A arte regional-universal de Vê Domingos

O compositor e artista plástico catarinense Vê Domingos é um desses artistas talentosos e perseverantes que enfrentam o lugar-comum da indústria cultural de uma maneira visceralmente honesta: vivendo, fazendo e experimentado arte.

Transitando entre a composição musical e as telas, Vê faz parte da excelente safra itajaiense de músicos e compositores que inclui, entre outros, Carlinhos Niehues, Arnou de Melo, Renato Rangel, Peninha e Louise Lucena.

Com o recém-lançado “Prosa Fina em Byte-Light Chic“, o compositor apresenta uma belíssima obra com treze canções e um refinado trabalho textual e sonoro.

Olha que coisa doida, o formigueiro parou de trampar“, da linda A Lei do Silêncio, é um exemplo da boa mistura entre a estética regional litorânea catarinense e certos sons universais que permeiam seu trabalho autoral.

Como não suspirar diante de tão belos versos como na delicada Colisão? “Certo desse corte, parto ou me perco, na pausa que há na pauta do meu peito”. 

E a doce voz de Giana Cervi em Por Acaso? Delícia.

Um disco de coração, num tempo onde letras e poesias parecem meras decorações.

Abaixo você confere uma entrevista exclusiva com Vê Domingos para o blog Transitoriamente.

Bom som e um abraço,

Antonio Rossa

Ouça “Prosa Fina”( clique aqui).

Faixas sugeridas pelo blog: Chevette 77Camaleão P&B; Espelho, Espelho meu, A Lei do Silêncio e Colisão.

Transitoriamente – A sua trajetória inclui estilos musicais como o metal e o reggae. Em PROSA FINA EM BYTE-LIGHT CHIC você cai mais profundamente na música brasileira. Como se deu esse caminho na sua música?

Vê: Em sintese, as circunstâncias.  Fundamentalmente cada estilo tem algum aspecto relevante, isso veio se incorparando ao meu trabalho. Acredito que minha criatividade permitia me adpatar ao contexto musical que me encontrava. Minha parte sempre foi compôr.

Tem uma frase, cujo autor desconheço que diz algo assim: “se você soltar todas as suas amarras, vai parar onde sempre quis estar”. Musicalmente é onde eu estou, misturo com naturalidade minha trajetória nesse trabalho e considero muito meu contexto – não sou do tipo de músico que impoêm seu gosto, sou popular nesse sentido! Isso não é falta de personalidade, mas sim respeito por quem me ouve. Gosto de criar uma ponte entre o que eu faço e o público, essa ponte é o som, a poesia…  Esse álbum , particularmente, é uma maneira de dizer até onde posso transitar com minhas ideias de letra e música.

Hoje estou mais de bem com a vida, sou vizinho do Atlântico, acho que reggae-bossa-samba- norteiam bem meu trabalho, porém minha origem por parte de mãe é “nordeste”, Sertão, então tudo que pulsa “ritmicamente afro” me chapa! Sou uma mistura disso tudo. Nesse sentido sou conforto e caos sempre que possível.

TMe – Depois de 3 décadas (60, 70 e 80) onde as letras deram o tom estético para muitos dos cantores, compositores e bandas brasileiras, hoje é até possível afirmar que as letras tiveram seu status, de certa forma, diminuído. No seu trabalho eu notei uma forte preocupação com a palavra escrita, a construção poética.  O que você pensa a esse respeito?

V: Acredito que o que diminuiu nao foi o status de um bom texto, e sim a preocupação com ele. Porém não vejo perspectiva de vida longa para qualquer grupo que não tenha o que dizer.
Pode ser qualquer estilo, é preciso ter voz própria, e precisa “dar ideia”.

Se o artista tem uma função, acho que a função é essa, expressar seus pensamentos de uma maneira pessoal e encontrar as reverberações, e mais, não vejo o texto como uma segunda parte da obra musical, o texto tem que entrar no “tom”, precisa se encaixar com o solo, com os acordes e com a rítmica. Quando isso acontece, acontece uma boa canção. Acredito que sem um texto criativo, original e que tenha aplicação na vida, não se vai a lugar algum.

TMe – Sendo também um artista plástico, onde você acha que a música se interliga com a sua “tinta”?

V: Em certo sentido, a coisa toda é uma só. Às vezes saio pra tocar e no dia seguinte posso pintar algumas formas que lembram pessoas numa mesa de bar, ou minhas figuras podem ser compositores pensando em algo.

Obviamente toda forma de expressão tem suas próprias características técnicas, e é preciso empenho para dominá-las, mas é possível fazer analogias bem interessantes com música e artes visuais, por exemplo.  Para mim um trabalho plástico precisa ter refrão, é necessário dominar a escala de cores, equilibrar tons visuais, e isso não é diferente de equilibrar tons sonoros. Curiosamente alguns de meus artistas plásticos prediletos foram músicos também, tais como Paul Klee e David Parker.

Um detalhe que acho engraçado é que não consigo escutar músicas enquanto trabalho no meu atelier. Às vezes um pouco de jazz, porém outros estilos é impossível para mim, perco a concentração. Mas se um dia tiver que optar por um ou outro, certamente vou optar pelos dois… (rsrsrs).

TMe – Daqui de Floripa eu vejo Itajaí como um belo caldeirão efervescente de bons músicos. Há alguma razão específica para isso?

V:  Sim, temos muitos bons músicos aqui, é uma herança bendita, um legado deixado por grandes nomes, que inclui Carlinhos Niehues, Arnou de Melo, Renato Rangel, Peninha, Louise Lucena, entre outros. Depois, temos proximidades com cidades extramamente turísticas, onde há muitos bares com música ao vivo, e com uma distância relativamente pequena. Isso garante uma agenda, e por aí prolifera uma quantidade de músicos muito grande. Isso tráz a necessidade de um diferencial, porque você precisa sobreviver nesse mercado, que como todos nós sabemos, é bem difícil.

Agora soma-se um Conservatório de Música Popular, um Festival anual de MPB, com oficinas das mais variadas. Isso já tem treze anos e agora há um reforço que é uma graduação em música pela Univali. Isso somado a uma cidade inspiradora, que tem uma lei que despeja um milhão de reais anualmente em projetos artísticos. Então é a soma de todos esses aspectos que faz com que a cidade seja hoje uma cidade musical. Porém, ainda há muita coisa que precisa ser melhorada para que tudo isso seja canalizado para uma produção cultural que tenha realmente importância.

Ah! Daqui de Itajaí vejo Floripa como um belo caldeirão efervescente de bons músicos também.

TMe – Uma ideia para o futuro…

V: Por enquanto estou divulgando o Prosa Fina, penso em audiovisual de algum som desse álbum. Aos poucos tenho percebido o que vou focar num próximo passo autoral. Tenho trabalhado com o Tribuzana, que está em fase de composição para um terceiro disco, além de ter músicas minhas gravadas por outros artistas da região. Então no presente as coisas estão caminhando bem, e estou curtindo muito esse momento.

2 Responses to “A arte regional-universal de Vê Domingos”

  1. @Viny_Madureira Says:

    Acompanho o caminhar do Vê Domingos desde 1997, e é nada fácil trazer à memória algum outro artista assim tão versatilmente bem sucedido. Já o comparei à sua cidade, chamei-lhe “espraiado”. Dia desses no twitter, no ultimo dia 22 de abril, disse ainda que “@Ve_Domingos é universal, cantando sua aldeia. Mas sua música não sedentariza o lugar. Apesar de nada mais catarinense que o seu universal”. Espero, então, que o Vê continue transitando. Transeunte…

  2. classificados…

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