Archive for August, 2010

Muniques lança EP

Posted in musica with tags , , on 30/08/2010 by transitoriamente

Pensar uma canção meramente pela canção sempre me pareceu algo incompleto. Preciso do contexto, da capa, da foto, do clipe, do bairro, da entrevista, das sobras, do release para traçar uma significância daquilo pra mim.

Claro, continuo pensando que a música permeia todos esses detalhes, mas certos acessórios ajudam a contar uma história, e isso é fundamental na minha visão: Histórias.

Estou sempre atento aos lançamentos da música catarinense. Realmente me interessa aquilo que está sendo produzido perto do quintal da minha casa.

Neste último final de semana ouvi o EP do Muniques, grupo formado pelos ex-Maltines Cisso, Marcill e Dani, mais Leo Irvine.

Na minha opinião não existe estilo óbvio, existem momentos óbvios de se utilizar estilos.

O eletro-rock (ou synth rock), como o nome sugere, traz misturas de eletrônico e rock e é uma das vertentes responsáveis pela adesão de muitos roqueiros ao mundo das batidas eletrônicas.  Não se trata de um estilo novo, porém ainda é capaz de proporcionar instigantes novas sonoridades mundo afora.

The Prodigy, Gorillaz, TV on the Radio e Cansei de Ser Sexy são alguns dos top-charts do estilo.

Numa primeira audição Muniques não me pareceu trazer nada de realmente novo (apesar da alcunha eletro-pop), levando em consideração a predominância do estilo no mainstream da moda e a tendência deste meio a inovar, mesmo que algumas vezes pra lugar nenhum.

No meio da sopa das rádios figuraria possivelmente como “mais do mesmo” e isso não é necessariamente um ponto negativo, já que a proposta do grupo é essa mesma: tocar nas rádios e baladas fashion.

Arrisco-me a dizer que para esse cardápio algumas das canções do Muniques podem vir a funcionar, já que a produção musical está à altura de coisas boas do gênero.

“Tonight The Disco” tem potencial, com um refrão grudento e uma boa pegada. Gostei da voz e da interpretação de Leo Irvine.

As demais canções oscilam entre alguns bons momentos pontuais e calmarias sem tanta expressão.

Quem pretende fazer um sopão de estilos necessariamente precisa entender o risco que corre.

Você conhece aquela frase que diz: “quem quer estar sempre na moda corre o risco de estar sempre fora dela”!?

Antonio Rossa

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Música para limpar

Posted in musica with tags , , , , , on 27/08/2010 by transitoriamente

A música transita entre e faz as pessoas. Somos naturalmente frequências, manifestações musicais.

Eu sou música, você também é, não se esqueça disso.

A ideia da coletânea “Momentum Faxina”  é tão saborosa quanto utilitária, mostrando que a forma e a função podem coexitir sem prejuízos para as partes.

Esqueça que a escada é bela , mas não sobe. Ali a escada é bela e leva lá no alto.

A coletânea promete lhe ajudar a fazer aquelas limpezas necessárias para tirar o limo das entranhas, aquela poeira danada que deixa a visão turva e o pensamento desvirtuado. Ligue o rádio e você poderá se surpreender com uma certa sujeira.

Os catarinenses da Café Brasilies (na foto), de Itajaí, foram um dos 17 escolhidos para compor esse trabalho, que é um lançamento do blog A Musicoteca (clique aqui). Lá no blog, que é um criação do mineiro Web Mota, você poderá baixar a coletânea na faixa e se divertir sem ter que jogar a poeira pra baixo do tapete.

Boa música, bela ideia e assim a arte vive, anda, varrendo as limitações e propondo novas alternativas.

Recomendo.

Bom som e um abraço, Antonio Rossa

O fazer pelo meu fazer

Posted in Curiosidades, musica with tags , , , , , on 25/08/2010 by transitoriamente

Num mundo quase sempre retilíneo, onde as pessoas escolhem algo para fazer e (incrivelmente) nem sempre o fazem, trabalhar em várias frentes acaba sendo bastante incomum e estranho para muita gente.

Talvez isso seja reflexo da necessidade dos mercados em produzirem a ultra-especialização, que em certos casos é a grande saída, sem dúvidas. Uma fratura exposta com uma cirurgia, uma indisposição com chá de boldo, isso me parece justo. O problema é quando um copo d´água vira tempestade, simplesmente pela necessidade de fazer complexo o que é naturalmente simples. Aí então já podemos chamar de outra coisa.

