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Sete Questões para Humberto Gessinger

Posted in musica, sete questoes with tags , , , , , , , , , on 26/09/2012 by transitoriamente

 

Mesmo que o sucesso seja algo subjetivo e fugaz e a música pop promova celebridades que amanhã simplesmente se apagarão, alguns artistas conseguem imprimir uma diferente versão para este fato e prolongar os seus 15 minutos de fama.

O gaúcho Humberto Gessinger vem há mais de 25 anos escrevendo a sua história dentro da música brasileira, ora com o seu Engenheiros do Hawaii, ora no power-duo Pouca Vogal ou até mesmo na literatura, onde o compositor já está na sua quarta publicação. Também se tornou blogueiro e atualiza todas as semanas, na virada de segunda para terça feira, o seu BloGessinger (Acesse aqui).

Sucesso nacional na virada dos anos 80 para os 90, Gessinger conseguiu a proeza de sobreviver ao onipresente “furacão pós-mainstream” – aquele que leva celebridades ao chão com a força de um tsunami – com novos trabalhos e a agenda cheia ao longo da década e meia que se seguiu, mesmo após a ruptura do clássico power-trio Gessinger, Licks e Maltz (GLM).

Quem viveu o momento sabe que o Engenheiros do Hawaii foi uma das bandas mais “achincalhadas” pela crítica nos anos 90, o que em parte ajudou o trio a contar um séquito de fãs fiés e defensores. Eram tempos pré-internet e o mundo da comunicação era montado numa espécie de pirâmide imóvel, com caminhos estreitamente inacessíveis.

Transcendeu formatos – o próprio Gessinger diz ter sobrevivido ao LP, K7, VHS, DVD, DAT, CD e mp3 – e mantém-se na ativa e na estrada. Atualmente encarna o Pouca Vogal junto de Duca Leindecker (Cidadão Quem) e o Trio Grande do Sul, com os músicos Esteban Tavares (Ex-Fresno) e Paulinho Goulart, além de mensalmente promover uma twitcam tocando seus clássicos e novidades.

A volta do Engenheiros parece adentrar o horizonte, apesar de Humberto não confirmar datas e nomes. O alfabeto que formará o “novo-velho” Engenheiros ainda é incerto. Apostas? 

Com vocês Humberto Gessinger no Sete Questões da Transitoriamente.

Um abraço,

Antonio Rossa

Antonio Rossa – Depois de mais de 25 anos de estrada, 19 discos lançados, mainstream em algum ponto da carreira, hoje as suas inquietudes estão mais estáveis? Existe um lugar chamado “lá” onde tantos querem chegar? Você sente que chegou “lá”?

Humberto Gessinger – Não há um objetivo alcançável. Sem bússola nem norte, a caminhada é tudo que há: estar em movimento, na direção que o coração manda. Depois de anos de arte/ofício, as linhas entre passado, presente e futuro ficam imprecisas.

AR – Num ambiente “transmidiático”, onde todas as formas de mídia interagem entre si, você acha que a canção corre o risco de se transformar em um mero pano de fundo? A sua escrita, seus livros, hoje lhe são uma espécie de “continuidade musical” ou uma necessidade?

HG – Desde sempre, pra muita gente, a canção é só um pano de fundo. Não faz sentido exigir que todos se relacionem com ela de forma mais intensa. Até para alguns colegas músicos sinto que a canção não parece ter muita transcendência. Quanto à literatura, ela ocupa algumas frequências no meu espectro sensorial. Assim como  o baixo ocupa as frequências mais graves e a guitarra as frequências médias do espectro sonoro.

AR – Em termos de impacto sonoro, um DJ solitário pode alcançar certos “volumes” que antigamente somente uma grande orquestra alcançaria. Uma banda hoje em dia é um formato datado? Veremos um dia o Humberto DJ (risos)?

HG – Pra mim, a questão não é o volume, é a performance. A música sendo feita de forma “irredutível”. Se for assim, o formato é secundário, instrumentos serão só ferramentas.

AR – O Engenheiros do Hawaii será reinventado? A cobra já mordeu o próprio rabo?

HG – A cobra ainda não fechou a boca… os dentes do cachorro ainda não separaram o rabo do corpo.

AR – Com HDs cada vez mais poderosos, quem sabe chegue o dia do “fim da memória” pessoal ou cerebral. Você arriscaria supor o impacto disso?

HG – É possível que aconteça, mas qualquer projeção feita por analogias está fadada ao fracasso. Não dá pra imaginar como seremos.

AR – O que mudou no Humberto compositor de 1986 e o de 2012? Com o passar do tempo a gente passa a entender, a aceitar ou a esquecer?

HG – O compositor aprendeu alguns atalhos que se nega a usar. Então: mudou ou não mudou? Se aprendeu, mudou. Mas se não usa, não mudou.

AR – Uma ideia para o futuro…

HG – Hoje li que um museu disponibilizou para www todo seu acervo de Goya. Quero deixar uma idéia de esperança na boa utilização da nossa tecnologia. É preciso acreditar, estamos naquele ponto do vôo onde já não há combustível para voltar. Muita gente propagandeia um passado mítico que, além de não existir agora, nunca existiu.

 

 

Sete Questões para Tom Custódio da Luz

Posted in musica, sete questoes with tags , , , , , , , on 20/06/2012 by transitoriamente

Evitar a comparação é tão incrivelmente complexo quanto imaginar andar sem chão. Somos inevitavelmente compelidos a comparar qualquer sinal de estímulo, tudo com todos, e salvo a nossa aparente limitação de cruzamento de dados, sempre precisamos encontrar o par de algo.

Estou com o CD promocional de Tom Custódio da Luz em minhas mãos (Produzido por Oliver Dezidério e Direção Artística de Raul Albornoz), e confesso que ainda me agrada a ideia do CD, da ordem das músicas propostas, da foto da capa e por quais motivos ela nao está na contracapa. Esse senso se perdeu no mundo virtual, mas aí o papo é outro.

Catarinense de Blumenau, o jovem compositor reúne Tom e Luz em seu nome, um quase presságio, ou talvez apenas uma responsabilidade prévia.

Fui pego mais uma vez pelo ato da comparação direta, o que se não bem dosado pode levar uma ideia ao desdém prematuro ou ao excesso de bajulação de quase todas as coisas.

Enquanto ouvia Luz, a conversa rolava na sala, e nas brechas das palavras conversadas algumas coisas me chamavam a atenção.

