Overdose no motel!

O trio catarina Motel Overdose faz juz ao próprio nome e parece querer incendiar a cidade iniciando o fogo com pau e pedra.

Não que eles estejam fazendo música “à manivelas”, mas um teor artesanal pode ser ouvido no trabalho dos caras.

Garrafas vazias, preservativos pelo chão e um nonsense em “gaussian blur”. Nem sempre a Ilha há de produzir apenas o lado “bom-moço” do rock´n´roll. É preciso alguém que coloque pra fora aquela sombra sacana que também nos faz humanos, e ainda assim com doses de humor e de uma necessária auto-ironia.

É nessa contra-corrente que Márcio Leonardo (Baixo), Felipe Batata (Guitarra e Voz) e Márcio Bicaco (Bateria) querem nadar, e trazem ao público cinco canções com pegada, substância e muita psicodelia.

“Densidade” poderia muito bem ser trilha sonora de uma dessas propagandas atuais que passam nos intervalos do jornal nacional, isto é, o politicamente incorreto não está longe da nossa realidade como muitos insistem em pensar. Baita canção!

Abaixo você confere a entrevista que o baixista Márcio Leonardo concedeu ao Transitoriamente.

Bom som e um abraço, Antonio Rossa

TM: Motel Overdose é uma banda ou apenas um passatempo?

ML: Os dois. Na verdade o nome da banda é uma brincadeira com isso. Originalmente a banda se chamaria “Banda Passatempo”. Mas para ser mais cabeça bolamos a metáfora “Motel Overdose”, onde Motel = Passatempo, Overdose = Banda. Para ficar mais profissional invertemos como se fosse em inglês, daí Motel Overdose.

TM: A crítica musical catarinense quase sempre foi complacente e paternalista com suas bandas. A verdade é que raras e poucas delas realmente levam seu trabalho com o profissionalismo necessário. Não que isso faça da arte mais arte, ma pra certos quesitos é fundamental. O que vocês pretendem mostrar e dizer com o Motel Overdose?

ML: Concordo plenamente quando você afirma que a crítica musical catarinense sempre foi complacente e paternalista. Mas acho que o buraco é bem mais embaixo. Principalmente quando se fala em Florianópolis.

O fato é que as pessoas querem promover a cultura local de forma distorcida e forçada. Talvez pela carência de qualidade histórica da própria mídia ficamos estacionados em pinturas  e mosaicos que retratam tarrafas e boi de mamão, sambas que cantam praias, morenas e belezas de uma ilha. Nada disso é original. É tudo chupado e “adaptado”. Até Mané Beat já teve por aqui.

As pessoas torcem pra Flamengo e Avaí. Vasco e Figueirense, e não para Avaí e Figueirense. Isso é uma cultura de recalque, e é ridícula e insustentável porque a tal identidade que eles procuram é sempre chupada de outras culturas regionais.

O resultado disso é que se você quiser aprovar um projeto ou vender um produto para a mídia o caminho mais fácil é essa “coisa-nossa”. Daí surge um subproduto cultural, até porque você tem que levar em conta que para se ter o tal do profissionalismo tem que existir investimento, e para que o capital para esse investimento seja viável o caminho passa invariavelmente por essa cultura da “coisa-nossa”.

Felizmente essa realidade está mudando, graças às possibilidades de comunicação. Então o que eu acho que o Motel Overdose tem a dizer é a obviedade de que existe uma  tendência possível de fazer as coisas por você mesmo, sem investimentos financeiros e sem seguir um padrão cultural forçado, apenas com investimentos intelectuais – a velha atitude – visto que tudo que fazemos, desde as gravações até a arte é feito por nós mesmos. E acho que em termos musicais, nunca tivemos (“a nível de” humanidade) tantas possibilidades e facilidades. Viva a tecnologia Alien.

TM – Pipodélica, apesar de sua qualidade, foi uma banda desconhecida por grande parte do público, mas ao mesmo tempo amada pela crítica “cult”. Motel Overdose pretende fazer música para quem afinal?

ML: Para vocês gente amiga!

TM: Há pouco tempo muitas bandas queriam ser o Franz Ferdinand para tentar o “sucesso”. Depois vimos muitas delas querendo ser o Cansei de Ser Sexy. No momento Lady Gaga parece o norte. Motel Overdose caminha por onde?

ML: Não pensamos em referências quando compomos. O nosso norte é o próprio nome da banda, então quando falamos de amor falamos de amor com putas, quando fazemos um rock falamos de explosão, birita, coisas de guri pequeno sem ter vergonha e sem ser uma coisa escancarada que acaba ficando de mau gosto. Não que o nome Motel Overdose seja exemplo de bom gosto.

O Facebook, por exemplo, censurou e tivemos que usar alguns artifícios. Claro que uma coisa ou outra pode sair um pouco do contexto, mas exatamente isso é o que faz a banda ser uma coisa agradável para nós. Achamos muito chato esse papo cheio de conceitos, protesto e coisas do tipo. Já está cheio de ONGs por aí pra fazerem este trabalho.

A nossa grande preocupação na banda é fazer música de qualidade, usar óculos escuros, tomar umas biritas e falar muita besteira. Enfim, poder se divertir com isso.

TM: Arte cult para poucos, arte pop para todos ou arte experimental para quase niguém?

ML:Arte cult para poucos, arte pop para todos e arte experimental para os artistas.

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