Na minha cabeça o limite sempre foi uma auto-imposição, ou seja, é possível fazer tantas coisas quanto a nossa mente conseguir compreender.

Na Índia, por exemplo, os gurus ensinam instrumentos percussivos sendo que uma das lições básicas é você conseguir reproduzir com a boca aquilo que será tocado. A ideia é que se a sua mente compreender esse toque você automaticamente conseguirá reproduzi-lo com as mãos, ou pelo menos terá maior facilidade.

Tudo bem que você poderá ter chances reduzidas em se tornar um atleta olímpico ou uma grande bailarina caso não tenha iniciado essas práticas bastante jovem, mas isso é apenas um ponto.

A ESCRITA

A escrita sempre me foi a base, o chão para poder erguer as vigas do conhecimento. Ao mesmo tempo é a área que eu mais respeito, pois não a vejo como um exercício simples. Lembro-me da angústia quando criança em querer aprender a escrever, aquilo pra mim era uma porta imensa.

Minha irmã ganhou um livro do Fernando Pessoa,  “O eu profundo e os outros eus”, quando eu tinha 9 para 10 anos. Foi duro entender absolutamente nada.

Não sei se hoje eu entendi, mas já me diverti bastante lendo o Pessoa.

Exercitar a escrita é polir arestas do nosso esquema de pensamento, em busca de uma fluidez capaz de adentrar a um sentido universal de compreensão.

Trabalho duro nesse negócio de escrita, e reconheço as dificuldades, às vezes uma mata fechada onde você precisará inevitavelmente passar, e sob a escuridão da noite.

Devo pedir desculpas aos meus pais publicamente por ter rabiscado quase todos os livros deles quando ainda era criança pequena.  A busca e a necessidade de expressão pode gerar alguns estragos, é fato.

A COMPOSIÇÃO MUSICAL

Alguém poderá dizer: “para quem escreve com frequência, escrever letras de canções deve ser mais fácil”.

Sinceramente, não sei.

Compor canções nunca me foi um exercício reto, com cartão de ponto ou horário fixo. Sei de pessoas que trabalham assim, porém comigo isso não funciona.

Deve ter sido por isso que nunca me tornei ateu, pois o mistério da composição sempre me deixou alerta àquilo que eu não vejo. Por qual razão as canções aparecem e desaparecem em frequências tão “desordenadas”? Qual o motivo que me faz escrever canções inteiras em poucos minutos e passar semanas e meses sem nenhuma ideia?

Não me importa se essas canções não são sucesso na Billboard ou nos Top Charts, elas agora existem e estão por aí, organizadas, possíveis. Obviamente não renegarei a chance de outros êxitos.

A música acaba gerando imagens mentais, representações metafísicas que podem facilmente adentrar à esfera da realidade material. Por isso os músicos são quase sempre vistos como pessoas criativas, pois de fato a música nos faz vislumbrar universos que nem sempre são feitos de cimento, carne e osso.

Ensinar música nas escolas é poder incentivar que mais pessoas possam adentrar a esses novos universos. Não me parece justo dizer que a sociedade prefere que os jovens usem crack ao invés de dá-los uma educação melhor, não é isso, mas o produto da falta de educação e dessa ausência de abertura mental pode, em parte, ter como consequência o crescimento alarmante do uso de drogas letais por uma parte da juventude, fora a alienação e a vulnerabilidade.

6 BILHÕES DE MUNDOS

Se existem 6 bilhões de pessoas no mundo, inevitavelmente temos 6 bilhões de mundos. É mundo que não acaba mais e algumas tentativas de padronizar pessoas, seja psicologicamente, seja materialmente, pode gerar grandes estragos.

Propor alguns poucos caminhos é encurralar ideias e anseios, como se 70% das pessoas tivessem nascido com o dom de salvar vidas através da medicina. Não creio.

Índices de vestibular são deformidades conformadas pelo exercício capital e material da sociedade. Então as universidades (e a sociedade) formam médicos que em parte não são médicos, engenheiros que em parte também não o são. É quase uma anti-formação.