“Tudo bem”, pensei enquanto tentava encaixar os pares do jovem compositor. Mas espera aí, lá estavam João Gilberto, Chico, Caetano, Camelo e Jeneci, pra ser bem simplista e chegar logo a uma conclusão. Que nada, Luz conseguiu dar seu toque em poesias muito bem escritas, danadas no bom tom. espertas. Além da competente banda que conseguiu o belo feito de não soar acima do cantor.

Se nada mais me chamasse a atenção, eu ainda diria que Luz estava ali ajudando a levar alguns estilos consagrados adiante, o que já não seria pouca coisa.

Mas o compositor se destaca do óbvio, e mesmo quando óbvio alguma coisa soa particular. Mais do que aquilo que é, a vida se faz também na ideia daquilo que pode ser. Eu acredito que Luz será.

Bom som e um abraço,

Antonio Rossa

Antonio Rossa: Tom, você se lembra do seu despertar para a música? Como foi esse processo?

Tom Custódio: Mais ou menos. Eu sempre gostei de música, e gostava de cantar quando criança. Esse gosto sumiu em algum ponto da minha infância e retornou aos meus 14 anos, quando conheci uma banda chamada Oasis, de que gostei muito, que me incitou a compor. Acho que dá pra dizer que eu comecei a viver música mais ou menos dessa maneira que vivo agora quando conheci essa banda.

AR: Sendo bem simplista, senti na sua música influências de João Gilberto, Chico, Marcelo Camelo. Quais as infuências que a gente não consegue enxergar nitidamente no seu som. mas que lá estão? Poesia, pintura, literatura?

TC: Eu não sei bem como funciona esse negócio da influência. Não sei se todas as coisas de que gosto acabam aparecendo no que eu faço e é isso que se chama de influência. Não sei. Eu não tomo absolutamente nada por modelo, realmente. É claro que conhecendo certos tipos de música e descobrindo beleza nelas eu acabo, mais tarde, quando quero fazer algo bonito, quem sabe “mencionando” essas músicas, mas não faço por querer.

Então o que eu costumo dizer que é influência pra mim é o que eu tô gostando mais de ouvir no momento. Nesses últimos tempos ouvi um pouco de Queen, de Strokes, Beatles, Novos Baianos. Gosto muito desses todos, quem sabe isso fique mais ou menos aparente nas composições.

AR: A arte muda o mundo ou apenas o ameniza?

TC: Que pergunta danada. Eu acho que muda horrores. Nesse momento eu vejo a arte como uma organização muitíssimo estética do vivido e acho que qualquer tipo de organização tem implicações na maneira como se lida com aquilo que se vive.

Não fosse o rock e eu teria uma dificuldade muito maior em lidar com a minha agressividade, por exemplo, e se nunca tivesse havido o samba o significado de alegria seria completamente diferente pra mim.

Acho que a arte dá conta de certas coisas que a comunicação verbal deixa um pouco de lado e eu não consigo imaginar uma sociedade coesa sem arte. Toda experiência é sensível e alguma coisa tem que permitir uma expressão mais ou menos fiel desse aspecto da experiência.

AR: Pode-se entender um artista como alguém inquieto, e de certa forma insatisfeito, que tenta remodelar as coisas a sua volta e a sua maneira. Você tem alguma pretensão de remodelar algo e o que seria isso?

TC: Eu gostaria que muitas coisas fossem diferentes, mas isso não faz parte do meu trabalho como artista. A minha arte tem que ser inútil nesse sentido. Eu não escrevo nem desenvolvo as músicas por causa de alguma coisa, pra gerar algum resultado, senão o poema vira uma petição, um abaixo-assinado, sei lá o quê.

Quando a arte deixa de ser brincadeira, quando ela é um meio e não um fim em si ela não é mais arte e ela vira um absurdo total, pra mim. Se eu toco violão não porque eu tô com vontade, mas porque é importante pra isso e pra aquilo, tocar fica tão chato quanto ir no banco pagar uma conta. Às vezes é importante tocar violão pra estudar um dedilhado novo ou alguma coisa assim, mas aí não é arte, aí é um treino de coordenação motora, de memória visual, tátil e que serve ao propósito de tornar mais fluida e natural a brincadeira que se quer brincar.

AR: A cultura catarinense até o momento não produziu “baluartes” nacionalmente reconhecidos. O renomado escritor Cristovão Tezza, por exemplo, apesar de catarinense reconhece-se na prática como paranaense. Como você avalia essa “não-projeção” dos nossos artistas?

TC: Não sei o que acontece, nunca problematizei isso. Quem sabe haja pouco incentivo.

Eu morei em Piçarras e Balneário Camboriú antes de me mudar pra Florianópolis, e essas duas primeiras cidades não têm teatros, então qualquer peça, qualquer musicista não pára ali. Em Floripa tem, mas é incrível como os artistas parecem pular Santa Catarina nas suas turnês. Parece-me bastante entranhado no saber popular que essas coisas só vão pra frente lá em São Paulo. Eu mesmo tô louco de vontade de ver minha música tocando lá pra ter o conforto de saber que tá tudo dando certo. Mas não sei, nunca pensei bem a respeito.

AR: Você está mais para “jovem novo” ou um “jovem-velho? Por quê?

TC: Haha, como assim?
Quem sabe novo no sentido de que é novidade, velho no sentido de que algumas coisas que aparecem nas minhas composições fazem um pouco de referência a coisas mais antigas de que eu gosto. Mas se for pra ver assim, isso serve pra tudo no mundo. Cada coisa tal qual é novidade, porque é a única desse jeito, mas ao mesmo tempo faz uma referência a uma coisa que precedeu ela, então esse negócio de novo/velho aí não serve pra muita coisa. É coisa de sentir o gosto mesmo, tem que ouvir a música pra saber o gosto que tem.

Pra mim o meu trabalho não é nada disso, afinal ele é meu projeto de vida. Tudo de mais verdadeiro que eu tô vivendo acaba aparecendo nas minhas músicas e não é novo ou velho, ou mpb ou pop ou rock, é aquilo que é.

AR: Uma ideia para o futuro…

TC: O próximo cd, se tudo der certo.

Sete Questões para Jean Mafra

Posted in musica, sete questoes with tags , , , , , , , , , on 17/04/2012 by transitoriamente

Num mundo “facebookiano” e “instagramático”, onde contadores de histórias e analistas contábeis são facilmente confundidos, onde a arte não mais parece ser impulsionada pela surpresa e discurso social contestatórios, mas por aplicativos e pesquisas de opinião, e principalmente no tempo onde a tecnologia está mais importante do que o Homem, ainda assim existem seres-humanos utilizando-se de certas “humanices” em busca de um novo elo propulsor.

