Propaganda eleitoral pra quêm?

É possível que eu lave muito mais as mãos do que assista à TV.

Não que não haja bons programas em toda a extensão da TV aberta e a cabo, claro que há, porém nossas agendas nem sempre batem. Aliás, em época de internet “avançada”, programação fixa parece até uma catequização forçada.

Ontem resolvi assistir ao horário político, em parte como um analista, mas também como um cidadão.

Terminado os programas eu confesso ter ficado ainda alguns dez minutos parado no sofá, pensando. A inevitável questão apereceu: Pra quêm eles estão fazendo esses programas? Pra mim realmente não é, salvo raríssimas exceções.

Devo ter sido tomado por uma onda de auto-engano, sei lá, pois no fundo eu sabia muito bem o que eu esperava, e mesmo assim me surpreendeu.

Para quem possui o hábito e a grande oportunidade de pensar há chances de salvação, mas e para aquelas pessoas que não tiveram a oportunidade de ir a escola, não tiveram acesso ao conhecimento e vivem de bolsas do estado? Elas recebem palavras mastigadas, generalistas e populistas. As promessas continuam imensas, já o comprometimento parece-me falível.

Sabemos que governos, empresas e famílias precisam de projetos, direcionamentos e focos. É inaceitável vermos um circo armado quando questões como miséria, analfabetismo, saúde precária, corrupção e falta de infra-estrutura precisam de ações e debates pontuais, e para já.

A maioria das propagandas políticas ignora quem pensa, e ao meu ver a propaganda é sim uma oportunidade para discutirmos projetos mais específicos, debatermos certas questões críticas e que necessitam urgentemente de práticas e soluções.

Em Santa Catarina, por exemplo, até o momento eu não vi ninguém falando de cultura, a não ser a palavra cultura em si em algum canto para tentar fazer brilhar o discurso. Ações específicas não há, ninguém comenta absolutamente nada. É como se as propagandas políticas fossem extensões da novela das oito. Ficção e realidade, com um peso muito maior para o lado ficcional.

Então você ouve comumente as pessoas falando: “eu vou é garantir o meu lado”. Logo penso, mas “garantir” qual lado? Você acha apropriado se esconder de uma bomba debaixo de um cobertor? Enquanto a classe média tenta “garantir o seu lado” escondendo-se da bomba sob cobertores e contentando-se com as sobras e as migalhas do poder a classe política ignora a população e a leis, e a criminalidade se organiza com requintes de grandes multinacionais.

Somos levados a acreditar que comprar um televisor 29″ em 48x é sinônimo de crescimento. Claro que é, crescimento para os bancos.

No Brasil o crédito é um mantenedor de classes, e não um agente de riqueza. Faça um empréstimo no banco e você verá sua dívida dobrar em questão de meses.

Estamos justificando a pobreza ou produzindo uma nação melhor e maior? Reconheço a necessidade de bens de consumo, ainda mais onde as pessoas não os possuem, porém quando isso vira sinônimo de crescimento pode acreditar que estamos ladeira abaixo.

Você já parou para pensar onde está a riqueza do Brasil? Não será a hegemonia do lucro bancário uma ficção e “estourável” bolha? Nosso crescimento não está demasiadamente atrelado a lucros que não voltam em forma de riqueza para a nação? Se a crise passou não quer dizer que ela não possa chegar.

Sendo possível, pare, pense e analise melhor os candidatos. Tente imaginar que uma nação se fará de grandes projetos e grandes ações, e que para se chegar a esse “grande”, é fundamental a existência dos pequenos projetos e ações.

E por favor, pare de ficar debaixo do cobertor enquanto bombas explodem.

Antonio Rossa

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One Response to “Propaganda eleitoral pra quêm?”

  1. Antonio, meu amigo.

    Por um desses acasos da vida, tive a oportunidade de assistir integralmente o primeiro dia de propaganda política no horário do meio dia.

