leonardo (Baixo), Felipe Batata (Guitarra e Voz) e Márcio Bicaco (Bateria) querem nadar, e trazem ao público cinco canções com pegada, substância e muita psicodelia.

“Densidade” poderia muito bem ser trilha sonora de uma dessas propagandas atuais que passam nos intervalos do jornal nacional, isto é, o politicamente incorreto não está longe da nossa realidade como muitos insistem em pensar. Baita canção!

Abaixo você confere a entrevista que o baixista Márcio Leonardo concedeu ao Transitoriamente.

Bom som e um abraço, Antonio Rossa

TM: Motel Overdose é uma banda ou apenas um passatempo?

ML: Os dois. Na verdade o nome da banda é uma brincadeira com isso. Originalmente a banda se chamaria “Banda Passatempo”. Mas para ser mais cabeça bolamos a metáfora “Motel Overdose”, onde Motel = Passatempo, Overdose = Banda. Para ficar mais profissional invertemos como se fosse em inglês, daí Motel Overdose.

TM: A crítica musical catarinense quase sempre foi complacente e paternalista com suas bandas. A verdade é que raras e poucas delas realmente levam seu trabalho com o profissionalismo necessário. Não que isso faça da arte mais arte, ma pra certos quesitos é fundamental. O que vocês pretendem mostrar e dizer com o Motel Overdose?

ML: Concordo plenamente quando você afirma que a crítica musical catarinense sempre foi complacente e paternalista. Mas acho que o buraco é bem mais embaixo. Principalmente quando se fala em Florianópolis.

O fato é que as pessoas querem promover a cultura local de forma distorcida e forçada. Talvez pela carência de qualidade histórica da própria mídia ficamos estacionados em pinturas  e mosaicos que retratam tarrafas e boi de mamão, sambas que cantam praias, morenas e belezas de uma ilha. Nada disso é original. É tudo chupado e “adaptado”. Até Mané Beat já teve por aqui.

As pessoas torcem pra Flamengo e Avaí. Vasco e Figueirense, e não para Avaí e Figueirense. Isso é uma cultura de recalque, e é ridícula e insustentável porque a tal identidade que eles procuram é sempre chupada de outras culturas regionais.

O resultado disso é que se você quiser aprovar um projeto ou vender um produto para a mídia o caminho mais fácil é essa “coisa-nossa”. Daí surge um subproduto cultural, até porque você tem que levar em conta que para se ter o tal do profissionalismo tem que existir investimento, e para que o capital para esse investimento seja viável o caminho passa invariavelmente por essa cultura da “coisa-nossa”.

Felizmente essa realidade está mudando, graças às possibilidades de comunicação. Então o que eu acho que o Motel Overdose tem a dizer é a obviedade de que existe uma  tendência possível de fazer as coisas por você mesmo, sem investimentos financeiros e sem seguir um padrão cultural forçado, apenas com investimentos intelectuais – a velha atitude – visto que tudo que fazemos, desde as gravações até a arte é feito por nós mesmos. E acho que em termos musicais, nunca tivemos (“a nível de” humanidade) tantas possibilidades e facilidades. Viva a tecnologia Alien.

TM – Pipodélica, apesar de sua qualidade, foi uma banda desconhecida por grande parte do público, mas ao mesmo tempo amada pela crítica “cult”. Motel Overdose pretende fazer música para quem afinal?

ML: Para vocês gente amiga!

TM: Há pouco tempo muitas bandas queriam ser o Franz Ferdinand para tentar o “sucesso”. Depois vimos muitas delas querendo ser o Cansei de Ser Sexy. No momento Lady Gaga parece o norte. Motel Overdose caminha por onde?

ML: Não pensamos em referências quando compomos. O nosso norte é o próprio nome da banda, então quando falamos de amor falamos de amor com putas, quando fazemos um rock falamos de explosão, birita, coisas de guri pequeno sem ter vergonha e sem ser uma coisa escancarada que acaba ficando de mau gosto. Não que o nome Motel Overdose seja exemplo de bom gosto.

O Facebook, por exemplo, censurou e tivemos que usar alguns artifícios. Claro que uma coisa ou outra pode sair um pouco do contexto, mas exatamente isso é o que faz a banda ser uma coisa agradável para nós. Achamos muito chato esse papo cheio de conceitos, protesto e coisas do tipo. Já está cheio de ONGs por aí pra fazerem este trabalho.

A nossa grande preocupação na banda é fazer música de qualidade, usar óculos escuros, tomar umas biritas e falar muita besteira. Enfim, poder se divertir com isso.

TM: Arte cult para poucos, arte pop para todos ou arte experimental para quase niguém?

