Heresia Loira

A catarinense Juliana Dacoregio é jornalista, blogueira, modelo e dona de opiniões tão picantes quanto pimenta vermelha nos olhos seus.

Em seu “Heresia Loira” Juliana trata, por exemplo, de religião como quem parece entender a linha tênue entre a hipocrisia, o fanatismo e o fogo sedutor de almas.

Num passado remoto é quase certo que ela estaria ardendo na fogueira. Talvez seja um reflexo dessa antiga chama aquilo que agora vem em forma de opiniões contestadoras, analíticas, porém sem o risco de arder em brasa, a não ser as possíveis chamas das vaidades internéticas.

Num mundo predominantemente maniqueísta onde só os extremos fazem sentido prático, Juliana parece querer misturar fogo e gasolina e ainda sair assoviando.

Recomenda-se que os menores permaneçam à distância, pois a combustão é líquida e certa.

Confira abaixo a entrevista que a jornalista concedeu ao Transitoriamente.

Antonio Rossa

TM: A internet ainda parece um “mar sem fim” com alguns faróis indicando certos “portos-seguros”. Como é possível criar identidade e ser original nesse infindável mar?

Juliana Dacoregio: Olha, Antonio, já pensei muito sobre essa questão. Quando decidi migrar para a rede, acreditei que precisava criar uma identidade mais marcante, digamos assim, focada em apenas um ponto de minha personalidade, mas logo vi que isso não funcionava, porque apesar de eu falar muito sobre religião e ter essa estigma do “HeresiaLoira”, não sou apenas a herege, a “ex-evangélica”, a crítica dos desvarios da religião. Sou muito mais que isso.

Meu intuito principal quando comecei a blogar era (e ainda é) ter um canal para expôr meus escritos, essa é minha verdadeira e mais forte motivação: escrever! Então, percebi que minha única forma de “ser original” era ser exatamente o que sou. E não é porque os meus posts mais comentados são aqueles sobre minhas experiências na igreja que devo me ater apenas a isso. Tanto que criei um novo blog, o Escrava das Letras, para voltar a escrever despretensiosamente, sem me preocupar com o que as pessoas querem ler (ou com o que eu imagino que elas queiram ler).

Então, hoje minha opinião nesse caso é que criar uma identidade única e específica, um personagem, digamos assim, só vale a pena quando você tem um blog muito focado e deseja investir nisso profissionalmente, ou quando a intenção é ter um blog de nicho, que trata sobre um único assunto. Quanto àqueles que querem usar a internet para se divertir, criar relacionamentos, e, principalmente, dar vazão a uma vocação para a escrita, o melhor mesmo é mostrar-se como se é. E todos temos inúmeras facetas, então a melhor forma de ser original é simplesmente ser você mesmo (inclusive quando você está na descoberta de quem você é de verdade – afinal, todos estamos em constante mudança e transformação, não é mesmo?).

Alguns vão se identificar, outros não, mas aí está a beleza da coisa.

TM – Você poderia citar algumas coisas que a internet e seus blogs lhe proporcionaram e que seriam muito difíceis de acontecer sem essas ferramentas?

JD – Como já falei, a Internet me proporcionou um canal maravilhoso para publicar o que escrevo. Sempre escrevi, mas quando comecei a blogar, tive um ânimo a mais para fazer isso. Vamos descobrindo blogs com os quais nos identificamos, conhecendo (mesmo que “virtualmente”) pessoas parecidas conosco ou que nos acrescentam e com isso, crescemos, aprendemos… Os blogs e o twitter permitiram que eu entrasse em contato com gente incrível, que eu não teria a oportunidade de conhecer se eu não usasse essas ferramentas.

TM – Se olharmos para 10 anos atrás e compararmos a internet de hoje, móvel (ou em vias de ser), com aquela em que as pessoas ficavam (ainda ficam) em frente ao computador, podemos dizer que estamos saindo de um período de hibernação para outro mais livre, com as pessoas podem agora “andar com a internet”. Você conseguiria citar alguma “sequela social” desse processo?

JD – Acho que agora estamos com a ansiedade do imediatismo. Sobretudo com os celulares que nos permitem estar conectados o tempo todo.

