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Sete Questões para Tom Custódio da Luz

Posted in musica, sete questoes with tags , , , , , , , on 20/06/2012 by transitoriamente

Evitar a comparação é tão incrivelmente complexo quanto imaginar andar sem chão. Somos inevitavelmente compelidos a comparar qualquer sinal de estímulo, tudo com todos, e salvo a nossa aparente limitação de cruzamento de dados, sempre precisamos encontrar o par de algo.

Estou com o CD promocional de Tom Custódio da Luz em minhas mãos (Produzido por Oliver Dezidério e Direção Artística de Raul Albornoz), e confesso que ainda me agrada a ideia do CD, da ordem das músicas propostas, da foto da capa e por quais motivos ela nao está na contracapa. Esse senso se perdeu no mundo virtual, mas aí o papo é outro.

Catarinense de Blumenau, o jovem compositor reúne Tom e Luz em seu nome, um quase presságio, ou talvez apenas uma responsabilidade prévia.

Fui pego mais uma vez pelo ato da comparação direta, o que se não bem dosado pode levar uma ideia ao desdém prematuro ou ao excesso de bajulação de quase todas as coisas.

Enquanto ouvia Luz, a conversa rolava na sala, e nas brechas das palavras conversadas algumas coisas me chamavam a atenção.

“Tudo bem”, pensei enquanto tentava encaixar os pares do jovem compositor. Mas espera aí, lá estavam João Gilberto, Chico, Caetano, Camelo e Jeneci, pra ser bem simplista e chegar logo a uma conclusão. Que nada, Luz conseguiu dar seu toque em poesias muito bem escritas, danadas no bom tom. espertas. Além da competente banda que conseguiu o belo feito de não soar acima do cantor.

Se nada mais me chamasse a atenção, eu ainda diria que Luz estava ali ajudando a levar alguns estilos consagrados adiante, o que já não seria pouca coisa.

Mas o compositor se destaca do óbvio, e mesmo quando óbvio alguma coisa soa particular. Mais do que aquilo que é, a vida se faz também na ideia daquilo que pode ser. Eu acredito que Luz será.

Bom som e um abraço,

Antonio Rossa

Antonio Rossa: Tom, você se lembra do seu despertar para a música? Como foi esse processo?

Tom Custódio: Mais ou menos. Eu sempre gostei de música, e gostava de cantar quando criança. Esse gosto sumiu em algum ponto da minha infância e retornou aos meus 14 anos, quando conheci uma banda chamada Oasis, de que gostei muito, que me incitou a compor. Acho que dá pra dizer que eu comecei a viver música mais ou menos dessa maneira que vivo agora quando conheci essa banda.

AR: Sendo bem simplista, senti na sua música influências de João Gilberto, Chico, Marcelo Camelo. Quais as infuências que a gente não consegue enxergar nitidamente no seu som. mas que lá estão? Poesia, pintura, literatura?

TC: Eu não sei bem como funciona esse negócio da influência. Não sei se todas as coisas de que gosto acabam aparecendo no que eu faço e é isso que se chama de influência. Não sei. Eu não tomo absolutamente nada por modelo, realmente. É claro que conhecendo certos tipos de música e descobrindo beleza nelas eu acabo, mais tarde, quando quero fazer algo bonito, quem sabe “mencionando” essas músicas, mas não faço por querer.

Então o que eu costumo dizer que é influência pra mim é o que eu tô gostando mais de ouvir no momento. Nesses últimos tempos ouvi um pouco de Queen, de Strokes, Beatles, Novos Baianos. Gosto muito desses todos, quem sabe isso fique mais ou menos aparente nas composições.

AR: A arte muda o mundo ou apenas o ameniza?

TC: Que pergunta danada. Eu acho que muda horrores. Nesse momento eu vejo a arte como uma organização muitíssimo estética do vivido e acho que qualquer tipo de organização tem implicações na maneira como se lida com aquilo que se vive.

Não fosse o rock e eu teria uma dificuldade muito maior em lidar com a minha agressividade, por exemplo, e se nunca tivesse havido o samba o significado de alegria seria completamente diferente pra mim.

Acho que a arte dá conta de certas coisas que a comunicação verbal deixa um pouco de lado e eu não consigo imaginar uma sociedade coesa sem arte. Toda experiência é sensível e alguma coisa tem que permitir uma expressão mais ou menos fiel desse aspecto da experiência.

AR: Pode-se entender um artista como alguém inquieto, e de certa forma insatisfeito, que tenta remodelar as coisas a sua volta e a sua maneira. Você tem alguma pretensão de remodelar algo e o que seria isso?

TC: Eu gostaria que muitas coisas fossem diferentes, mas isso não faz parte do meu trabalho como artista. A minha arte tem que ser inútil nesse sentido. Eu não escrevo nem desenvolvo as músicas por causa de alguma coisa, pra gerar algum resultado, senão o poema vira uma petição, um abaixo-assinado, sei lá o quê.

Quando a arte deixa de ser brincadeira, quando ela é um meio e não um fim em si ela não é mais arte e ela vira um absurdo total, pra mim. Se eu toco violão não porque eu tô com vontade, mas porque é importante pra isso e pra aquilo, tocar fica tão chato quanto ir no banco pagar uma conta. Às vezes é importante tocar violão pra estudar um dedilhado novo ou alguma coisa assim, mas aí não é arte, aí é um treino de coordenação motora, de memória visual, tátil e que serve ao propósito de tornar mais fluida e natural a brincadeira que se quer brincar.

AR: A cultura catarinense até o momento não produziu “baluartes” nacionalmente reconhecidos. O renomado escritor Cristovão Tezza, por exemplo, apesar de catarinense reconhece-se na prática como paranaense. Como você avalia essa “não-projeção” dos nossos artistas?

TC: Não sei o que acontece, nunca problematizei isso. Quem sabe haja pouco incentivo.

Eu morei em Piçarras e Balneário Camboriú antes de me mudar pra Florianópolis, e essas duas primeiras cidades não têm teatros, então qualquer peça, qualquer musicista não pára ali. Em Floripa tem, mas é incrível como os artistas parecem pular Santa Catarina nas suas turnês. Parece-me bastante entranhado no saber popular que essas coisas só vão pra frente lá em São Paulo. Eu mesmo tô louco de vontade de ver minha música tocando lá pra ter o conforto de saber que tá tudo dando certo. Mas não sei, nunca pensei bem a respeito.

AR: Você está mais para “jovem novo” ou um “jovem-velho? Por quê?

TC: Haha, como assim?
Quem sabe novo no sentido de que é novidade, velho no sentido de que algumas coisas que aparecem nas minhas composições fazem um pouco de referência a coisas mais antigas de que eu gosto. Mas se for pra ver assim, isso serve pra tudo no mundo. Cada coisa tal qual é novidade, porque é a única desse jeito, mas ao mesmo tempo faz uma referência a uma coisa que precedeu ela, então esse negócio de novo/velho aí não serve pra muita coisa. É coisa de sentir o gosto mesmo, tem que ouvir a música pra saber o gosto que tem.

Pra mim o meu trabalho não é nada disso, afinal ele é meu projeto de vida. Tudo de mais verdadeiro que eu tô vivendo acaba aparecendo nas minhas músicas e não é novo ou velho, ou mpb ou pop ou rock, é aquilo que é.

AR: Uma ideia para o futuro…

TC: O próximo cd, se tudo der certo.

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