A explosão hipercultural de Musadiversa

É quase impossível dissociar a proximidade que temos de alguém e os atos parciais e tendenciosos que podemos cometer quando nos referimos a este, com a ressalva de que somente a verdade clara a respeito daquilo que se afirma pode nos fazer sair ilesos (ou quase) de qualquer comentário que diga: “Ah! Mas você conhece eles” ou “elogio de mãe não vale” ou…

Estamos em Florianópolis, em pleno sul do Brasil. O ano é 2011.

Apesar da proximidade que eu tenho com muitos desses músicos, e ainda pelo fato de eu ter trabalhado na arte gráfica do mais recente trabalho dessa turma, só vim a conhecer Musadiversa (as músicas) justamente no lançamento do disco, com o quinteto tocando ao vivo no palco do TAC, em Florianópolis, no último 16 de outubro.

Os artistas em questão são Felipe Coelho (Violão 7 cordas), Rafael Calegari (Contrabaixo), Maycon de Souza (Sax), Mauro Borghezan (Bateria) e Luiz Zago (Piano), alguns dos músicos mais expoentes de SC na atualidade (nessa ordem na foto).

Explico aqui que Musadiversa (ouça) é o resultado da união desses músicos, num encontro inédito de sons, ritmos e personalidades.  Um ousado projeto produzido pelo violonista Felipe Coelho e que tinha em sua premissa fundamental o tremendamente complexo objetivo de propor alguns novos caminhos para a música instrumental. Uma antropofagia ampla, de corpos sem fronteiras.

Ah! Todos nós sabemos que humildade é uma qualidade das grandes pessoas, algo tão difícil de se conseguir quanto o próprio entendimento do que vem a ser humildade. Pergunte para alguém e este logo lhe dirá: Humildemente falando…

Não! Não acredito que alguém verdadeiramente humilde começaria uma frase assim. Agora, alguém assumir a própria pretensão não seria um sinal claro de humildade? Pelo menos pontual?

Tom Jobim certa vez disse algo como “sucesso no Brasil é insulto pessoal”. Ora, até para jogar um simples bilhete de loteria faz-se necessário uma boa dose de pretensão (e não apenas sonho), caso contrário a sola gasta do seu sapato, alguns litros de combustível, mais o custo do bilhete já seria um desperdício imenso, haja vista que você aparentemente ainda não ganhou o grande prêmio e continua a tentar. Tudo bem, tem o prazer… Mas ele logo se esvai e então a realidade volta.

O CONCEITO

Musadiversa não é apenas um dos mais avançados trabalhos musicais lançados em SC no ano de 2011, mas muito provavelmente um lastro para a “nova” música instrumental brasileira, que conta nos últimos dez anos com as enormes contribuições do gaúcho Yamandú Costa, dos cariocas André Mehmari e Hamilton de Holanda, e do paulista Chico Pinheiro.

Universal, hipercultural e por vezes até mesmo assoviável. Um disco que não teme misturas improváveis e nem parece querer responder a sua própria pretensão. Aliás, querer algo pode ser uma mera desculpa para simplesmente ir, continuar, não se deixar à toa. O resultado em si não pode ser mais importante do que o processo, o realizar.

Num mundo onde quase tudo parece já ter sido feito, é até mesmo saudável e necessário acreditar que podemos transformar as coisas. Então Musadiversa também pode ser visto como um trabalho de transformação, começando pelos músicos que dedicaram 12 meses e iniciaram tal desafio praticamente do zero.

Um time de estrelas é garantia de vitória? Sabemos que não, ainda mais em se tratando de música onde não existe placar ou fórmulas decisivamente prontas.

Talvez o trabalho peque no sentido de não explorar outros timbres menos orgânicos, o que poderia trazer um público diferente ao grupo e até mesmo apontar para outras direções. Quem sabe isso seria óbvio demais e não seria Musadiversa. Por outro lado, a ideia do faltar pode ser uma ponte ao próximo passo. Nada está completo e é melhor que seja assim.

Por outro lado, a falta de intimidade com essa música mais “cool” poderá fazer alguns desavisados caírem num lugar muito comum. “Isso é apenas Jazz”. Calma! Vá adiante, a montanha pode ser longa, mas o prazer da vista vale a pena.

O DISCO

O acesso das pessoas às modernidades digitais acabou por gerar a idéia falha de que tudo na arte parece ser fácil ou que apertando dois ou três botões temos ela em nossa frente, em Full HD ou instagram. A estética final vem levando vantagem sobre o ofício, o fazer. Musadiversa é labor, são cinco músicos ” quebrando pedras, serrando portas e janelas”.