Chegamos ao Século 21 até certo ponto melhorados, mas não melhores. É possível que todas as pessoas terão uma câmera fotográfica digital antes mesmo de todos terem três refeições diárias garantidas. A fome de fama parece ter similar peso àquela do estômago. Vejo Narciso finalizando Dionisio com uma chave de braço.

Tempos modernos? Excesso de tudo? Desbunde narcisista? Bolsa de velhos valores? Difícil precisar, ainda mais quando um artista consagrado como Bono Vox, por exemplo, diz estar em dúvida sobre a continuidade de sua banda U2, devido a sua crescente “irrelevância”.

Jean Mafra é um desses inquietos, artista, filé-mignon de analistas recém-formados, macho que choca, bicha que não é, um depravado lúcido, um importante que só ganhará tamanha importância no dia em que se levar menos a sério.

Chegou atrasado no tempo. Hoje letras precisam ser quase infantis e profusamente desconexas para terem chances, ainda que ínfimas, de falarem mais alto do que o falatório onipresente. Tempo este em que poesia e slogan, som e música facilmente se confundem.

Mafra é compositor dos bons, e dos ”maus”. Relata o lascivo como quem não se importa, mas no fundo arde de rancor por carregar a real noção de que seu impulso para a opinião pública, tantas e tantas vezes, fica aquém do seu real talento.

Não lhe falta atrevimento, nem ousadia, muito menos conteúdo e coragem. Talvez seja uma questão de tempo. Será que vai chover?

Está com disco novo, o urgente “Pressa” (ouça aqui), junto com seu Bonde Vertigem. Justamente no momento em que se prepara para ser pai novamente, e um certo ar de serenidade parece lhe dar as caras.

Deixou para trás, e no início, sua militância política, ao mesmo tempo em que seu novo trabalho é uma espécie de caldeirão das conseqüências políticas e econômicas dos últimos 50 anos no mundo, mesmo que nos detalhes.

Na entrevista abaixo, transcrita com suas habituais “minúsculas”, Mafra mais uma vez se abre, e se joga sem pára-quedas, no mar revolto das novas possibilidades.

Se a arte está cada vez mais próxima de um souvenier envernizado por instagram, Mafra continua a exalar entusiasmo no fazer de seu ofício, e sente que ainda há gás para seguir, com ou sem verniz.

Bom som e um abraço,

Antonio Rossa

1) Rossa: “Pressa” parece declaradamente (e positivamente) um disco “terceiro-mundista”. O “primeiro-mundo” está declinando?

essa nomenclatura me parece meio datada, embora ainda faça sentido, claro. mas a questão é que assim como o termo, a visão de que o “primeiro mundo” estaria a frente “do(s) terceiro(s)” acaba por não levar em consideração que as nações desenvolvidas, ou imperialistas, são o que são por sempre terem sido “dependentes” das riquezas dos países pobres. entre essas riquezas está a música. foi a diáspora negra que construiu a música popular como nós a conhecemos (jazz, samba, choro, tango, mambo, rock, etc). nesse sentido, declínio e ascensão acabam por se embaralhar. nos dias de hoje, a produção musical com mais vitalidade vem de lugares como bogotáluanda,monterreybelém e não de londres, são paulo ou nova york.

2) Rossa: Qual a versão atual de Jean Mafra? Qual “roupa” não te serve mais? 

estou interessado em me divertir. em ser feliz com quem quiser ser feliz. minha “versão atual” é um remix de mim mesmo. pronto pra pista.

não me serve mais a atuação política. aquilo me fez mal. cansei. quero me dedicar mais ao palco, a composição, ao texto, a família e aos amigos. continuarei a ser alguém político, claro, mas ao meu modo.

agora, de modo geral, ao contrário do que possa parecer, embora tenha amadurecido e mudado de opinião, acho que há certa coerência nas coisas que venho fazendo, dizendo, nos últimos 7, 8 anos.

3) Rossa: A internet nos dá a possibilidade de termos “quase tudo” a um clique da mão e até certo ponto vem se mostrando o que de mais próximo a uma democracia podemos vislumbrar. Por outro lado o culto ao individualismo promove um novo status de seres Narcisistas. Recentemente Bono Vox, do U2, chegou a cogitar o fim do U2 por conta de uma sensação de crescente irrevelância. Estamos próximos ao ideal de “igualdade das diferenças”ou o mundo sempre será doloroso, injusto e opressor, e de cima para baixo?

e agora?! quem sou eu para lhe responder algo do tipo?! posso dizer que o que atualmente me interessa e me alimenta no mundo da música vem de países e economias periféricas e que essa produção nasceu através de programas de produção musical pirateados. me emociona pensar que os mesmos programas baixados em lugares diferentes (rio de janeiro ou luandacidade do cabo ou san josé)  geraram músicas tão diversas e ricas e que essas manifestações surgiram de um drible na lógica da indústria. lamentavelmente muito dessas cenas não chega ao grande público, que ainda perde tempo ouvindo velhos roqueiros milionários… pena. mas as coisas estão mudando, a indústria fonográfica perdeu muitas batalhas e hoje já não tem mais a mesma força que teve e isso é muito bom para a música, para os músicos e para os públicos. de todo modo, o mundo ideal ainda está muito distante.]

4) Rossa: Passaram-se os anos e o tal sucesso global da música catarinense ainda não aconteceu, ninguém ficou milionário, nem está de caso com a Madonna. Estás animado com o cenário atual?

olha, no meu caso, nunca acreditei em “música catarinense”, embora continue esperançoso quanto a DOMINAÇÃO GLOBAL… rá!!!

antonio, não conheço música catarinense. posso te dizer que existe algo que possa ser chamado de música paraense ou, vá lá, de rock gaúcho, mas aqui não há esse sotaque tão forte. será que haverá algum dia? será que isso faz diferença? vivemos em um estado pequeno e super fragmentado, temos um campo de trabalho relativamente pequeno, não contamos com apoio do público local, por essas e outras, é possível dizer que os artistas locais construíram MUITO. estamos de parabéns!

agora, tivemos um momento muito bacana entre 2007 e 2009. havia uma cena, pequena, mas interessante. depois a coisa toda desacelerou e naturalmente houve uma reorganização das forças criativas…

estou feliz onde estou, tocando com quem estou. tenho hoje ao meu lado no palco músicos que admiro muito e que não apenas ajudaram a construir o que temos, mas farão o que está por vir. a saber, o bonde vertigem é formado por ulysses dutracisso fernando bordignon e gringo heinzmann.

