Estilos, estilos musicais e/ou música?

Eu desconheço quantos erros graves existem na arte, mas um deles certamente é o do artista fazer algo que o público espera dele.

Quem necessariamente precisa me avisar das mudanças é o Judiciário, o Governo, a marca do achocolatado, da pasta de dente, do consórcio, do computador. O artista precisa se expressar, colocar para fora pontos de vista sem a necessidade de tantos lastros pré-definidos, sem avisos prévios nem medo do novo, caso contrário não precisaríamos de música e sim de relatórios semanais assinados e autenticados em cartório.

O artista precisa tomar cuidado para não cair facilmente na armadilha do “mercado”,  pois caso contrário a não utilização de artifícios sexuais já seria uma tremenda de uma incompetência, ou quem sabe até uma ingenuidade perigosa.

Quem dá mais?

O FUTURO DA MÚSICA

Encanta-me o grito de algumas partes em relação ao futuro da música. A maioria mais evidente (aquela que mais grita e aparece) diz que a música eletrônica seria esse caminho. Em um outro extremo estaria a música erudita e todas as suas “inexatidões exatas”

Simplesmente não consigo ser taxativo a ponto de gostar de algo e rebaixar a outra parte para que essa opinião se consolide. Sei que esta é a temática da maioria dos discursos, mas não aqui.

Ouvir uma orquestra é uma experiência fantástica, singular, ao mesmo tempo simpatizo com as facilidades e as possibilidades da música eletrônica, e de alguma forma acredito que mais pessoas poderão ter suas experiências sonoras (primeiras ou não) no contato com computadores, no conforto do espaço onde estiverem, de forma interativa e relativamente barata.

Mas isso é música? O sinal de ocupado faz de um telefone um instrumento musical?

Isso não exclui, ou pelo menos não deveria excluir, os instrumentos musicais dos mais variados tipos e espécies, e no fundo espera-se que cada instrumento leve o entusiasta a querer trilhar novos caminhos, do acústico ao eletrônico, do eletrônico ao elétrico, tudo misturado e assim por diante. Não vejo motivo para tentar destituir este ou aquele estilo. Achar complementaridades e equilíbrio parece uma grande ideia a fim de levar a música e a arte para outros estágios.

Caso esse fenômeno “eletrônico”, natural em se tratando da nossa realidade virtual, favoreça a ampliação do universo e das possibilidades artisticas e musicais das pessoas, estaremos não delimitando a música, mas a ampliando.

Rossa, é ainda necessário discutir esse tema?

Ver os recursos eletrônicos como parceiros da música, o que já é inteligentemente utilizado por alguns artistas, nada mais é do que fazer um prato com os ingredientes que você tem em mãos. Quase todo desequilíbrio irrita, e na arte isso parece ser ainda mais sensível.

Caso Dylan tivesse de fato ouvido aquelas vaias em 65, talvez nem Dylan nem a música Folk tivessem prosperado com a força que ainda hoje vemos e ouvimos.

Quem tem que ser politicamente correto, inevitavelmente, é a marca do Xampu, das lentes de contato e a Receita Federal. O artista precisa romper, discutir e propôr. Até uma possível orquestra da Receita Federal deveria passar longe dos escritórios.

Qualquer discurso, hoje, que pregue um estilo como “a salvação” soará um tanto quanto fora de tom, mesmo reconhecendo a força e o poder das questões mercadológicas e midiáticas mundialmente unilaterais. A música em si é muito maior do que qualquer estilo específico, e a força real da arte não necessariamente deve estar vinculada à audiência.

Van Gogh morreu à míngua, tendo vendido apenas um único quadro durante toda sua vida. Foi reconhecido apenas um século após a sua morte. Injustiça, ignorância ou uma mera e natural deformidade no tempo?

Máquinas não fazem artistas… Quanto muito os auxilia.

O artista não deveria ficar tão preso ao relógio, a não ser na hora de gravar e ensaiar em estúdios.

GAGA vs YOUNG

Abaixo seguem dois vídeos que, apesar de serem díspares conceitualmente, representam pelo menos dois tipos de força. O primeiro é o aclamado videoclipe Telephone, da cantora Lady Gaga, e todo seu liquidificador de desconstruções e referências. O segundo vídeo é do mais recente trabalho do cantor e guitarrista Neil Young, Le Noise, que leva o minimalismo e o vazio a pontos extremados.

Gaga processa e reprocessa ícones, jogando na mente das pessoas ideias material e comercialmente muito claras, mesmo que tudo isso esteja no meio de um aparente turbilhão de nonsenses. Compre, beije, transe, clique e ligue.

Young, ao meu ver, vai esteticamente ainda mais longe. Para quem o conhece a escuridão e o “monoton” de seu novo material servirá como uma tela em branco diante de um grande pintor. Ele deixa você criar em sua mente os outros instrumentos, há espaço de sobra pra isso.

