Um contexto, por favor!

Imagine uma foto de alguém em fundo monocromático, sem nenhum objeto, apenas a pessoa. Adicione a esta foto um novo fundo, pode ser um jardim, um cemitério ou um centro de processamento de dados com centenas de computadores.

Teremos inevitavelmente diferentes formas de ver cada uma dessas novas fotos, seja na relação da pessoa com o ambiente, seja quando focarmos nossos olhares apenas na pessoa ou nos diversos fundos, ou ainda de forma geral.

Podemos falar de fotografia meramente pela sua composição de cor, pelas pessoas e/ou objetos e suas correlações, pelo ambiente envolvido, pelas texturas que poderão indicar a temporalidade dessa fotografia, etc.

Falar em imagem sem falar em contexto é sempre um exercício perigoso, ou no mínimo superficial. Claro, pode ser justamente esta a razão de certas fotos, porém nem sempre.

Não é incomum você ver o trabalho de alguns fotógrafos considerados fora-de-série e num primeiro momento se perguntar: “Onde está a real importância dessa fotografia”? Você reconhece essa linda mulher da foto abaixo feita por Fernando Donasci?

Na famosa foto de Einstein mostrando a língua, a sua chateação com o excesso de fotógrafos a sua volta o fez reagir de forma não usual. O que você pensava sobre essa foto? Você lembra dela? Eu não a mostrarei aqui apenas para atiçar a fotografia da sua imaginação.

O brasileiro Sebastião Salgado é exímio em mostrar questões sociais fortíssimas em apenas uma foto (acima).

O que dizer e pensar sobre a foto abaixo de Kevin Carterx, no Sudão?

Alguém então poderá me questionar: Rossa, você quer dizer que a partir de agora nós precisaremos descobrir o contexto das fotos quando a vermos?

Eu responderia, de imediato, não! Ou pelo menos não necessariamente. Muitas vezes o contexto nem está evidente, porém acredito que pode ser um exercício bastante interessante caso você passe a pensar que existe essa possibilidade, e que tanto na fotografia como na vida a contextualização das coisas pode ser algo bastante esclarecedor e enriquecedor, e que parece estar fora de foco na “era da internet”, pelo menos até o momento.

Infelizmente nem sempre sabemos qual o contexto de frases, fotos, vídeos e informações que recebemos a cada segundo via web.

Você pode sair de um clipe da Lady Gaga e um segundo depois estar vendo um vídeo de uma tragédia em algum bairro de algum país, e que será precedido em mais alguns segundos por uma propaganda de cerveja com belas mulheres dançando.

As propagandas eleitorais também se misturam aos apelos televisivos comerciais, como se a novela começasse às 18h e só terminasse depois da meia-noite. Propostas? Quase não há propostas, em sua predominância frases de efeito e lamúrias emocionais sob efeito de trilhas-sonoras comoventes.

Onde estão os contextos?

O que parecia ficção científica há pouco tempo atrás, hoje já não soa exagerado dizer que estamos próximos da ideia de um universo de múltiplos contextos misturados sobre a mesma imagem, onde o pano de fundo poderá ser trocado conforme nossas necessidades ou humor.

Não corremos o risco de uma equalização emocional frustrante? E se a guerra for transformada no próximo Big Brother, nós saberemos distinguir a dor?

Pensar em contextos pode ser bom para nós.

Antonio Rossa

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