no mais, o cenário de hoje é muito promissor, ano passado foram colocados na rua trabalhos maiúsculos de gente como cassim & barbáriamapuchefevereiro da silva e outros. acho que neste 2012 ainda virão outros tão bons quanto.

obviamente, há muito o que mudar. recentemente houve todo um “ôba-ôba” em torno de um possível fechamento dotalesyn no centro e todos correram para salvar o bar… ora, embora ache importante manter todo e qualquer espaço, me chamou a atenção a preocupação geral em ajudar um lugar que não tem a mínima infra para os artistas se apresentarem. detesto essa onda de se fazer de “underground”. fica parecendo que o legal mesmo é o artista detonado, sempre. domingos longo, organizador da festa “s.o.s. talesyn” me alfineta por aí, dizendo que me fantasio e coisas do tipo, mas vejo que ele, que faz um sub-sub rock gaúcho, vive há umas duas décadas brincando de roqueiro rebelde nos fins de semana… até aí, cada um com seus interesses, certo?! o problema é que esse tipo de comportamento pauta parte significativa do jornalismo cultural da cidade, sabidamente formado por amigos do poser, o verdadeiro. daí, que acho que ainda há muito o que melhorar…

no mais, a madonna já passou, né?! sou mais a m.i.a., que além de relevante, é linda.]

5) Rossa: Recentemente as clássicas “Mocinhas” perderam em audiência para as novas “Piriguetes”, mostrando que há um novo “cool popularesco”. Que tipo de mulher Jean Mafra seria? 

antonio, que pergunta, hein? não sei nem que tipo de homem sou… “meu segredo é menina, mas as vezes não”.

6) Rossa: Apesar de mais sutil nesse último trabalho, o tema “sexo” é uma constante no seu trabalho. Quem fala muito pouco faz? Isso faz sentido?

então… sempre me interessou essa coisa lasciva no palco, nas letras, mas isso não significa que minha vida seja essa loucura toda, certo?! atualmente estou bem comportado. estamos grávidos, eu e ana carina, daí que meu momento particular é menos efusivo e mais aconchegante. isso não significa que a música que quero fazer vá nessa direção. o sexo, a orgia, o corpo, o vinho são ainda o que interessam ao meu mise en scène

7) Rossa: Comente a frase: “A sede de conhecimento parece ser inseparável da curiosidade sexual.” (Sigmund Freud)

(pausa para uma longa e teatral gargalhada)

me parece que o sexo sempre pautou o ser humano. a busca por poder, por dinheiro, é tudo sexo. até a coisa das drogas, não deixa de ser uma busca por um prazer que tenta substituir o sexual. daí que a música, a música para se festejar, para servir ao corpo e a festa, não deixa de ser um caminho que serve a este objetivo: sexo e prazer.

de minha parte, um meio rápido e seguro para se chegar “lá” é o bonde vertigem.

SETE QUETÕES para Felipe Coelho

Posted in musica, sete questoes with tags , , , on 16/11/2009 by transitoriamente

Felipe Coelho

O instrumentista, compositor e arranjador catarinense Felipe Coelho lançou há poucas semanas seu segundo disco, intitulado Cata-Vento (ouça aqui).

Virtuoso no violão de 7 cordas e com uma forte bagagem internacional, Felipe é um dos grande talentos do nosso estado, com potencial já firmado para ser uma revelação nacional, e por que não, internacional.

A grande questão é: O nosso país está preparado para reconhecer seus grandes talentos?

Abaixo você confere SETE QUESTÕES para Felipe Coelho.

Um abraço,

Antonio Rossa

1 – Explique para o leitor da Transitoriamente quem é Felipe Coelho e qual o estilo (estilos) da música que ele toca?

Felipe Coelho é um compositor, arranjador e instrumentista. Um apaixonado pela arte da criação e expressão de idéias através da combinação de timbres e ritmos. Começou a experimentar idéias musicais muito cedo, misturando acordes de canções diferentes recém aprendidas no violão de seu pai aos seis anos de idade. Hoje suas composições são conseqüências de tudo aquilo que foi absorvido como ouvinte assíduo de diversos estilos musicais durante sua infância e adolescência até a graduação de mestrado em música. Suas composições procuram por caminhos menos explorados ao mesmo tempo em que se deixam fundir, naturalmente, tendências uma vez entendidas como distintas.

2 – Você ficou praticamente uma década estudando música nos EUA. Como foi essa experiência e por qual razão você deixou e voltou ao Brasil?

Havia acabado de passar um ano como intercambista nos EUA, dos 15 aos 16, onde havia recebido o premio de solista destaque no Grissom High School Jazz Festival em Huntsville, AL. Iniciei aos 17 anos o curso de música da universidade do Estado de Santa Catarina, porém não me satisfazia a substância oferecida pelo curso, recheado com informações distantes da prática musical que procurava.

Enviei então a algumas universidades americanas um pacote com vídeo de composições instrumentais minhas na tentativa de descolar uma bolsa de estudos e surpreendentemente obtive sucesso. Em menos de um ano de volta ao Brasil do intercambio, já preparava as malas para retornar aos EUA para reiniciar o estudo acadêmico, onde ficaria por 9 anos.

Adquiri por lá também o mestrado com bolsa integral na Universidade da Georgia, Atlanta, e toquei bastante na cena musical entre Miami e Chicago. A experiência foi o que se podia esperar: sensacional, e muito variada, visto que nos Estados Unidos se tem contato próximo com várias outras culturas além da americana. Na universidade, havia estrutura para realizarmos gravações de orquestras completas escritas pelos próprios alunos, ou compor para cenas de filmes e poder assisti-las produzidas e sincronizadas com a imagem. O giro cultural e acessível trouxe a oportunidade de ver de perto grandes artistas como Pat Metheny, Paco de Lucia, Wayne Shorter, Sony Rollins, e muitos outros.

Apesar da atividade musical mais intensa, talvez os pontos mais importantes que pude observar e aprender nos EUA foram: primeiro o profissionalismo de como se enxergam, se comportam e esperam ser tratados os músicos americanos. Palavra e comprometimento são tratados com mais seriedade e organização, fazendo do nosso “jeitinho” brasileiro algo que não devemos nos orgulhar; e segundo, a habilidade dos americanos de encarar a música, além de artisticamente, como um produto a ser vendido. Perceba que no Brasil fomos criadores de ritmos, técnicas, e até instrumentos como a guitarra elétrica, mas os Americanos patentearam tudo, além de que lá, quase todas as universidades oferecem diplomas não só performance ou teoria mas de produção musical.