Arte social?

DA CAIXA DE FÓSFOROS AOS SINTETIZADORES

Para quem o “bicho” da música pegou, sabe que tanto uma caixa de fósforos quanto um violão ou um sintetizador funcionam como ferramentas de expressão sonora, acima de estilos fixos.

A indústria sim precisa de tabelas, gráficos e planilhas para entender o mercado musical, já os amantes da música sentem o som desde a respiração até o toque dos dedos na mesa da cozinha simulando uma batida qualquer.

A preocupação maior acaba por encontrar reflexos na educação da sociedade. Jovens e adultos alienados que veêm na possibilidade da escolha da cor de um tênis uma chance democrática, acabam por se tornarem presas fáceis de um sistema uníssono e de ideias prontas.

Algumas ideias fundamentalmente precisam de maturação, não adianta esquentá-las no microondas.

CARROS, CERVEJAS E TELEFONES

Por exemplo, assista às propagandas que passam no intervalo da novela das nove na Rede Globo.  Eu posso estar errado, mas digamos que mais de 70% delas tem relação direta com a indústria automobilística, de bebidas e de telecomunicações. É carro, cerveja e telefone, tudo envolto por belas e cintilantes mulheres cercadas por grupos de homens famintos e sedentos.

Imagine agora que num intervalo de duas horas a sua mente é bombardeada pela ideia de poder, luxúria e desejo que alguns objetos podem lhe proporcionar, porém sem a garantia de que lhe proporcionarão. Na nota fiscal você verá apenas uma garantia sobre defeitos de fabricação, e só.

Alguém então dirá: “É apenas uma questão de desligar a TV ou mudar o canal”.

Não! Não é apenas uma questão.

Isso é parte do cardápio que nos é dado, e nem sempre a escolha tem relação direta com o escolher.

Você escolhe os políticos que você deseja ou você escolhe os políticos dentro de uma lista que lhe é dada?

Onde está a escolha nisso?

Antonio Rossa

7 Responses to “Estilos, estilos musicais e/ou música?”

  1. Rossa, querido, acho que subestimaste o trabalho de Lady Gaga e todas as nuances e entrelinhas que esvaem do seu caleidoscópio de referências NEM UM POUCO aleatórias. Afinal, pra citar um exemplo óbvio, ela escolheu botar no clipe a própria Pussy Wagon cedida por Quentin, e não qualquer outro veículo como o carro voador de Back to the Future… as citações de vingança feminina a la Kill Bill, a cumplicidade das personagens num roadmovieThelma&Louise e a estrutura que emenda tragédia em tragédia é uma constante em toda obra dela, costurada pelo fio de um trauma amoroso não superado e de ares edipianos (o que aparece bastante em outras músicas e entrevistas) – o clipe é como uma continuação de Paparazzi, que ilustra o relacionamento, a confiança, a traição e a vingança catastrófica que a leva à prisão, vingança que foi elevada à enésima potência em Telephone!!!

  2. transitoriamente Says:

    Caro Jacomel,

    Sua objetiva explanação vai de encontro, penso eu, ao que eu disse no texto, e também o enriquece. Você costurou muito bem as referências.

    Não vejo um tom de “subestimação”, mas não nego que “costuras referênciais” tem lá suas dualidades, algo entre a “preguiça cool” e a infalibilidade dos desejos ultra-supridos. Gasolina que move a moda.

    Lá eu disse:

    “Gaga processa e reprocessa ícones, jogando na mente das pessoas ideias material e comercialmente muito claras, mesmo que tudo isso esteja no meio de um aparente turbilhão de nonsenses. Compre, beije, transe, clique e ligue”.

    Um abraço,
    Rossa

    • Certamente, reconheço o perigo dessas dualidades e da maneira como a produção dela dialoga tendenciosamente com marcas e ideias x… mas ela me parece uma garota esperta.

      É que a maneira como colocaste tinha me soado por demais hierárquica, no sentido Gaga < Young.🙂

      Abração

      • transitoriamente Says:

        Tentei expor uma dualidade entre “preenchimento e vazio”.
        Abraço,
        Rossa

  3. transitoriamente Says:

    Faltou uma questão na mensagem anterior, que penso ser o mais importante dentro do que eu disse: Quem liberta é quem entrega pronto?

    • Liberta quem tiver a vontade de achar a chave cabível (ou a lima, ou a agência de demolição, ou a bomba H) para cada calabouço construido por si mesmo. Pra mim esse potencial criativo e questionador independe de determinada mídia e referenciais estéticos… Ambos os clipes citados são possivelmente libertários para problemas diferentes, pois pra coisas diferentes se propuseram.

  4. transitoriamente Says:

    O blog Transitoriamente é para quem não tem preguiça de pensar.
    Abração,
    Rossa

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