ML:Arte cult para poucos, arte pop para todos e arte experimental para os artistas.

Uma devassa catarinense

Posted in Novos talentos with tags , , on 15/07/2010 by transitoriamente

A Revista Catarina é, sem dúvidas, a maior publicação de moda do Sul do Brasil, e vem fazendo um trabalho digno, bem feito e que merece o nosso reconhecimento.

Prova desse sucesso é o lançamento de sua 26ª edição, o que por si só já mostra a consistência da proposta.

Outro exemplo de êxito é a festa Devassa, que está comemorando seu sexto aniversário, e que hoje a noite fará uma grande festa (Madê Club – Lagoa/Floripa) junto ao lançamento da nova edição da Revista Catarina.

Para embalar as comemorações Luísa Lovefoxx, da CSS (Cansei de Ser Sexy) e Alec Ventura (Vocalista e guitarrista da Copacabana Club), estarão no comando das pickups, juntamente com o DJ residente – e criador da Devassa – Tiago Franco.

Essa festa promete.

+ informações: www.revistacatarina.com.br / dvssa.blogspot.com

Nuvem no Grito

Posted in musica with tags , , , , , , on 13/07/2010 by transitoriamente


“Nuvem” – o EP que eu lancei no final de 2009 – vem seguindo seu caminho e passo a passo chegando a mais ouvidos atentos e que prestigiam os trabalhos autorais e independentes.

A revista catarinense Grito Coletivo, em sua edição n.4, indicou o “Nuvem”  em sua seção “Ouça”, o que ajuda a reforçar a ideia de que a música tem seu próprio caminho dentro do tempo.

Nessa edição n.4 você confere também uma bela entrevista com Humberto Gessinger sobre o duo Pouca Vogal, carreira, Engenheiros do Hawaii e mais.

Pra quem gosta de música a Grito Coletivo é uma ótima pedida.

Boa leitura e um abraço, Antonio Rossa

Pop ou Porra. Tanto faz?

Posted in musica on 10/07/2010 by transitoriamente

Caro Mafra,

Achei muito positiva essa sua questão (saiba a questão), e como o espaço para comentários em blogs é reduzido resolvi aqui escrever. Vamos lá!

Lembrando que numa sociedade as pessoas se unem por interesses comuns e sobrevivem – por e através – de seus grupos ou “partidos”, precisamos ter em mente aquela regra social que tende a aliviar as opiniões àqueles que fazem parte do círculo, e quanto maior seu círculo maior a impossibilidade de ser cirúrgico para fora dessas “cercas”.

É claro que nós precisamos nos ajudar, saber realizar parcerias e associações, e principalmente nos respeitar. Mas precisamos também nos ajudar no sentido da criação de condições para que os “homens e grupos bons” apareçam, analisem e reflitam com grande capacidade de isenção, e assim ajudem a criar o novo, o diferente, o impensável. Não podemos correr o sério risco de nos dar as mãos e não sairmos do lugar, pois aí não teríamos amor e sim letargia.

Não posso afirmar categoricamente, mas  realmente acredito que o artista quer ser analisado, no sentido de que novas ideias e reflexões podem lhe ajudar a encontrar novos caminhos dentro de sua obra, e porque não dentro de si mesmo.

Eu fiz o NUVEM fundamentalmente pela minha vontade de expressão artística, estética e pessoal, mas depois eu notei que esse trabalho poderia ser algo positivo no sentido de que alguém que faz a crítica também pode fazer o disco, isto é,  nesse caso o objeto criticado.

Além disso, é preciso entender o que de fato é a crítica. Eu falar se gosto ou não de algo não é necessariamente uma crítica, mas uma opinião pessoal, e isso se encerra (ou deveria se encerrar) na minha opinião. É o meu gosto e só.  A crítica não precisa e nem deve ser conclusiva, e sim abrir caminhos para que o ouvinte, o leitor, enfim, para que o público conclua a seu bel-prazer, dentro do seu próprio universo. Caso contrário será uma mera publicidade.

Nesse sentido eu lembro um trecho de Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa):

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Precisamos de análises mais contundentes, que possam ir mais à fundo dentro da obra do artista, que provoque a reflexão, a re-construção e a perspectiva. Caso contrário acabaremos sendo mais propensos a montar vitrines em shopping-centers, outdoors e banners, do que criar obras de real valor.

Olha que disco legal do Lenzi Brothers! Pow, o Tijuqueira lançou um disco bacana! Mas o que isso quer dizer além da minha opinião?

É um reducionismo preguiçoso, oneroso e muito pouco propositivo, além do seu valor como expressão obviamente.