Depois de terminar os cursos, fiquei mais um ano com passaporte de “optional practical trainning” que a universidade lhe concede para trabalhar legalmente por um ano na área em que se formou. E depois disso por um ano e meio trabalhei tocando em cruzeiros pela Europa e Canadá. Tocava com orquestra e também apresentava composições próprias e enquanto isso preparava as composições do que seria o primeiro CD.

3 – Inicialmente a sua praia era o heavy-metal, o “virtuosismo ultra-veloz”. Hoje eu noto uma certa “economia” no seu som, se é que eu posso usar essa palavra. O que mudou durante esses anos?

Comecei a ouvir muita música instrumental quando conheci Joe Satriani, Steve Vai e Malmsteen, aos 14 anos. Quando terminei o mestrado, estava com 23 anos, já tinha estudado bastante jazz e flamenco, mas ainda cultivava a paixão pela escola do shredd e do fusion ouvindo artistas como Allan Holdsworth e Shawn Lane. Tinha uma guitarra Epiphone Joe Pass Signature, um violão espanhol Alhambra, um violão de gypsy jazz estilo Django Reinhardt e uma Jackson floyd rose com captadores Saimor Duncan. Tocava um pouco de tudo, com bandas de salsa, blues, e um pouco com jazz trio mas havia muitos jazzistas mais experientes do que eu. Nada despontou, até que comecei a tocar com um percussionista/flautista venezuelano. Ensaiamos um repertorio de três horas de música brasileira, latin jazz, e flamenco e começamos a ser chamados para tocar de domingo a domingo. Junto a isso, na mesma época fiz algumas aulas particulares de jazz com um guitarrista de talento raro chamado Bryan Leech. Em uma certa aula, esqueci a guitarra elétrica e fiz com o violão.

Ao meu ver, tocar sem palheta pela primeira vez, ele disse que minha rítmica e identidade afloravam mais. Isso significou muito justamente em uma época que eu estava tentando me encontrar musicalmente. Então de uma forma muito natural comecei gravitar para o violão, e com mais tempo, a buscar uma expansão de vocabulário próprio e direção melódica, dando mais importância ao silencio e a disposição rítmica das notas. Essa consciência me ajudou a encontrar beleza em frases com menos subdivisões. Mas ainda acho que o estudo da técnica e da velocidade (com consciência rítmica) são cruciais para o domínio do instrumento e para amplitude de possibilidades de fraseado. A velocidade demonstra domínio da arte de tocar, empolga ouvintes, e pode ser bem musical.

4 – “Cata-Vento” é o seu mais recente trabalho. Eu particularmente achei um disco riquíssimo, que certamente pode ser ouvido em qualquer lugar do mundo. Como foi o processo de criação, composição, arranjos e gravação. Trata-se de um álbum conceitual?

Ao terminar a produção de Raízes Trançadas, o primeiro disco, também com arranjos e instrumentação muito elaborados, já sentia que o próximo passo seria algo um pouco mais livre, não tão sempre preso ao arranjo. Queria algo com mais momentos para solos e respiração, e já tinha decidida a instrumentação com quarteto/quinteto de cordas, baixo e bateria. Desse ponto em diante comecei a escrever cada arranjo e cada composição, devagar e com paciência. Nessa época fui para a Europa em um navio de cruzeiro pela segunda vez, ficando quase 7 meses. Com muito tempo nas mãos e sem muito o que fazer, pude me concentrar nisso.

Ao voltar para o Brasil, ainda continuei escrevendo por mais alguns meses enquanto já tocava os ensaios que duraram 6 meses. Não pensei muito sobre a concepção das composições. Simplesmente as deixei nascer da forma mais honesta e natural possível, refletindo cada momento presente. A única regra era não fazer uma música parecida com outra. O disco dá continuidade aquilo que já venho fazendo que é buscar por prazer e beleza na música, misturando tendências culturais e pensando para a frente, buscando modernizar aquilo que já digeri, desde a música brasileira, até o erudito o jazz e a música cigana oriental. O conceito é de música étnica, mas uma música étnica moderna, algo diferente, que ao menos eu nunca ouvi antes.

O título Cata-Vento parte de um conceito que primeiramente não se firma a alguma cultura específica. O “vento” representa aquilo que viaja, que está presente em qualquer canto do planeta, que engloba, que refresca. O cata representa algo que será caçado, que será catado, que será capturado assim como um compositor procura encontrar melodias que vagam no nada até serem descobertas. E por último, um cata-vento captura ventos que sopram em direções diferentes, e os canaliza todos misturados, transformando-os em um fluxo uniforme.

5 – No seu ponto de vista, como está o mercado para a música instrumental no Brasil?

Sabemos que o Brasil investe pouco em cultura, e sabemos que é um país que apresenta muitos talentos naturais, e isso não é um bom quadro pois significa poucas oportunidades e muita oferta. Mas portas, mesmo escassas, estão aí: festivais, editais, concursos, projetos de lei de incentivo, sesc, etc… Acredito que, assim como em outras áreas, o profissional que faz algo com prazer, clareza, dedicação, e preza por qualidade, com o tempo conquista seu mercado, mesmo sendo o de música instrumental.

6 – Para quem não sabe, quais as diferenças entre um violão de 6 e 7 cordas.

O violão de 6 todos já conhecem. O violão de 7 aparece com freqüência nas rodas de choro onde surgiu, e a sétima corda é mais grave, afinada em dó. Nesse estilo o violão faz contrapontos graves com a melodia anunciada pelos instrumentos agudos como flauta e bandolim. O violão de 6 explora a parte mais aguda do braço com maior freqüência enquanto os 7 cordistas tocam mais usando apenas os primeiros 4 trastes do braço, e as cordas abertas o máximo possível.

Eu particularmente comprei o violão de 7 cordas muito antes de escutar choro. Afinei a sétima corda em si, para manter a disposição interválica do violão que é em quartas. Aprendi a usar o 7 cordas sozinho, fora do choro, solando e fazendo harmonias nos agudos e aproveitando os graves ao mesmo tempo. Acredito que assim ele seja um dos instrumentos mais versáteis do mundo. Só ao retornar ao Brasil comecei a entender sua utilidade na linguagem do choro.

7 – Uma idéia para o futuro?

