Archive for September, 2010

Todo tempo agora

Posted in transitoriamente with tags , , , , , , on 26/09/2010 by transitoriamente

Como falar da vida sem ter vivido a vida inteira?

Esta questão se dissolve quando penso no agora, no hoje, nesse eterno cubículo temporal o qual me encontro toda vez que acordo.

No fim das contas é sempre hoje, como ontem foi hoje e amanhã também será. Estamos sempre no agora, apesar da mente não necessariamente ter essa mesma percepção.

Posso me esquecer, por descuido, que este corpo carrega tantos e tantos Antonios, desde aquele bebê que não lembro até a cicatriz no meu rosto que observo desde aquele dia do acidente. Quem pode negar que o trauma não seja uma saudade amplificada? Um apego nostálgico em busca do hoje no ontem?

Era este eu aqui que estava lá naquele dia, quando perdi a cabeça ou chupei um picolé. Era esta mão que agora toca os teclados e digita palavras, apesar de haver certas controvérsias sobre se era mesmo esta mão.

Eu mudei, minhas mitocôndrias mudaram, minhas plaquetas e o tamanho de minhas orelhas. O velho de mim também mora aqui, ou seja, o futuro caminha comigo, no hoje, todo santo dia.

Até aquela bela camiseta já não é mais a mesma, e quanto a minha paciência venho tentando domá-la através da respiração.

É tudo hoje, sempre hoje. Certas claustrofobias não são gratuitas, não mesmo.

Dormi ontem e acordei no hoje. Pensei no amanhã e encontro-me no agora. Nunca fui amanhã, nem ontem, apesar de certas frustrações congelarem minha ideia de tempo. Volto a mim, respiro, e mais uma vez é agora.

Nunca acordei cachorro, jamais, nem gato, muito menos rato, mas não duvido de que certos comportamentos tenham lá suas correlações. Já vi gente mordendo por aí, até garotos fazendo miau! e certos ratos mais ratos do que ratos.

Tudo bem, eu confesso, já tive lá meus dias de cão, e duvido que um cão já não tenha tido lá um dia de gente.

É tudo agora.

Antonio Rossa

“A Corda em Si” hoje em Florianópolis. Um espetáculo de sentidos

Posted in musica with tags , , , , , on 25/09/2010 by transitoriamente

Nessa última década o duo “The White Stripes” virou febre mundial por conta de sua mistura de rock, pop e minimalismos estéticos.

Eles não inventaram nem o estilo nem a estética física de duo, porém enriqueceram sonoridades clássicas, propuseram formas aparentemente inacabadas (reticências para o amanhã) e deram ao público um sofisticado “menu” de influências vintage com os olhos voltados para o futuro.

Sem uma comparação literal e direta, mas com certas semelhanças, o duo catarinense “A Corda em Si” (ouça aqui) é um exemplo de como o “mínimo”, a leveza e o vazio podem se transformar numa caldeira visceral e expansiva sonora e visualmente.

O duo catarinense, formado por Fernanda Rosa e Mateus Costa, parece ir ainda mais a fundo nessa estética minimal, onde apenas voz e contrabaixo acústico sustentam ricas melodias e sofisticadas harmonias.

Engana-se quem pensa que leveza é um mero sinônimo de calmaria ou algo similar. “A Corda em Si” viaja por novos espectros e cores, faz do vazio “material” um novo ambiente sonoro, aliás, parece transformar o vazio em uma orquestra de sentidos.

Hoje (25.09), às 20h, no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), Florianópolis receberá um espetáculo digno das grandes capitais mundiais. O duo apresentará o show “O Som do Vazio”, espetáculo que já percorreu 21 cidades em SC através do Circuito Sesc de Música.

Trazem novas cores ao espetáculo a estilista Adriana Cardoso, o cenógrafo Roberto Gorgati, a iluminadora e diretora de cena Elisza Peressoni, a designer Paula Cardoso e a fotógrafa Camila Lima, além das participações especiais de Eva Figueiredo (clarinente), Paulo de Tarso (Violão), Larissa Galvão (Flauta Transversal), Leonardo Flach (Violoncelo), Dimi Camorlinga (Pandeiro) e Maria Carolina (Dança).
Boa música faz bem.
Antonio Rossa

Abra-te CIC!