A FOTOGRAFIA E O AUDIOVISUAL

Bom, eu estava falando de como a música gera imagens mentais, pois bem, a fotografia e depois o audiovisual acabaram sendo um caminho natural para eu expressar meus pensamentos e ideias. A urgência da fotografia me atrai, pois em um “frame fixo” você poderá ter a chance de encontrar uma representação escondida na fluidez da realidade móvel.

Coloquei “frame fixo” entre aspas, pois ao meu ver as fotografias nunca são estáticas, pelo contrário, a sua plasticidade muda com o tempo, interage com a ideia de realidade, fora toda a sorte de possíveis contextos.

Eu mudo e meu novo olhar muda a fotografia. A fotografia me olha, e muda-me.

O audiovisual pode ser visto como a fotografia em movimento, uma interação entre a música e a imagem. Fundamentalmente um caminho de comunicação fabuloso.

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia”. Vale lembrar que Shakespeare só alcançou o reconhecimento que hoje vemos quase 2 séculos depois de sua morte. Ele não deixou de fazer.

Sabendo e sentindo que a vida, como os trabalhos, simplesmente seguem, o realizar em si me parece um grande sentido. A natureza do que se faz já é outra estória.

Um abraço, Antonio Rossa

Um contexto, por favor!

Posted in fotografia with tags , , , , , , , , , on 23/08/2010 by transitoriamente

Imagine uma foto de alguém em fundo monocromático, sem nenhum objeto, apenas a pessoa. Adicione a esta foto um novo fundo, pode ser um jardim, um cemitério ou um centro de processamento de dados com centenas de computadores.

Teremos inevitavelmente diferentes formas de ver cada uma dessas novas fotos, seja na relação da pessoa com o ambiente, seja quando focarmos nossos olhares apenas na pessoa ou nos diversos fundos, ou ainda de forma geral.

Podemos falar de fotografia meramente pela sua composição de cor, pelas pessoas e/ou objetos e suas correlações, pelo ambiente envolvido, pelas texturas que poderão indicar a temporalidade dessa fotografia, etc.

Falar em imagem sem falar em contexto é sempre um exercício perigoso, ou no mínimo superficial. Claro, pode ser justamente esta a razão de certas fotos, porém nem sempre.

Não é incomum você ver o trabalho de alguns fotógrafos considerados fora-de-série e num primeiro momento se perguntar: “Onde está a real importância dessa fotografia”? Você reconhece essa linda mulher da foto abaixo feita por Fernando Donasci?

Na famosa foto de Einstein mostrando a língua, a sua chateação com o excesso de fotógrafos a sua volta o fez reagir de forma não usual. O que você pensava sobre essa foto? Você lembra dela? Eu não a mostrarei aqui apenas para atiçar a fotografia da sua imaginação.

O brasileiro Sebastião Salgado é exímio em mostrar questões sociais fortíssimas em apenas uma foto (acima).

O que dizer e pensar sobre a foto abaixo de Kevin Carterx, no Sudão?

Alguém então poderá me questionar: Rossa, você quer dizer que a partir de agora nós precisaremos descobrir o contexto das fotos quando a vermos?

Eu responderia, de imediato, não! Ou pelo menos não necessariamente. Muitas vezes o contexto nem está evidente, porém acredito que pode ser um exercício bastante interessante caso você passe a pensar que existe essa possibilidade, e que tanto na fotografia como na vida a contextualização das coisas pode ser algo bastante esclarecedor e enriquecedor, e que parece estar fora de foco na “era da internet”, pelo menos até o momento.

Infelizmente nem sempre sabemos qual o contexto de frases, fotos, vídeos e informações que recebemos a cada segundo via web.

Você pode sair de um clipe da Lady Gaga e um segundo depois estar vendo um vídeo de uma tragédia em algum bairro de algum país, e que será precedido em mais alguns segundos por uma propaganda de cerveja com belas mulheres dançando.

As propagandas eleitorais também se misturam aos apelos televisivos comerciais, como se a novela começasse às 18h e só terminasse depois da meia-noite. Propostas? Quase não há propostas, em sua predominância frases de efeito e lamúrias emocionais sob efeito de trilhas-sonoras comoventes.

Onde estão os contextos?

O que parecia ficção científica há pouco tempo atrás, hoje já não soa exagerado dizer que estamos próximos da ideia de um universo de múltiplos contextos misturados sobre a mesma imagem, onde o pano de fundo poderá ser trocado conforme nossas necessidades ou humor.