Voto para que as pessoas tenham suas mentes abertas, e estejam sempre se adaptando quanto àquilo que é atual. É claro que é importante conhecermos nosso passado e mantermos viva nossa cultura, porém discernindo o comportamento preconceituoso contra aquilo que inova. Isso também funciona fora da musica.

O patriotismo exacerbado, ou religiões que clamam ser o único caminho, são fatores que impedem o ser humano de ser seu verdadeiro potencial. Estamos hoje vivendo desafios de nos adaptarmos a novas condições ambientais, à revolução virtual, e a um planeta muito “menor”. Sejamos ágeis para reconhecermos e adaptarmos nossas antigas manias e crenças.

Sete Questões para Lenzi Brothers

Posted in sete questoes with tags , , , , , , , on 13/02/2009 by transitoriamente

 

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O Lenzi Brothers é uma banda de rock´n´roll formada, como o nome sugere, por irmãos. Aliás, são três irmãos, o guitarrista e vocalista Marzio, o batera Matheus e o baixista Samuel, ou simplesmente Buca. Ah, todos carregam o sobrenome Lenzi. 

 

Será que eu fui claro?

 

O ano de 2008 parece ter sido especial para o trio catarina, já que eles alcançaram novos públicos e terrenos através da vitória de um programa da MTV, do lançamento do terceiro disco, o excelente Trio, e de um videoclipe muito bem produzido que tem rodado Brasil afora.

 

Abaixo você confere o Lenzi Brothers respondendo as Sete Questões da Transitoriamente.

 

Um abraço, Antonio Rossa

 

1 – O ano de 2008 foi especial para banda, com o lançamento do aclamado Trio, o lindo videoclipe de Allana, a vitória em um programa da MTV. A banda de fato está “conquistando” seu lugar ao sol?
 
Acreditamos que sim, o caminho ainda tem muitas pedras, mas as coisas estão cada vez melhores. 2009 será melhor ainda.
 
 
2 – O que realmente mudou para a banda com essa maior exposição na mídia?
 
Basicamente estamos mais conhecidos, muito mais pessoas entram em contato conosco dizendo que conheceram a banda e o quanto curtiram, etc… E profissionalmente falando, as portas abrem-se mais facilmente ,pois quando já sabem quem você é tudo mais fácil.
 
3 – Na opinião da banda, qual a razão de SC ainda não ter nomes figurando no mainstream da música pop nacional?
 
Acho que ninguém ainda teve idéia de pôr dançarinas com a bunda de fora, estamos pensando nisso para a turnê 2009… Brincadeira! Embora muitos discordem, acho que a distância do centro do país ainda é o principal empecilho, se não estiver lá, é muito mais difícil. Outra coisa que atrapalha é o lance da mídia especializada veicular rótulos musicais à uma região, como por exemplo: Recife x Mangue Beat – Poa x Rock Gaúcho, etc. Essa história de esperarem aparecer “a cara” do som de SC acho uma grande besteira, tem muita gente fazendo sons variados e bons por aqui.  A bola tem tirado tinta da trave, uma hora entra.
 
4 – Vocês estão preparando disco novo para breve. Como está o processo e o que os fãs e o público podem esperar deste novo trabalho?
 
Estamos terminando a fase de pré-produção, que no nosso caso é basicamente gravar ao vivo e depois ouvir durante algum tempo pra sacar se a música soa bem ou não.  Nessa “peneira” 12 já foram escolhidas. Antes do lançamento do disco, que ainda não tem data certa, um ou mais singles serão lançados. Continuamos no trilho do rock, variando entre o clássico, powerpop e novos fluídos. Quem curtiu o “Trio” vai gostar do próximo.
 
5 – Quais bandas ou nomes vocês apontariam como destaques da música independente no Brasil, atualmente?
 
Volver, Pata de Elefante , Vanguart, Cabaret, Aerocirco, Dissonantes, Pública, Rockz…
 
6 – O rock morre, depois ressurge, depois morre novamente e assim vai. O rock´n´roll corre perigo ou passa bem?
 
Passa muito bem, é PHD. Enquanto isso o sertanejo é apenas universitário.
 
7 – Uma idéia para o futuro…
 
Lançar uma coletânea em vinil com um desenho feito pelo Buca na capa…

Clique aqui e ouça o Lenzi Brothers

Sete Questões para Mottorama, Discobot e Superpose e o projeto SUBTROPICS

Posted in sete questoes with tags , , , on 05/02/2009 by transitoriamente

 

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Subtropics é o nome do projeto que reúne três dos mais badalados grupos de “Electro” de SC, leia-se Mottorama, Discobot e Superpose.

 

 

 

Neste projeto cada grupo disponilizou uma faixa para que as outras duas remixassem, além de disponibilizarem as originais. Belíssima idéia e que poderia servir de inspiração para as bandas catarinenses. Quem sabe um CD com uma banda gravando uma versão de uma música da outra? Há tempos penso nisso.

 

Como toda onda, ainda é um pouco cedo para qualificar a importância desse movimento e seus reflexos atuais, ao mesmo tempo em que é impossível deixar de falar sobre essa “chacoalhada” que esses grupos estão realizando por essas e outras bandas.

 

 

Você pode ouvir e baixar o EP do projeto clicando aqui.

 

Abaixo você confere o Sete Questões com Mottorama (MT), Discobot (DB) e Superpose (SPP). As siglas é para facilitar a identificação das respostas.

 

Um abraço, Antonio Rossa

 

1 – Todos vocês (ou a maioria) vieram de experiências musicais ditas orgânicas, ou seja, uma banda propriamente dita, com baixo, batera, guitarras. Em relação ao atual momento de vocês, há uma ruptura com o passado ou apenas uma transição natural?

 

SPP: Na verdade nem como uma transição eu vejo… Continua sendo música, mudam apenas as ferramentas.

  

DB: Achamos que essa mudança não foi uma ruptura tão grande assim. A gente ainda compõe as músicas com estruturas que podem ser reconhecidas como ‘roqueiras’: verso, refrão, ponte, etc. A distorção dos baixos, o peso da bateria, também é uma coisa que achamos que no nosso som pode ser traçado a origens de rock. Nós tivemos que aprender a usar ferramentas pra discotecagem da mesma forma como se aprende a tocar um instrumento novo. É aí, no ‘ao vivo’, que a diferença maior aparece. Enquanto uma banda (normalmente) toca músicas como trabalhos separados, DJs trabalham numa escala maior, fazendo um set inteiro de forma gradual.