Posted in musica with tags , , , , , , on 22/09/2010 by transitoriamente

Imagine você se um shopping-center ou um supermercado importante da sua cidade estivesse há mais de um ano passando por reformas e fechado ao público. Agora imagine uma Universidade em reforma e por igual período inacessível.

Seria possível quantificar os prejuízos? Tente por um instante imaginar as consequências.

Imagine então que você faz uma reforma na sua casa e enquanto a reforma acontece você deixa belos e históricos quadros jogados num canto da sala, jóias e outros pertences entregues à poeira e aos maus tratos.

Você pessoalmente teria essa falta de cuidado com algo de extremo valor?

Florianópolis está passando por um problema de similar gravidade, já que o Centro Integrado de Cultura, o CIC, está com suas portas fechadas há exatos 1 ano e 5 meses causando prejuízos irreversíveis para toda a cadeia artístico-cultural da capital e da região, e até mesmo do estado.

É notório que num período de tempo próximo a esse constroem-se shoppings e empreendimentos imobiliários com grande agilidade, dando a entender nitidamente que há um descaso perigoso em relação ao nosso Centro Integrado de Cultura e à capacidade da população de se expressar através da arte.

Peças, espetáculos, shows, exposições, mostras, oficinas, cinema e cursos precisaram ser remanejados e outros simplesmente abortados enquanto as obras no prédio permanecem irresolutas.

Ter as portas do CIC fechadas é mais do que um prejuízo financeiro e artístico, mas um gravíssimo prejuízo social. É como deixar as pessoas sem voz quando a única saída seria gritar.

Florianópolis perde, as pessoas perdem, SC perde. Precisamos com urgência de uma resolução com metas e prazos claramente descritos.

Cerca de 60 pessoas estiveram ontem (21.09.10) em frente ao CIC realizando um ato que culminou com um abraço simbólico no prédio.

Idealizado pelo músico e produtor Nani Lobo e pelo artista plástico Maurício Muniz, o manifesto seguirá questionando as autoridades responsáveis e já tem uma segunda data para acontecer: 16 de outubro.

Como se não bastasse todo essa problemática, enquanto o CIC permanece no limbo discute-se a transformação da Casa d’Agronômica em centro cultural.

Quem sabe o Governo não entrega o CIC finalizado e então parte para esse segundo projeto?

A nossa cultura merece uma explicação.

Antonio Rossa

Uma ferrugem articular…

Posted in Curiosidades on 20/09/2010 by transitoriamente

Imagine seu corpo entregue ao próprio peso, sedentário, como um rio parado e sem vida.

Você pode sentir algumas dores, mas certamente sentirá ainda mais quando passar a mover seu corpo em um exercício físico, por exemplo.

Você leva seu braço ao lado oposto e sente a limitação se impor. O chão parece distante demais quando seus braços tentam tocá-lo e então você dobra os joelhos na tentativa frustrada de não se frustrar.

Não tente mentir para as suas articulações!

Com o conhecimento as coisas são de certa maneira assim. Ficar parado pode lhe dar a sensação de que tudo está bem, apenas uma dorzinha aqui e outra ali, alguns analgésicos de ocasião e vida afora.

A partir do momento em que você começar a vasculhar novas ideias é bem provável que opostos saltem, além de toda a infinitude desse intervalo. Não há garantias que misturas improváveis não venham a aparecer, e os resultados, bom, os resultados certamente não serão aqueles tão previsíveis como a programação da Rede Globo.

A mente das verdades absolutas e das certezas cegas é uma espécie de ferrugem articular. Desconfie, levante o tapete.

Ficar na zona de conforto ou confrontar a zona?

Antonio Rossa

Manifeste! Manifestemos!

Posted in musica on 16/09/2010 by transitoriamente

Um “Impasse” pra não ficar parado

Posted in Curiosidades on 10/09/2010 by transitoriamente

Que o transporte público em Florianópolis é ineficiente grande parte da população sabe. Acredito que até aquelas pessoas que não andam de ônibus deduzem esse fato.

Caso uma pessoa comumente ande com um automóvel, moto ou bicicleta, ao precisar do transporte público da capital de SC verá que essa verdade é ainda mais evidente. Ônibus lotados, muitos deles mal conservados, atrasos e tarifas com preços bem acima das condições ideais.