Não corremos o risco de uma equalização emocional frustrante? E se a guerra for transformada no próximo Big Brother, nós saberemos distinguir a dor?

Pensar em contextos pode ser bom para nós.

Antonio Rossa

Luciano Bilu entre os tempos

Posted in fotografia, musica with tags , , , , , , on 23/08/2010 by transitoriamente

Gosto do sabor imprevisível da arte, suas nuances momentâneas e seus movimentos particulares.

É como se houvesse um pêndulo multi-direcional fazendo o tempo correr (ou parar), diferentemente da “lógica-relógio”.

Não que eu acredite que tudo deva ser improvisado, porém alguns pontos fundamentalmente precisam de uma certa dose de improviso para funcionar.

Claro, depois que os equipamentos estão checados e as condições positivas, é hora de deixar as coisas acontecerem sem tanta necessidade de GPS´s.

Há alguns meses fiz um ensaio fotográfico para o guitarrista catarinense Luciano Bilu (@LucianoBilu) e que seria utilizado (e posteriormente foi) no seu novo disco “Zeus és Tu”.

Desde o princípio gostei dessa ideia de desmistificar o poder humano e divino a partir das responsabilidades de cada pessoa. É mais fácil culpar Deus por nossos fracassos, ao mesmo tempo que damos demasiada importância para os sucessos pessoais e materiais. Esquecemos facilmente dessa teia que nos une de maneira inevitável e sem fronteiras perceptíveis.

Bilu e eu conversamos sobre suas ideias a fim de acharmos alguma representação para esse conceito. Veio-me a sugestão de utilizarmos construções semelhantes à arquitetura greco-romana, mas ao mesmo tempo emprestando a ela um ar contemporâneo, das interações e misturas estéticas ao redor do local ao visual do guitarrista.

Você verá uma porta de ferro, vigas trabalhadas pelo tempo, uma jaqueta usual-moderna e um poste cheio de fios elétricos, o que de fato se parece com a “vida real-real”, e não com aquela cheia de desenhos ideais. É Florianópolis, mas poderia ser qualquer esquina de qualquer lugar.

Poderíamos ter representado Bilu com roupas da época, o que não seria difícil e que poderia ficar muito legal, sim, mas queríamos abrir mais esse leque em direção à personalidade e ao dia-dia do músico.

Acabou prevalecendo a proposta dessa mistura clássica e moderna, o passado da arquitetura com a  modernidade de um all-star, e tudo mais que essas fotos puderem dizer entre e extra isso.

Simples, como a vida deveria ser.

Um abraço, Antonio Rossa

Propaganda eleitoral pra quêm?

Posted in Curiosidades with tags , , , , on 20/08/2010 by transitoriamente

É possível que eu lave muito mais as mãos do que assista à TV.

Não que não haja bons programas em toda a extensão da TV aberta e a cabo, claro que há, porém nossas agendas nem sempre batem. Aliás, em época de internet “avançada”, programação fixa parece até uma catequização forçada.

Ontem resolvi assistir ao horário político, em parte como um analista, mas também como um cidadão.

Terminado os programas eu confesso ter ficado ainda alguns dez minutos parado no sofá, pensando. A inevitável questão apereceu: Pra quêm eles estão fazendo esses programas? Pra mim realmente não é, salvo raríssimas exceções.

Devo ter sido tomado por uma onda de auto-engano, sei lá, pois no fundo eu sabia muito bem o que eu esperava, e mesmo assim me surpreendeu.

Para quem possui o hábito e a grande oportunidade de pensar há chances de salvação, mas e para aquelas pessoas que não tiveram a oportunidade de ir a escola, não tiveram acesso ao conhecimento e vivem de bolsas do estado? Elas recebem palavras mastigadas, generalistas e populistas. As promessas continuam imensas, já o comprometimento parece-me falível.

Sabemos que governos, empresas e famílias precisam de projetos, direcionamentos e focos. É inaceitável vermos um circo armado quando questões como miséria, analfabetismo, saúde precária, corrupção e falta de infra-estrutura precisam de ações e debates pontuais, e para já.

A maioria das propagandas políticas ignora quem pensa, e ao meu ver a propaganda é sim uma oportunidade para discutirmos projetos mais específicos, debatermos certas questões críticas e que necessitam urgentemente de práticas e soluções.

