O fazer pelo meu fazer

Num mundo quase sempre retilíneo, onde as pessoas escolhem algo para fazer e (incrivelmente) nem sempre o fazem, trabalhar em várias frentes acaba sendo bastante incomum e estranho para muita gente.

Talvez isso seja reflexo da necessidade dos mercados em produzirem a ultra-especialização, que em certos casos é a grande saída, sem dúvidas. Uma fratura exposta com uma cirurgia, uma indisposição com chá de boldo, isso me parece justo. O problema é quando um copo d´água vira tempestade, simplesmente pela necessidade de fazer complexo o que é naturalmente simples. Aí então já podemos chamar de outra coisa.

Na minha cabeça o limite sempre foi uma auto-imposição, ou seja, é possível fazer tantas coisas quanto a nossa mente conseguir compreender.

Na Índia, por exemplo, os gurus ensinam instrumentos percussivos sendo que uma das lições básicas é você conseguir reproduzir com a boca aquilo que será tocado. A ideia é que se a sua mente compreender esse toque você automaticamente conseguirá reproduzi-lo com as mãos, ou pelo menos terá maior facilidade.

Tudo bem que você poderá ter chances reduzidas em se tornar um atleta olímpico ou uma grande bailarina caso não tenha iniciado essas práticas bastante jovem, mas isso é apenas um ponto.

A ESCRITA

A escrita sempre me foi a base, o chão para poder erguer as vigas do conhecimento. Ao mesmo tempo é a área que eu mais respeito, pois não a vejo como um exercício simples. Lembro-me da angústia quando criança em querer aprender a escrever, aquilo pra mim era uma porta imensa.

Minha irmã ganhou um livro do Fernando Pessoa,  “O eu profundo e os outros eus”, quando eu tinha 9 para 10 anos. Foi duro entender absolutamente nada.

Não sei se hoje eu entendi, mas já me diverti bastante lendo o Pessoa.

Exercitar a escrita é polir arestas do nosso esquema de pensamento, em busca de uma fluidez capaz de adentrar a um sentido universal de compreensão.

Trabalho duro nesse negócio de escrita, e reconheço as dificuldades, às vezes uma mata fechada onde você precisará inevitavelmente passar, e sob a escuridão da noite.

Devo pedir desculpas aos meus pais publicamente por ter rabiscado quase todos os livros deles quando ainda era criança pequena.  A busca e a necessidade de expressão pode gerar alguns estragos, é fato.

A COMPOSIÇÃO MUSICAL

Alguém poderá dizer: “para quem escreve com frequência, escrever letras de canções deve ser mais fácil”.

Sinceramente, não sei.

Compor canções nunca me foi um exercício reto, com cartão de ponto ou horário fixo. Sei de pessoas que trabalham assim, porém comigo isso não funciona.

Deve ter sido por isso que nunca me tornei ateu, pois o mistério da composição sempre me deixou alerta àquilo que eu não vejo. Por qual razão as canções aparecem e desaparecem em frequências tão “desordenadas”? Qual o motivo que me faz escrever canções inteiras em poucos minutos e passar semanas e meses sem nenhuma ideia?

Não me importa se essas canções não são sucesso na Billboard ou nos Top Charts, elas agora existem e estão por aí, organizadas, possíveis. Obviamente não renegarei a chance de outros êxitos.

A música acaba gerando imagens mentais, representações metafísicas que podem facilmente adentrar à esfera da realidade material. Por isso os músicos são quase sempre vistos como pessoas criativas, pois de fato a música nos faz vislumbrar universos que nem sempre são feitos de cimento, carne e osso.

Ensinar música nas escolas é poder incentivar que mais pessoas possam adentrar a esses novos universos. Não me parece justo dizer que a sociedade prefere que os jovens usem crack ao invés de dá-los uma educação melhor, não é isso, mas o produto da falta de educação e dessa ausência de abertura mental pode, em parte, ter como consequência o crescimento alarmante do uso de drogas letais por uma parte da juventude, fora a alienação e a vulnerabilidade.

6 BILHÕES DE MUNDOS

Se existem 6 bilhões de pessoas no mundo, inevitavelmente temos 6 bilhões de mundos. É mundo que não acaba mais e algumas tentativas de padronizar pessoas, seja psicologicamente, seja materialmente, pode gerar grandes estragos.

Propor alguns poucos caminhos é encurralar ideias e anseios, como se 70% das pessoas tivessem nascido com o dom de salvar vidas através da medicina. Não creio.

Índices de vestibular são deformidades conformadas pelo exercício capital e material da sociedade. Então as universidades (e a sociedade) formam médicos que em parte não são médicos, engenheiros que em parte também não o são. É quase uma anti-formação.

A FOTOGRAFIA E O AUDIOVISUAL

Bom, eu estava falando de como a música gera imagens mentais, pois bem, a fotografia e depois o audiovisual acabaram sendo um caminho natural para eu expressar meus pensamentos e ideias. A urgência da fotografia me atrai, pois em um “frame fixo” você poderá ter a chance de encontrar uma representação escondida na fluidez da realidade móvel.

Coloquei “frame fixo” entre aspas, pois ao meu ver as fotografias nunca são estáticas, pelo contrário, a sua plasticidade muda com o tempo, interage com a ideia de realidade, fora toda a sorte de possíveis contextos.

Eu mudo e meu novo olhar muda a fotografia. A fotografia me olha, e muda-me.

O audiovisual pode ser visto como a fotografia em movimento, uma interação entre a música e a imagem. Fundamentalmente um caminho de comunicação fabuloso.

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia”. Vale lembrar que Shakespeare só alcançou o reconhecimento que hoje vemos quase 2 séculos depois de sua morte. Ele não deixou de fazer.

Sabendo e sentindo que a vida, como os trabalhos, simplesmente seguem, o realizar em si me parece um grande sentido. A natureza do que se faz já é outra estória.

Um abraço, Antonio Rossa

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2 Responses to “O fazer pelo meu fazer”

  1. Boa tarde Rossa.
    Gosto bastante de teu blog e concordo com você em relação ao ato de aperfeiçoar uma técnica, de aproveitar essa plasticidade de nosso cerébro e colocá-lo para trabalhar.
    Desenvolver bem um aspecto artístico requer além da tradicional prática diária exige persistência.
    Sobre o enquadramento que você comentou, de colocar as pessoas dentro de moldes fixos, acredito que são enganos terríveis. Exigir que alguém seja uma só coisa a vida inteira dá calafrios.
    Continue com seus bons textos.

    • transitoriamente Says:

      Salve Draylton!
      O blog Transitoriamente se destina também a essas livres reflexões, sem tantos pontos finais e com muito mais reticências.
      Que bacana que essa onda chegou até você.
      De onde você fala?
      Um abraço,
      Rossa

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