    Fiquei profundamente desesperançoso. E eu, particularmente, acredito muito na possibilidade de transformação social através da política, mas com os atuais candidatos e pseudo-propostas, não vejo muita perspectiva de grandes transformações nos próximos anos.

    Primeiro pois não vi proposta nenhuma, mas uma fórmula muito pasteurizada de tentar causar comoção popular. Mais do que um embate de propostas de governo, desde a transformação visual do Lula, as campanhas políticas se tornaram uma guerra de marqueteiros. Os programas são coreografados, encenados, é tudo muito superficial e parecido. Não que eu queira uma revolução, como as que os lunáticos socialistas pregam, aquilo não existe, e as tentativas de existência daquele modelo foram sempre mal sucedidas, pendendo para a ditadura.

    Todos os candidatos vêm de famílias humildes, todos são apegados à família, todos ralaram muito para acontecerem na vida, todos foram militantes anti-ditadura, todos tiveram seus probleminhas com a polícia, todos estudaram – aqui uma mudança significativa, enquanto o Lula não se incomodava em não ter estudo e defendia algo parecido com “um homem do povo para o povo, e não para as elites das universidades” – no discurso da Dilma foi enfatizado várias vezes que ela estudou, que leu, que se instruiu.

    Além do apego sentimentalóide à família, a palavra do momento é carinho. Todos querem se eleger por que se preocupam com as pessoas, por que governam e/ou vão governar com carinho, para as pessoas. Sentimentalismo que agride minha inteligência.

    Ninguém tem coragem de atacar o Lula, pois sua popularidade é altíssima, tanto que é capaz de eleger a Dilma. Mas em função disso, fica um joguinho morno, um tentando provar que é mais querido do que o outro, e querem ser eleitos pela sua simpatia, e não pela sua capacidade de gestão.

    Não vi projeto algum, seja pela cultura ou por qualquer outra área social. Ouvi dizê-los que vão revolucionar a saúde, mas não ouvi como pretendem fazer isso, não ouvi de onde virão os recursos, não ouvi nada nesse sentido.

    E isso não se limita ao âmbito presidencial, em todas as instâncias desta eleição, a coisa anda por essa linha da superficialidade.

    O Serra é lindo, deixou de ser José e virou o Zé Serra, tirou a gravata para tomar café com pessoas pobres que supostamente ajudou a operar as cataratas. Virou um homem do povo, “quando o Lula da Silva sair, é o Zé que eu quero lá”, diz o jingle.

    A Marina, em quem provavelmente votarei, é bem intencionada, e talvez seja a única com um mote principal que orienta a sua campanha, o meio ambiente, mas quase fico com pena dela na possibilidade de ser eleita, pois não terá apoio nenhum nem da assembleia nem do congresso nem do senado. E a justa causa que ela defende, não interessa aos demais políticos e seus patrocinadores.

    A Dilma teve a transformação mais radical de todas, mas acho inconcebível a possibilidade de votar nela. Ela foi fabricada há um ano para a presidência, basta pegar uma foto dela há doze meses atrás e uma de agora. Ensinaram-na a se vestir, a se pentear, a falar, a parecer querida e simpática. Ela não é simpática, mas está simpática. Ela está linda, com seu botox e seu penteado Hebe Camargo. Mas é pouco para assumir a presidência. Dá até pena, em qualquer entrevista com um jornalista mais ou menos inteligente, se ela não tiver um texto nas mãos, ela não consegue sustentar seus pretensos argumentos por poucos minutos que seja.

    Poderia me estender ainda mais falando dos aspirantes ao governo do estado, todos os melhores prefeitos do mundo, e uma senadora que se prestou ao papel ridículo de imitar a Ana Maria Braga, com direito a Louro José e tudo, mas não vou me estender tanto.

    Me senti ofendido com as propagandas eleitorais, não sou burro para tentarem me iludir daquela maneira. Se querem me enganar, que o façam com alguma sutileza e elegância, não daquela maneira grotesca.

    Vamos ver com o avançar das semanas, se alguma coisa nova surje, capaz de me tornar um tantinho mais esperançoso.

    Abraço.

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