Em Santa Catarina, por exemplo, até o momento eu não vi ninguém falando de cultura, a não ser a palavra cultura em si em algum canto para tentar fazer brilhar o discurso. Ações específicas não há, ninguém comenta absolutamente nada. É como se as propagandas políticas fossem extensões da novela das oito. Ficção e realidade, com um peso muito maior para o lado ficcional.

Então você ouve comumente as pessoas falando: “eu vou é garantir o meu lado”. Logo penso, mas “garantir” qual lado? Você acha apropriado se esconder de uma bomba debaixo de um cobertor? Enquanto a classe média tenta “garantir o seu lado” escondendo-se da bomba sob cobertores e contentando-se com as sobras e as migalhas do poder a classe política ignora a população e a leis, e a criminalidade se organiza com requintes de grandes multinacionais.

Somos levados a acreditar que comprar um televisor 29″ em 48x é sinônimo de crescimento. Claro que é, crescimento para os bancos.

No Brasil o crédito é um mantenedor de classes, e não um agente de riqueza. Faça um empréstimo no banco e você verá sua dívida dobrar em questão de meses.

Estamos justificando a pobreza ou produzindo uma nação melhor e maior? Reconheço a necessidade de bens de consumo, ainda mais onde as pessoas não os possuem, porém quando isso vira sinônimo de crescimento pode acreditar que estamos ladeira abaixo.

Você já parou para pensar onde está a riqueza do Brasil? Não será a hegemonia do lucro bancário uma ficção e “estourável” bolha? Nosso crescimento não está demasiadamente atrelado a lucros que não voltam em forma de riqueza para a nação? Se a crise passou não quer dizer que ela não possa chegar.

Sendo possível, pare, pense e analise melhor os candidatos. Tente imaginar que uma nação se fará de grandes projetos e grandes ações, e que para se chegar a esse “grande”, é fundamental a existência dos pequenos projetos e ações.

E por favor, pare de ficar debaixo do cobertor enquanto bombas explodem.

Antonio Rossa

Uma editora independente

Posted in Livre Comunicação, musica, Novos projetos, Novos talentos with tags , , , , , on 17/08/2010 by transitoriamente

Djenane Arraes Moreira é jornalista, mora em Brasília, e alcançou o importante número 50 de edições produzidas de seu zine Elebu, publicação online com foco em música, arte e cultura.

De forma independente, na raça, Djenane vem sendo uma dessas forças motrizes que ajudam a cultura e a arte a se disseminarem Brasil afora. Não deve soar exagerado pensar que ações “simples” podem ajudar a  mudar o mundo, nem que seja o nosso próprio “mundo todo”.

Somos um País de discrepâncias, e não é preciso ser expert em política ou sociologia para dizer que está nas mãos do povo a sua própria chave de libertação. Eu particularmente não espero isso da Globo, por exemplo.

No post passado eu comentei à respeito do valor do ofício, e aqui eu posso atestar mais um exemplo dessas pessoas que fazem certas coisas simplesmente porque acreditam que precisam fazê-las.

Ganha quem faz, ganha quem recebe.

A seguir você confere uma entrevista que Djenane concedeu ao Transitoriamente, e que foi muito além da música..

Um abraço, Antonio Rossa

TM – “Cinquenta” é um número cheio de simbologias e que em se tratando de um zine pelo menos sugere que um trabalho foi feito, e que não foi pouco. Quais são os seus objetivos com a Elebu?

Djenane: O meu maior objetivo é continuar produzindo, disponibilizar conteúdo de qualidade e, claro, aumentar o público leitor. Muita gente me pergunta quanto à questão comercial do zine, se eu o colocaria “nas bancas”. Acho que se um projeto assim durou tanto tempo, é porque ficou fora disso. Não ganho nada para fazê-lo, financeiramente falando. O mais bacana em se fazer esse tipo de trabalho é o contato com pessoas diferentes. Isso é muito gostoso e recompensador.

TM – Você sente o resultado, de fato, fora das fronteiras de Brasília?

Djenane: Para te ser sincera, o público leitor de Brasília é praticamente os meus amigos e os amigos dos meus amigos. O zine é mais conhecido em outras cidades, como Rio de Janeiro e Fortaleza. Aliás, às vezes chega um e-mail de alguém me perguntando se o zine é editado no Nordeste.