 

MT: Apenas uma transição natural. Nunca paramos pra pensar “quero fazer algo diferente do que tenho feito”, porém quisemos manter a formação tipo banda por nos fazer mais sentido e também por ser mais interessante pra quem assiste.

 

 

2 – Ainda há um certo preconceito em relação à música eletrônica, no sentido de que esta seria menos “viva” e mais “industrial” do que aquela feita por uma banda, por exemplo. Onde a música eletrônica se aproxima e se distancia desses padrões?

 

MT: A musica eletrônica é por definição sintética, mas não vejo menos valor artístico nisso. É uma comparação superficial e  ortodoxa. A musica eletrônica levou 30 anos pra se tornar mainstream, e tem gente que não aceita isso.

 

DB: O som que a gente faz e toca se aproxima, como dissemos antes, na estrutura e na quantidade de elementos melódicos. Não é difícil imaginar Lights Out sendo tocada por uma banda, hahah. Na hora de tocar ao vivo, claro que o processo é bem diferente de uma banda, mas a gente faz um esforço para que as músicas sejam interessantes de um ponto de vista musical, com muitos vocais e melodias além da batida forte encontrada em todos os estilos eletrônicos.

 

SPP: Viva ou morta, depende do cara por trás do computador ou da guitarra… Sempre tem um ser humano envolvido no processo, se ele for “vivo” ou industrial vai refletir na música, seja na música eletrônica ou no sertanejo universitário. Ainda tem gente que fala isso sobre música eletrônica? Que papo mais 90´s. rsrsrs

 

  

3 – Vocês estão a cada dia ganhando mais espaço na mídia, até mesmo em sites estrangeiros de renome, e muito por conta desse projeto chamado Subtropics O que vocês acreditam ser o diferencial dessa proposta musical e no que ela difere das demais vertentes do eletrônico? E mais, o que se entende por Electro?

 

SPP: O projeto em si é só uma coletânea que une nossos esforços individuais, não vejo ele como uma proposta de um gênero ou de um conceito musical, é mais um agregador. Quanto à mídia, no Superpose pelo menos, a gente primeiro apareceu em um monte de blogs gringos para depois aparecer em algum lugar aqui, hoje isso não é mais uma coisa inacreditável, o acesso para um europeu conhecer nossa música e tão – ou até mais – fácil do que para o meu vizinho de porta. E esse lance sobre o termo Electro é uma discussão longa, né? rsrs. Superpose, por exemplo, não faz Electro, como gênero musical, é um termo que acabou sendo mais utilizado para definir música eletrõnica que segue um outro padrão ou uma outra forma, que talvez se assemelhe mais ao rock e fuja do padrão de compassos do House, techno e outros. Mas enfim… Achoesses assuntos sobre “gêneros” um pouco chatos.

DB: Acho que nosso som é bastante acessível. É música pra cima, de festa, que (fora reclamações de que é “muito barulhento”) geralmente agrada mesmo quem não é fã de carteirinha de música eletrônica. Definir Electro é complicado, dá pra ver que o som que o Discobot faz difere bastante do Mottorama e do Superpose. Chamar tudo de Electro já mostra como o escopo do “estilo” é extremamente amplo. A gente entende o que a gente faz por Electro House, four to the floor com baixo distorcido e vocal melódico.

MT: O Subtropics é uma coletânea de remixes e uma das coisas interessantes é fazer aparecer as diferenças e semelhanças de cada projeto, já que cada musica de cada dupla é remixada pelas outras duas. Na verdade, Electro virou sinônimo de tudo que é meio roqueiro e sujo na musica eletrônica. È uma grande tendência musical atualmente, por conseqüência tudo que é lançado tende a se inserir nisso.

 

 

4 – Atualmente as “misturas” tomaram conta do mundo em diversos aspectos, e isso tem a ver também com a maior facilidade de acesso às tecnologias por parte das pessoas, fruto da Globalização. Em relação à música, há uma infinidade de estilos e nenhum parece predominar de forma esmagadora, como era comum há alguns anos atrás. O que – na visão de vocês – se define hoje como uma música atual? 

 

MT: Realmente, devido a facilidade de se produzir e divulgar e ter acesso a  musica hoje, o publico em geral não se limita mais a um gênero só, o que leva os músicos a uma diversidade musical maior, convergir ritmos e isso define a musica atual em geral.

 

 

DB: O fato de ser fácil produzir música é incrível, quanto mais gente fazendo música melhor. Cabe ao público definir o que sobrevive para virar ‘música atual’. No nosso estilo isso e dá através de blogs e boca a boca pelo MySpace. Não existir um estilo que predomina de forma esmagadora é uma coisa boa, variedade é imprescindível. Podemos pensar no caso do Girl Talk, que é um panelão de samples de tudo que de bom se fez nos últimos 30 anos na música pop, mas quando até os beats do Timbaland já soam datados, quem dita a atualidade da música é mesmo o público.

 

SPP: Música atual é aquela que eu fiz atualmente. Não é isso? Hoje se você quiser se agarrar a uma tendência para fazer sua música, em poucas semanas você será motivo de vergonha alheia, pois aquela “tendência” já passou. Complicado, não? Mas o legal é que está na nossa mão delinear o novo caminho para esse “mercado” ou seja lá como isso vai se chamar.

  

5 – E a moda? Como o vestuário se relaciona com a música e com o modo das pessoas pensarem?

 

SPP: Música, moda… É tudo imagem, né? O som já era. É o que eles dizem! rsrs

 

 

DB: É mais uma associação de lifestyles, a moda traz idéias visuais e conceitos que nem sempre estão agregados à música. Parece difícil imaginar o Justice sem as jaquetas, o que dá mais idéia de heavy-metal já embutida no som deles. As pessoas associam produtos de moda com estilos musicais relacionando visualmente o que elas ouvem com o que o artista transmite. Mas existe também uma associação com o público de moda, que é um povo mais ligado em conceito, que respeita o trabalho do artista, e que acompanha, entende e relaciona aquilo com o que está sendo feito no resto do mundo. Vide Kanye West, Yelle, e outros que viraram ícones de moda com seu próprio estilo, e que hoje fazem e ditam moda.

 

MT: As tendências de comportamento afetam igualmente todas as artes, e elas interagem umas com as outras o tempo todo. A moda influencia a musica, nos ajuda a expressar certo ponto de vista e vice-versa. Como sempre tivemos gosto por outras artes como moda, por exemplo, sempre esteve nos planos se deixar influenciar e usá-las a nosso favor. No Mottorama resolvemos adotar o uniforme por ilustrar melhor a idéia que queríamos além de ser uma tradição nas bandas eletrônicas como Kraftwerk, Devo, Daft Punk, etc.

