Lennon e o coração do mundo

Pense nas injustiças do mundo e que a cada instante estampam os noticiários mundo afora.

Pense também que a maioria das injustiças não tem capa de revista nem âncora de jornal para fazê-las chegar ao nosso conhecimento. São simplesmente apagadas, jogadas numa sala escura de algum Tribunal ou resolvidas na bala ou na faca, onde geralmente os ingênuos pagam a conta.

A secura na garganta lhe faz quase perder a voz toda vez que um apresentador de telejornal denuncia alguma barbaridade vinda de qualquer lugar.

Você quer gritar, você até bate na mesa e ofende sua mãe. Você tenta jogar para fora toda aquela angústia e desilusão advindas da sensação de injustiça, mas esbarra na sua própria e comumente covardia, que tantas vezes você insiste em chamá-la de consciência.

Ali fora o mundo precisava ouvir exatamente aquilo que você disse a sua mãe, mas então você se cala, e se penteia, e arruma alguns papéis na pasta e caminha rumo ao escritório pelo mesmo caminho de sempre.

Sua simpatia forçada eleva-se quanto mais passos são dados e quanto mais próximo do seu destino você está. À contragosto, mas está.

Você engoliu a raiva, e essa raiva agora caminha por suas entranhas e aloja-se num canto qualquer do seu corpo e da sua mente. Cedo ou tarde uma resposta virá.

Você não quis levar isso adiante, pois no fundo você é tido como sensato, e assim pensa nas “forças ocultas” que lhe dizem, em sonho, pesadelo ou realidade, e que lhe fazem voltar atrás toda vez que a verdade lhe enche a boca e a contração de seus nervos eleva-se.

Lennon gritou o grito engasgado na garganta de uma geração. Foi o espírito de um tempo e continua ainda moderno e relevante mesmo 30 anos depois de sua morte. O músico estaria fazendo 70 anos hoje, 09 de outubro de 2010.

Na sua música ou em seus atos encarou o gigante invisível da imposição do poder, até mesmo como um iconoclasta de humor ácido na fatídica declaração sobre a importância dos Beatles diante de Jesus Cristo. 

Talvez Lennon percebesse de alguma forma a semelhança entre a histeria iconográfica pop e a religiosa, e sua condição pessoal de um “semi-cristo moderno”.

Isso não implica em um endeusamento gratuito, mas no simples fato de que alguém tem a possibilidade de falar e então diz o que precisa ser dito enquanto tantos se calam. E tantos se calam…Ano após ano.

Em The Ballad of John and Yoko Lennon canta: “Cristo, você sabe que não é fácil/ Você sabe o quão difícil pode ser/ Do jeito em que as coisas estão indo/ Eles vão me crucificar”)

Os plastificadores de alma viram um mito ascender como uma bomba atômica ao contrário, capaz de levar multidões às ruas e ter suas palavras propagadas em velocidade desafiadora até para os tempos de internet. A globalização da Beatlemania já era um fato e Lennon conduziu posteriormente sua carreira e sua vida em prol de questões mais sérias. Pai e ativista estavam nessa relação.

É possível falar de Lennon somente citando fatos pós-Beatles, mas afinal sem os Beatles onde estaria a voz de Lennon?

O interessante das carreiras solo dos FabFour é justamente a intersecção entre suas contribuições para os Beatles e seus conceitos particulares. Desmembrar essas peças é um tanto quanto saboroso e esclarecedor, e não é incomum encontrar pessoas que apreciam mais os discos solo do que os próprios discos dos Beatles.

Sigo com Lennon pós-69, quando a postura do “ex- Beatle Libriano Revoltado”  toma ares políticos escancarados, em parte por seu encontro “cármico” com a cantora e artista vanguardista japonesa Yoko Ono.


Aquilo que a música dos Beatles de alguma forma havia filtrado, ou quem sabe estimulado, agora apareceria em forma de protestos mais eloquentes, apesar de que tudo que Lennon fazia parecia ter sempre um ar de improviso-calculado, uma destreza artística verdadeira e sem excessos.

Quem havia dançado ao som do ingênuo Please Please Me, que hoje até poderia soar como um incensado produto juvenil-mainstream, não poderia imaginar anos depois um artista ligado a partidos de extrema esquerda dos EUA, fazendo atos simbólicos em nome da Paz ou devolvendo sua medalha de Membro do Império Britânico à Rainha Elizabeth como uma forma de protesto contra o apoio da Grã-Bretanha à guerra do Vietnã.

Lennon tinha o status e o dinheiro que a esmagadora maioria dos mortais provavelmente jamais terá, e poderia simplesmente ter sentado no sofá e ficado contando os louros de sua década de ouro. Não o fez.

Sua inquietude deu ao mundo um escape necessário para uma fresta de novas possibilidades, além de oito belos discos solo.

Fica difícil imaginar o que Lennon estaria fazendo caso estivesse vivo, mas algo eu realmente acredito, o mundo seria ainda mais criativo, crítico e lúcido. Ah! E com um humor mais ácido e menos simpático-botox-político-TV.

No fundo Lennon não morreu, nós sabemos. Apenas os homens morrem.

Antonio Rossa

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One Response to “Lennon e o coração do mundo”

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