TM – Não faz muito tempo tínhamos a ideia plena de que as coisas, artisticamente falando, só aconteciam no Eixo Rio-SP, com alguns pequenos focos em outras regiões. Na sua visão, esse foco central ainda permanece?

Djenane: Infelizmente sim. Houve e há vários esforços para amenizar a influência do eixo Rio-São Paulo. Os festivais realizados em Brasília, Goiânia e Natal são exemplos. Acho que o Abril Pro Rock foi o primeiro grande evento significativo fora do eixo. Mas os resultados disso ainda são muito tímidos. O pessoal do Cubo de Cuiabá trabalha duro nesse sentido. Conseguiu ajudar a projetar duas boas bandas: MacacoBoing e Vanguart. Mesmo assim, foi necessário que essas mesmas bandas ganhassem a “bênção” da mídia “do eixo” (vamos colocar assim) para ter importância nacional.

TM – A Elebu traz também matérias com artistas que já foram “mainstream”, como o Patu Fu, por exemplo. Ficou mais fácil falar com os artistas “maiores” hoje?

Djenane: O Pato Fu é a banda responsável pela origem da Elebu, em primeiro lugar. Comecei esse projeto por causa deles. Considero Fernanda Takai uma madrinha deste projeto. Ela ajudou muito cedendo entrevistas, prestigiando. Mas isso não quer dizer que a minha vida para falar com artistas do mainstream ficou mais fácil. Que nada! Às vezes preciso apelar um pouco para conseguir 15 minutos de entrevista ou respostas por e-mail. Mas é compensador porque percebo que a visibilidade que esses artistas naturalmente trazem ajuda bastante a divulgar os independentes nas edições.

TM – Atualmente temos acesso a mais informações, é uma verdade. Encontra-se na internet quase tudo sobre as mais diversas coisas. Se fóssemos extremistas, qual seria a grande ilusão e a grande verdade da internet?

Djenane: A grande ilusão da internet é achar que a informação é livre e democrática. Não é bem assim. O meio, por si só, é excludente (você precisa de, no mínimo, um telefone muito caro para acessar) e fragmentário (pela enormidade que é a internet). No fim, as grandes companhias continuam a dominar a informação. São eles que determinam o que é ou não é importante saber. Sobre a grande verdade, ah, isso eu não sei responder. Existe uma grande verdade? A única coisa que posso dizer é que a internet mudou a sociedade e não há como contestar.

TM – Eu sei que é uma pergunta ainda complexa, mas você acha que nós veremos o fim do papel como mídia escrita?

Djenane: Difícil essa! Existe uma divisão de opiniões entre os estudiosos a respeito disso. A maioria entende que o jornal impresso deve ser o primeiro a desaparecer. Hoje em dia, do público leitor total de um determinado jornal, apenas de 15 a 30% dele consome a notícia pelo meio impresso. Porém, a maior parte da receita publicitária que sustenta esses veículos vai para o papel e não para a internet.


Quando as empresas conseguirem aumentar a receita publicitária na internet, aí sim o jornal vai conhecer o seu fim. As revistas e os livros impressos, porém, ainda terão mais tempo de existência por causa do formato, da linguagem e peculiaridades desses meios. Livros e revistas estabelecem relações emocionais com seus respectivos públicos leitores. Acredito que, num futuro próximo, os livros, principalmente, se tornarão artigos de luxo, de desejo, tal como os discos de vinil são hoje. Por isso, não acho que veremos o fim do papel como mídia escrita, mas é razoável dizer que os jornais estão caminhando para o fim e que a nossa geração vai testemunhar isso. O Jornal do Brasil foi a primeira vítima entre os grandes. A partir de setembro deste ano, o JB impresso vai deixar de circular.

TM – Existe mídia imparcial ou isso é apenas uma ilusão?

Djenane: O único momento que você consegue ser imparcial é quando noticia um acidente de carro corriqueiro ou coisas triviais, que não te afeta diretamente. Fora isso, não! É algo quase impossível. Nos grandes veículos existe a linha editorial que influi diretamente na tal imparcialidade. E mesmo nos meios independentes, acaba prevalecendo a formação e os valores da própria pessoa. Se for olhar para o jornalismo cultural então… Aí é que não existe mesmo!