Uma cena musical não se faz apenas de bandas ou músicos, mas de todo um conjunto de pessoas e funções. Essa cadeia também precisa ser formada, pois caso contrário teremos bandas e público, sim, mas com um vazio ensurdecedor entre eles.

Esse vazio não nos custa muito caro?

Um abraço,

Antonio Rossa

Sociedade Soul animada!

Posted in musica with tags , , , , , , , , , on 09/07/2010 by transitoriamente

Santa Catarina realmente vem prestando nos últimos anos grandes serviços na área do audiovisual.

A produtora catarinense Cafundó Estúdio Criativo lançou no último mês o vídeoclipe da música “Jardim das Delícias”, da banda Sociedade Soul, também catarinense.

O clipe é uma das seis animações brasileiras que concorrem pela categoria Portfólio ao Anima Mundi 2010e foi dirigido por Gustavo Brazzalle e João Pedro Agnoletto Cardoso.

O Cafundó também disponibilizou o download da música e dos wallpapers no hotsite www.jardimdasdelicias.com

Lembre-se que hoje a noite (sexta-feira) a Sociedade Soul fará o show de lançamento do seu primeiro CD no TAC ( às 21h), e que contará com a  presença do rei do funk Gerson King Combo.

Funk brother soul!

Antonio Rossa

Heresia Loira

Posted in Blogs on 08/07/2010 by transitoriamente

A catarinense Juliana Dacoregio é jornalista, blogueira, modelo e dona de opiniões tão picantes quanto pimenta vermelha nos olhos seus.

Em seu “Heresia Loira” Juliana trata, por exemplo, de religião como quem parece entender a linha tênue entre a hipocrisia, o fanatismo e o fogo sedutor de almas.

Num passado remoto é quase certo que ela estaria ardendo na fogueira. Talvez seja um reflexo dessa antiga chama aquilo que agora vem em forma de opiniões contestadoras, analíticas, porém sem o risco de arder em brasa, a não ser as possíveis chamas das vaidades internéticas.

Num mundo predominantemente maniqueísta onde só os extremos fazem sentido prático, Juliana parece querer misturar fogo e gasolina e ainda sair assoviando.

Recomenda-se que os menores permaneçam à distância, pois a combustão é líquida e certa.

Confira abaixo a entrevista que a jornalista concedeu ao Transitoriamente.

Antonio Rossa

TM: A internet ainda parece um “mar sem fim” com alguns faróis indicando certos “portos-seguros”. Como é possível criar identidade e ser original nesse infindável mar?

Juliana Dacoregio: Olha, Antonio, já pensei muito sobre essa questão. Quando decidi migrar para a rede, acreditei que precisava criar uma identidade mais marcante, digamos assim, focada em apenas um ponto de minha personalidade, mas logo vi que isso não funcionava, porque apesar de eu falar muito sobre religião e ter essa estigma do “HeresiaLoira”, não sou apenas a herege, a “ex-evangélica”, a crítica dos desvarios da religião. Sou muito mais que isso.

Meu intuito principal quando comecei a blogar era (e ainda é) ter um canal para expôr meus escritos, essa é minha verdadeira e mais forte motivação: escrever! Então, percebi que minha única forma de “ser original” era ser exatamente o que sou. E não é porque os meus posts mais comentados são aqueles sobre minhas experiências na igreja que devo me ater apenas a isso. Tanto que criei um novo blog, o Escrava das Letras, para voltar a escrever despretensiosamente, sem me preocupar com o que as pessoas querem ler (ou com o que eu imagino que elas queiram ler).

Então, hoje minha opinião nesse caso é que criar uma identidade única e específica, um personagem, digamos assim, só vale a pena quando você tem um blog muito focado e deseja investir nisso profissionalmente, ou quando a intenção é ter um blog de nicho, que trata sobre um único assunto. Quanto àqueles que querem usar a internet para se divertir, criar relacionamentos, e, principalmente, dar vazão a uma vocação para a escrita, o melhor mesmo é mostrar-se como se é. E todos temos inúmeras facetas, então a melhor forma de ser original é simplesmente ser você mesmo (inclusive quando você está na descoberta de quem você é de verdade – afinal, todos estamos em constante mudança e transformação, não é mesmo?).

Alguns vão se identificar, outros não, mas aí está a beleza da coisa.

TM – Você poderia citar algumas coisas que a internet e seus blogs lhe proporcionaram e que seriam muito difíceis de acontecer sem essas ferramentas?