Às vezes perdemos a chance de nos desligarmos um pouco e curtirmos momentos “off-line”. Precisamos realmente postar as fotos no exato momento em que são feitas ou abrir nossos e-mails de cinco em cinco minutos? Na maioria dos casos, não! Mas é difícil resistir. Mesmo com tudo isso, também acho que a Internet móvel tem grandes vantagens, que se soubermos utilizar com parcimônia, superam as desvantagens.

TM – Fala-se muito atualmente sobre os e-books e de como eles poderão suplantar os livros como conhecemos. Falar em morte do livro físico não seria quase que uma propaganda enganosa?

JD – Com certeza! O livro físico, que podemos tocar, guardar, folhear, cheirar nunca vai deixar de existir. Eu tenho fascínio pelos livros e gosto de vê-los empilhados na minha prateleira, gosto de presentear meus amigos com eles, de levá-los na bolsa e parar num parque ou numa praça para lê-los. E assim como eu, há milhões de pessoas com o mesmo apego sentimental pelos livros impressos. Além do mais, já estamos cansados de saber que o rádio não matou o jornal, a TV não acabou com o rádio, as músicas baixadas pela internet não substituem as coleções de CDs, e assim por diante.

Acredito que há espaço para todas as formas de expressão, mesmo que a tecnologia se imponha. Nesse ponto, posso dizer que sou tradicionalista, ou conservadora, sei lá… Livros para mim são tesouros que devem ser passados de geração a geração, ou trocados nos sebos, emprestados aos amigos, mas são preciosos de qualquer forma.

TM – No seu blog “Heresia Loira” você se descreve como uma “desertora da fé evangélica”. A internet hoje estaria fazendo um certo papel de igreja tecnológica?

JD – Não sei se “igreja tecnológica”, mas sei que através do Heresia Loira, apesar de criticar a religião, conheci cristãos moderados, com senso crítico, que mesmo professando sua fé mantém blogs para debater sobre ela de forma racional e até denunciar os fanatismos. Algumas dessas pessoas nem freqüentam igrejas, mas são bem mais devotadas às coisas boas do cristianismo do que muitos “fiéis” que não perdem um culto ou missa.

TM – Hoje existem inúmeras formas de uma pessoa se comunicar e obter informações. Por que você escolheu a escrita e quais são suas pretensões com essa forma?

JD – É clichê, mas não há outra forma de responder essa pergunta: a escrita me escolheu. Desde criança rabisco meus poemas, escrevo diários, contos e sentia que escrever era a melhor coisa que eu poderia fazer em minha vida. Minhas pretensões são a de qualquer escritor, fazer com que minhas palavras sejam lidas, que façam diferença na vida de algumas ou milhares de pessoas; que possam se identificar com o que escrevo ou mesmo discordar, mas refletir sobre alguns assuntos e sobre suas próprias convicções. Além disso, escrevendo e publicando na internet também aprendo muito com aqueles que comentam, que mostram outras perspectivas sobre minhas opiniões.

Escrever é uma válvula de escape e é dolorido muitas vezes, mas é fascinante ter um meio de expôr suas opiniões e pensamentos e receber de volta a resposta das pessoas, mesmo que seja de apenas meia dúzia de leitores. Ah, e quem tem a paixão de escrever quer ser lido, mesmo que afirme que tenha um blog apenas como um diário. Gosto de citar a frase de George Orwell sobre as motivações do escritor: “todos os escritores são vaidosos, egocêntricos e ociosos e bem no fundo de seus motivos jaz um mistério”. É isso:quem ama escrever sabe que essa frase, em maior ou menor grau, se aplica a si mesmo. Concluindo (se é que é possível concluir esse assunto), faço minhas também as palavras de Paulo Leminski:

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

2 Responses to “Heresia Loira”

  1. Nossa, adorei o perfil que antecede a entrevista! Valeu!!!

  2. Sou fã dessa Loira!

    A Ju consegue me instigar em determinados assuntos,na maioria das vezes quando leio o que ela escreve,paro e penso muito sobre o assunto,depois em comentarios tento discorrer sobre o tema.Ela é de uma versatilidade incrível.Inteligente bem humorada linda e loira.De quebra ainda é uma das duas pessoas que leêm meu blog frequentemente.Definitivamente eu não preciso de mais nada. ( rs´s)

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