 

 

6 – Como vocês entendem a atual cena musical catarinense?

 

 

MT: Vemos como algo em formação. Existem vários nichos trabalhando para se firmar e que tem conquistado espaço, porém SC ainda não tem uma “cara” pro restante do país. A coletânea Subtropics foi pensada também com esse intuito.

 

SPP: A cena é forte, o mercado é fraco, não? 

 

DB: Bom, falando de música eletrônica, o Subtropics tá rendendo e deve se expandir com a adição de mais projetos. Fora isso tem bastante gente de outros estilos, Teknopolis chama atenção. Fora da eletrônica a galera do Clube da Luta tem enchido a Célula com frequência. EPs da Verano e Cassim & Barbaria. Falta alguém estourar pro Brasil todo e virar o ‘spotlight’ pra cá, mas as coisas estão indo bem, na medida do possível.

 

7 – Uma idéia para o futuro?

 

DB: Com a popularização dos softwares de discotecagem/produção e a constante queda nos preços de laptops, o que a gente quer é que mais e mais artistas apareçam, para que a coisa fervilhe. EPs colaborativos como o do Cello Zero e o próprio Subtropics são ótimos frutos de artistas que se encontraram na internet, às vezes nunca se viram, e estão trocando idéias, timbres e beats. Que venham muitos mais. Esse é o futuro.

 

SPP: Alugar uma casa maior, comprar um caiaque, perder uns quilos (Isaac), gravar nosso álbum (ainda em 2009) e dominar o mundo em 2010! Por enquanto está bom.

 

MT: Ficarmos ricos e famosos pode? (risos)

 

Sete Questões para Leandro Chaves

Posted in sete questoes with tags , , , , , on 29/10/2008 by transitoriamente

 

Leandro Chaves nasceu na simpática Palhoça, na Grande Florianópolis, e ao longo dos últimos 12 anos vem trilhando uma carreira de sucesso no mundo publicitário catarinense, com uma série de prêmios conquistados (Diretor de Arte do Ano no Prêmio Catarinense de Propaganda em 2004 e 2006, shortlist no Festival de Cannes 2008, shortlist no Festival de Londres 2008 e no Festival Mundial de Publicidade de Gramado – Edição Extra 2008 conquistou prata e bronze) e trabalhos de criatividade relevante.

Talvez, devido a sua visão de mundo particular e desprendida dos padrões comuns e de certa forma avessa em ser o centro das atenções, Lelê (como é chamado) parece não se encaixar na figura típica de um publicitário. Sua alma e o seu talento de artista transbordam criatividade, versatilidade e fazem a diferença num mercado cada vez mais atolado de mesmices.  

 

1) Inicialmente para que as pessoas consigam entender o que você faz, qual a função de um diretor de arte numa agência?

Além de criar, o Diretor de Arte é responsável pela qualidade visual de toda a comunicação da agência e seus clientes. Isso envolve dirigir muitas pessoas durante todo o processo que vai da criação da peça até a sua veiculação ou impressão.

Etapas do processo:

Criação – aprovação – produção – finalização – veiculação(quando houver) – impressão.

Criação – é feita internamente sempre que possível em grupo, duplando (sic) com redatores, é um processo bem descontraído mas sempre com o foco no briefing.

Aprovação – O atendimento leva até o cliente as campanhas criadas pela agência para aprovação, as vezes é solicitado por ele a presença da equipe de criação em suas apresentações.

Produção – o acompanhamento do Diretor de Arte durante a produção é essencial para alcançar o máximo de qualidade, tanto no meio gráfico quanto no eletrônico.

Finalização – É o momento onde serão feitas as revisões finais.

Veiculação (quando houver) – durante a veiculação o diretor de arte confere a qualidade da impressão e acabamento.

Impressão – é responsabilidade do Diretor de Arte junto com o produtor conferir o acabamento do material impresso, cores, dobras, facas especiais, etc…

2) Há pouco mais de 10 anos atrás a arte, numa agência, era feita a mão. Atualmente os meios eletrônicos tomaram conta das agências. Quais as vantagens e as desvantagens disso?

Só vejo vantagens.

Eu agradeço muito por ter passado pela fase que tudo era feito na prancheta, no pincel, a finalização era no nanquim e na fotocomposição, e os prazos eram bem diferentes também.

Hoje tudo é mais fácil, você tem na sua frente qualquer informação, é só dar um clic.

Os layouts são muito próximos do material final, com impressões em alta definição, porém o processo criativo continua o mesmo, ainda uso muito o lápis e papel para esboçar as idéias e definir qual é o melhor caminho para uma campanha.

Outro dia um amigo estagiário, recebeu um job e vi ele quebrando a cabeça durante horas tentando criar direto no computador, mas ele tinha limitações no domínio do programa que estava usando, dei a ele lápis e papel e pedi para ele desenhar algumas idéias e esquecer o computador nesse primeiro momento, o trabalho dele rendeu muito mais.

As grandes idéias não dependem dos MACs ou dos PCs.

3) Você, sendo um diretor de arte com grande experiência no mercado, consegue separar a arte da publicidade ou elas inevitavelmente se misturam?

“Fluir” é uma palavra que eu admiro muito, eu acredito que tudo o que você consegue fazer fluindo se torna uma arte. Estou na BZZ há um ano e meio, lá eu sinto em vários jobs o meu trabalho “fluindo”.

4) Porque você ainda não expôs nenhuma das suas obras, sendo que você é um talentoso escultor?

Tenho várias idéias com relação a isso, porém falta amadurecer, ainda estou em fase de experimentos, mas acredito que em breve poderá rolar.

5) Como você iniciou na arte? Alguém lhe incentivou ou simplesmente “aconteceu”?

Na minha infância sempre tive uma inquietação, uma necessidade de estar sempre criando algo novo, pintando, desenhando, esculpindo… Quando comecei a trabalhar em agência tudo ficou mais voltado para o lado profissional, mas paralelamente sempre trabalhei em casa com as minhas “criações”, no meu estúdio.

6) Além de artista você também é surfista. Que ensinamentos do surf você leva para a sua arte e vice-versa?

“Fluir” é a palavra que levo do surf para a minha vida, sempre acreditei que quando as coisas fluem é porque se está no caminho certo.

7) Uma idéia para o futuro?

SOLIDARIEDADE