Lembro-me de ouvir  Coelho admitindo a dificuldade de manter um grupo em sintonia e focado apenas na arte, ainda mais diante dos compromissos cotidianos, daquela vida que nos leva à paralisia criativa e ao marasmo. Vez por outra a TV nos chama e ali pairamos, perigosamente.

Algo me diz que até mesmo os bons DJ´s sabem que o resultado do seu trabalho é mais complexo do que apenas “mexer em alguns botões”, mas eis que tudo acaba em generalismos ou ecos uníssonos na capa da revista, e então colocamos no mesmo balaio reis e rãs. Cuidado!

Assim Musadiversa começa por propôr um rompimento com aquela idéia de que músicos “eruditos” ou “estudados” não engolem a música eletrônica e seus botões. Certamente (quase) uma bobagem, mas os estigmas nos perseguem, inclusive aqueles que trazem a palavra humildade antes do próprio ato de sê-lo.

AS FAIXAS

Então nos veio DJazza Nova, composição de Felipe Coelho. Inusitada, com a pegada do eletrônico e do rock´n´roll, e um respiro textural puramente orgânico. Melódica e contrastada, um misto da pressa e da suavidade que muito bem representa os tempos atuais.

Qualquer preconceito cai por terra quando o assunto é diversidade e novas possibilidades sonoras. A música imprime o tom, o resto é especulação social.

Na seqüência Mantrânsica, composição do grupo, traz no título a esperta junção das palavras mantra e transe, que muito bem definem a música. Uma viagem onírica entre uma mantra oriental e o sabor do transe do maracatu nordestino. Sem dúvidas um cardápio idiossincrático.

Impressões Digitais parece trazer a sagacidade de um investigador norte-americano dos anos 40. Lupa, luvas e mistérios. Segundo Coelho, a música traz a influência do mestre Pat Metheny e uma forte ligação com o jazz clássico. Isso parece dizer tudo, mas a música em si segue seu próprio caminho, uma particular “impressão digital”.

Linhas Curvas é de autoria do baixista Rafael Calegari. Uma levada solta, leve, com um certo toque mineiro e até mesmo rural, e nem por isso menos sofisticado. Algo que muito me surpreendeu na primeira audição.

Musadiversa, de Felipe Coelho, é talvez a mais colorida do disco. Não correrei o risco de rotulá-la em respeito a tudo aquilo que eu acabaria deixando de lado. Em tese, uma música com toques femininos, curvilínea e sensual.

Salsete, de Luiz Zago, é quase uma “salsa-gaudéria”. Mas não se engane, La Cuba libre e o Rio Grande do Sul são pêndulos entre mundos bastante distintos. Salsete também é assim.

Mosaico é a mesma música do trabalho-solo de Felipe Coelho – Catavento – porém agora em nova roupagem. Clara junção de influências orientais com a música sul-brasileira, fechando com um explosivo jazz.

Fora do Jogo fecha o disco e é a segunda composição solo de Luiz Zago no trabalho. Um classic-jazz baladeiro e direto ao ponto. Aliás, a única balada do disco, colocando-a de certa forma “fora do jogo”.

A CAPA

Recebi o enorme desafio de criar uma capa a partir apenas de algumas ideias que Felipe Coelho me explanou, e de uma música inacabada.

Era tanto e tão pouco, um daqueles momentos em que você precisa revirar as suas “gavetas internas” em busca de luz. E a luz estava mais próxima do que eu poderia imaginar.

Chamei a minha mulher, Marcela Machado, para testar algumas possibilidades. Se eu tinha as ideias do Coelho e uma música inacabada, Marcela agora tinha esse somatório aparentemente confuso, o que poderia levar a um grande trabalho ou a um triste fracasso.

Marcela juntou folhas, tintas e pincéis e adentrou quatro ou cinco noites. Nossas conversas foram calorosas, por vezes difíceis, mas ao mesmo tempo a arte nos foi revelando beleza, novidade e doçura. Não se trata de simplesmente de apagar e começar tudo de novo, as artes plásticas requerem uma certa entrega muito particular. Não há muitas chances de tropeço.

Era uma manhã cinza e Musadiversa apareceu, fez-se, deu-nos um belo bom dia e disse: Prazer, sou eu!

Com seus olhos profundamente negros, capazes de absorver diferentes culturas, formas e sons. Veio então a ideia de uma capa que enxerga, mas que também proporciona ao espectador um mergulho em seus olhos.

AVANTE

Eu diria que Musadiversa é um trabalho musical amplo, ousado e fundamental para entendermos parte da música catarinense e brasileira desse início de século, bem como a ideia de hipercultura que hoje permeia diversas expressões mundo afora.

Bom som e um abraço,

Antonio Rossa

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