Pop ou Porra. Tanto faz?

Caro Mafra,

Achei muito positiva essa sua questão (saiba a questão), e como o espaço para comentários em blogs é reduzido resolvi aqui escrever. Vamos lá!

Lembrando que numa sociedade as pessoas se unem por interesses comuns e sobrevivem – por e através – de seus grupos ou “partidos”, precisamos ter em mente aquela regra social que tende a aliviar as opiniões àqueles que fazem parte do círculo, e quanto maior seu círculo maior a impossibilidade de ser cirúrgico para fora dessas “cercas”.

É claro que nós precisamos nos ajudar, saber realizar parcerias e associações, e principalmente nos respeitar. Mas precisamos também nos ajudar no sentido da criação de condições para que os “homens e grupos bons” apareçam, analisem e reflitam com grande capacidade de isenção, e assim ajudem a criar o novo, o diferente, o impensável. Não podemos correr o sério risco de nos dar as mãos e não sairmos do lugar, pois aí não teríamos amor e sim letargia.

Não posso afirmar categoricamente, mas  realmente acredito que o artista quer ser analisado, no sentido de que novas ideias e reflexões podem lhe ajudar a encontrar novos caminhos dentro de sua obra, e porque não dentro de si mesmo.

Eu fiz o NUVEM fundamentalmente pela minha vontade de expressão artística, estética e pessoal, mas depois eu notei que esse trabalho poderia ser algo positivo no sentido de que alguém que faz a crítica também pode fazer o disco, isto é,  nesse caso o objeto criticado.

Além disso, é preciso entender o que de fato é a crítica. Eu falar se gosto ou não de algo não é necessariamente uma crítica, mas uma opinião pessoal, e isso se encerra (ou deveria se encerrar) na minha opinião. É o meu gosto e só.  A crítica não precisa e nem deve ser conclusiva, e sim abrir caminhos para que o ouvinte, o leitor, enfim, para que o público conclua a seu bel-prazer, dentro do seu próprio universo. Caso contrário será uma mera publicidade.

Nesse sentido eu lembro um trecho de Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa):

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Precisamos de análises mais contundentes, que possam ir mais à fundo dentro da obra do artista, que provoque a reflexão, a re-construção e a perspectiva. Caso contrário acabaremos sendo mais propensos a montar vitrines em shopping-centers, outdoors e banners, do que criar obras de real valor.

Olha que disco legal do Lenzi Brothers! Pow, o Tijuqueira lançou um disco bacana! Mas o que isso quer dizer além da minha opinião?

É um reducionismo preguiçoso, oneroso e muito pouco propositivo, além do seu valor como expressão obviamente.

Uma cena musical não se faz apenas de bandas ou músicos, mas de todo um conjunto de pessoas e funções. Essa cadeia também precisa ser formada, pois caso contrário teremos bandas e público, sim, mas com um vazio ensurdecedor entre eles.

Esse vazio não nos custa muito caro?

Um abraço,

Antonio Rossa

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One Response to “Pop ou Porra. Tanto faz?”

  1. antonio, querido,
    como sempre seus comentários nos fazem pensar.
    pois então, a crítica é fundamental para o desenvolvimento de qualquer área artística – dança, teatro, literatura. mas não apenas para dizer o que é bom ou ruim, mas para propor possibilidades, questionar construções, apontar coincidências, criar/desstruir canônes. mas também para dizer “que grande bosta”, ora!

    ______________________

    agora, que títulozinho para um post, hein?!?

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