A qualidade de vida de um município passará inevitavelmente pelo crivo à respeito da maneira como as pessoas se locomovem nesse espaço, a nossa mobilidade.

O direito de ir e vir precisa de um equilíbrio entre lei e realidade, caso contrário alguns vão e não voltam, já outros nem ao menos poderão ir.

Já não é uma questão de ser a favor ou contra a algo, Florianópolis está prestes a parar, já que a quantidade de carros em trânsito aumenta despudoradamente a cada dia ao mesmo tempo que não há uma contrapartida estrutural à altura desse descontrolado crescimento, pelo menos não tão evidente.

Tudo bem, existe um elevado sendo feito à caminho do aeroporto, mas com quantos anos de atraso afinal? E com esse atraso quanto a cidade perdeu? Um elevado será suficiente enquanto carros e mais carros são incorporados ao trânsito da cidade?

Mais uma vez certas alas conservadoras terão que entender a ideia de que o Estado precisará intervir também na econômia do transporte, para que então possam ser criadas soluções integradas com um certo grau de subsídio governamental, queiramos ou não.

Por exemplo, caso o valor do Taxi fosse mais em conta, muitas pessoas poderiam inclusive abdicar de ter um automóvel, ou simplesmente deixá-lo guardado para certas ocasiões. Teríamos um automóvel circulante deixando dezenas e dezenas de outros automóveis parados. Os preços dos taxis aqui na capital não chegam a ser abusivos, mas poderiam ser melhores. A mesma lógica serve para os ônibus urbanos.

Não acredito numa solução como um passe de mágica, então para que resultados expressivos venham a ocorrer é emergencial a necessidade de se montar projetos ambiciosos nesse sentido, que estejam acima de governos pontuais e se encaixem num plano de estado a longo prazo.

Não sou engenheiro, nem tão pouco entendo de trânsito, mas o sinto, vivo-o. E a cada dia que passa sinto mais os revezes desse crescimento desordenado. Não que outras cidades não mereçam, porém a Ilha de SC necessita uma atenção especial nesse quesito.  As fronteiras aqui são o mar, há limites impostos, claros.

Concordo e apoio uma Florianópolis moderna, capaz não apenas de gerar grandes obras como também grandes ideias.

Transporte Hidroviário – Trem de Superfície – Ônibus – Taxis – Locação de Bicicletas Públicas? Que tal?

Sei que é fácil escrever essas linhas, porém me esconder da expressão seria um ato, no mínimo, covarde.

Acredito que não faltam projetos, mas sim diálogos.

O trailer acima, do ainda inédito “Impasse”, pontua uma questão que há anos vem sendo discutida em Florianópolis, mesmo que nem sempre tal discussão tenha a abertura necessária.

Dirigido pelos jornalistas Juliana Kroeger e Fernando Evangelista, o documentário de 80 minutos é um registro fundamental para que mais pessoas tenham a oportunidade de compreender essa questão tão importante para o bem-estar e o futuro da nossa cidade, e mais, com força para celebrar a discussão em outras praças.

A famosa frase “e você aí vai ficar parado?” nunca foi tão pertinente por essas bandas de cá.

Poderá ser inevitável, caso você não assista “Impasse”.

Antonio Rossa

Felipe Coelho em noite inspirada

Posted in musica with tags , , , , on 03/09/2010 by transitoriamente

O violonista catarinense Felipe Coelho lotou o Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) ontem a noite em Florianópolis, como parte da turnê Catavento que está rodando o Brasil.

Com um concerto estupendo, a qualidade da música de Felipe aliada ao competente quarteto de cordas e trio jazz impulsionou a platéia, que interagiu de forma orgânica com o espetáculo. Oito músicos reunidos em plena exuberância sonora.

É extremamente gratificante ver que a música instrumental é capaz de levar um ótimo público a um teatro e mais ainda em notar a tremenda empolgação do público.

Outro momento ímpar foi a dança de Marilyn Mafra (foto acima) no flamenco de “Rojo y Amarillo”. Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.

Fui convidado a fazer as fotos do espetáculo, o que para mim foi uma grande honra e um daqueles saborosos desafios.

Foi uma linda noite em Florianópolis.

Um abraço, Antonio Rossa