JD – Como já falei, a Internet me proporcionou um canal maravilhoso para publicar o que escrevo. Sempre escrevi, mas quando comecei a blogar, tive um ânimo a mais para fazer isso. Vamos descobrindo blogs com os quais nos identificamos, conhecendo (mesmo que “virtualmente”) pessoas parecidas conosco ou que nos acrescentam e com isso, crescemos, aprendemos… Os blogs e o twitter permitiram que eu entrasse em contato com gente incrível, que eu não teria a oportunidade de conhecer se eu não usasse essas ferramentas.

TM – Se olharmos para 10 anos atrás e compararmos a internet de hoje, móvel (ou em vias de ser), com aquela em que as pessoas ficavam (ainda ficam) em frente ao computador, podemos dizer que estamos saindo de um período de hibernação para outro mais livre, com as pessoas podem agora “andar com a internet”. Você conseguiria citar alguma “sequela social” desse processo?

JD – Acho que agora estamos com a ansiedade do imediatismo. Sobretudo com os celulares que nos permitem estar conectados o tempo todo.

Às vezes perdemos a chance de nos desligarmos um pouco e curtirmos momentos “off-line”. Precisamos realmente postar as fotos no exato momento em que são feitas ou abrir nossos e-mails de cinco em cinco minutos? Na maioria dos casos, não! Mas é difícil resistir. Mesmo com tudo isso, também acho que a Internet móvel tem grandes vantagens, que se soubermos utilizar com parcimônia, superam as desvantagens.

TM – Fala-se muito atualmente sobre os e-books e de como eles poderão suplantar os livros como conhecemos. Falar em morte do livro físico não seria quase que uma propaganda enganosa?

JD – Com certeza! O livro físico, que podemos tocar, guardar, folhear, cheirar nunca vai deixar de existir. Eu tenho fascínio pelos livros e gosto de vê-los empilhados na minha prateleira, gosto de presentear meus amigos com eles, de levá-los na bolsa e parar num parque ou numa praça para lê-los. E assim como eu, há milhões de pessoas com o mesmo apego sentimental pelos livros impressos. Além do mais, já estamos cansados de saber que o rádio não matou o jornal, a TV não acabou com o rádio, as músicas baixadas pela internet não substituem as coleções de CDs, e assim por diante.

Acredito que há espaço para todas as formas de expressão, mesmo que a tecnologia se imponha. Nesse ponto, posso dizer que sou tradicionalista, ou conservadora, sei lá… Livros para mim são tesouros que devem ser passados de geração a geração, ou trocados nos sebos, emprestados aos amigos, mas são preciosos de qualquer forma.

TM – No seu blog “Heresia Loira” você se descreve como uma “desertora da fé evangélica”. A internet hoje estaria fazendo um certo papel de igreja tecnológica?

JD – Não sei se “igreja tecnológica”, mas sei que através do Heresia Loira, apesar de criticar a religião, conheci cristãos moderados, com senso crítico, que mesmo professando sua fé mantém blogs para debater sobre ela de forma racional e até denunciar os fanatismos. Algumas dessas pessoas nem freqüentam igrejas, mas são bem mais devotadas às coisas boas do cristianismo do que muitos “fiéis” que não perdem um culto ou missa.

TM – Hoje existem inúmeras formas de uma pessoa se comunicar e obter informações. Por que você escolheu a escrita e quais são suas pretensões com essa forma?

JD – É clichê, mas não há outra forma de responder essa pergunta: a escrita me escolheu. Desde criança rabisco meus poemas, escrevo diários, contos e sentia que escrever era a melhor coisa que eu poderia fazer em minha vida. Minhas pretensões são a de qualquer escritor, fazer com que minhas palavras sejam lidas, que façam diferença na vida de algumas ou milhares de pessoas; que possam se identificar com o que escrevo ou mesmo discordar, mas refletir sobre alguns assuntos e sobre suas próprias convicções. Além disso, escrevendo e publicando na internet também aprendo muito com aqueles que comentam, que mostram outras perspectivas sobre minhas opiniões.

Escrever é uma válvula de escape e é dolorido muitas vezes, mas é fascinante ter um meio de expôr suas opiniões e pensamentos e receber de volta a resposta das pessoas, mesmo que seja de apenas meia dúzia de leitores. Ah, e quem tem a paixão de escrever quer ser lido, mesmo que afirme que tenha um blog apenas como um diário. Gosto de citar a frase de George Orwell sobre as motivações do escritor: “todos os escritores são vaidosos, egocêntricos e ociosos e bem no fundo de seus motivos jaz um mistério”. É isso:quem ama escrever sabe que essa frase, em maior ou menor grau, se aplica a si mesmo. Concluindo (se é que é possível concluir esse assunto), faço minhas também as palavras de Paulo Leminski:

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?